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domingo, 10 de novembro de 2013

Eu sou o Pássaro-do-Sol

Mania de falar de livros. Café combina muito bem. Tanto com os livros, como com a mania de falar deles. Numa das tantas reclamações da ausência do mesmo, alguém, inusitadamente, se compadece da minha súplica e aumenta o coro "Alguém dê por favor um café para o Senhor". Algo realmente bobo. Num tom que parecia sem maiores pretensões. Parecia. Desconfio seriamente que naquele 20 de agosto ela já sabia mais sobre mim do que eu imaginava. Mas, pouco importa hoje ou algum dia. Lívia, não era o nome dela, mas, é assim que vou chamar. Poderia se chamar Ana, Bárbara ou Catarina. Uma mulher comum apenas. Talvez. Cheia de medos e vontades. Gostava de ler, tinha vergonha em dizer que consumia pornografia todos os dias e adorava os personagens da Disney. Não morava perto. Falei que não gostava de pessoas de longe, ou se gostava, não criava maiores expectativas. Ia acontecer algumas vezes, muita vontade, a distância iria doer e nos afogaríamos em horas gastas de longos diálogos em tecnologias que não aquecem o pé no inverno. Também gostava do inverno e odiava o calor do Rio, mesmo tendo nascido lá. Mas, pouco importa, sabia que ia terminar os estudos e morar num lugar frio. Talvez com neve. Quem sabe o Canadá. As roupas longas escondem bem os hematomas e ela tentava preservar eles, mesmo com a facilidade que tinha em não se marcar. Queria ser marcada. Mas, os homens sempre a tratavam como princesa, aquelas que gostava, mas, não queria ser igual. Sempre preferiu os vilões e o ser forçada. Aliás, era o que mais desejava sempre. Ser forçada a tocar outra mulher, a ser objeto para muitos homens, ser forçada a ser privada e privada. Mas, no mundo real é difícil falar  algo assim. Ainda mais pela educação que teve, extremamente conservadora e respeitosa.
Não demorou muito para os diálogos longos logo demonstrarem o interesse da moça. Avisei que não se iludisse, eu tinha outras e de muito mais perto. Não se importou e ainda se fez mais presente. Tão presente, que desembarcou no aeroporto. Fiz todo aquele terrorismo "irá se ajoelhar e beijar os meus pés no aeroporto, na frente de todos, como prova do que quer... não, apenas vir não demonstra nada". Acabei arranjando motivos e houve um atraso proposital. Mandei que pegasse um táxi e que fosse para o hotel. Que tomasse um banho, apagasse as luzes e me esperasse vendada. Não, ela não iria me ver. Um ótimo primeiro contato. Claro, detalhes técnicos. Porta fechada. "Deixe o seu recado após o sinal, bipi", caixa postal. Bato na porta. Escuto um arrastar do outro lado e logo a maçaneta não me impede mais. Tremendo, era de se esperar. Respiração alterada. Gostei do cabelo dela, faz volume entre os dedos. Puxo um pouco para o rosto ficar melhor exposto. O primeiro tapa, mesmo com a pouca luz que teima em entrar pela janela, deixa a bochecha vermelha. O próximo é no outro lado, simetria, com as costas da mão. Um pequeno gemido. Curto. Boto ela de joelhos pra cheirar a minha braguilha. Apenas. Não há palavras. Ela tenta erguer os braços para abrir a minha calça e jogo eles para trás. Apenas cheire. Entende o recado, mesmo em silêncio. Era uma noite agradável de outubro. Muito já havia sido combinado. A palavra, gestos caso não conseguisse falar e sempre sem perder o foco "você vai ser apenas testada". Tolice minha pensar assim. Ou pelo menos dizer algo assim em voz alta, sendo que sei que gostei dela, a doçura e o tanto que faz por mim. Antes mesmo de pisar na ilha já havia chamado ela de egoísta e que só estava vindo porque não havia encontrado alguém com coragem de dizer isto antes. Eu sei que doeu. Mas, se não dói, não é real. E sem dúvida o que ela procurava era abandonar a máscara, aquela que tanto pesava no rosto pra fingir ser "boa moça". Ela era uma vadia, nunca duvidou disso, mas, a vergonha não deixava de ser maior por conta de tal certeza. "Não tenha pena de mim" foi uma das últimas frases antes do silêncio de hoje. E ela tinha esperança que realmente tivesse. Aquela noite aconteceu, coisas simples e básicas, que servem pra leitura do outro. Corpos estranhos dão muito trabalho para a percepção. Estava cansado e logo fechei os olhos. Tive a sensação que continuou a me observar, como se tudo o que tinha desejado acabara de ganhar pelo e cheiro. Acordo com a mesma impressão. Tenho dúvida se ela pregou o olho. Não teve café, fomos direto para o almoço. Ela parecia muito feliz. O jeito que me olhava era um mau sinal. Estava apaixonada e tenho medo de pessoas que assim tão fácil se entregam. Tudo tomaria proporções muito grandes. Logo já planejávamos a próxima visita, o quando iria conhecer as outras moças e confessou querer morar no Sul, sempre quis. Mais um motivo. Logo uma longa despedida no aeroporto. Tive outro pressentimento, agora era o lugar.
Mais uma vez voltei ao aeroporto e agora na chegada. Seria um tempo maior. Faço pouco dela balançando os pés na sua chegada. Responde balançando uma colinha imaginária. Ela não sabia que "colinha" era o diminutivo de "cola", que era sinônimo de rabo. Dava sinais caninos. Gostava disso. Já que agora não era mais test drive, iria pegar pesado. Mas, logo amolece o meu coração trazendo um "Hitachi vermelho" como presente. Claro que tinha todo o interesse do mundo naquele brinquedo. Não deixava de ser egoísta, mesmo estando agora eu num pedestal. De joelhos novamente, agora já sem as calças, uso, abuso e aviso que vou mijar na cara dela. Pânico nos olhos, feche eles. Logo a boca se abre e percebe que não é tão difícil. Bem mais dócil. Dessa vez numa das noites iremos beber. Sal, limão e tequila. Sem brinquedos ou coisas complicadas. Sentir, rir, beber e conversar. Logo a garrafa não tem muito e ela demonstra a fraqueza pra bebida. Odeio gente bêbada. Logo vem o choro, as declarações de amor e o quanto a distância tem sido difícil. Banho gelado e boto pra dormir. O que era pra ser diversão virou puro incômodo. Poderia ter ido embora e deixado ela dormindo. Teria sido uma ótima lição, mas, realmente, tive pena. Durmo sozinho na cama ao lado. Mal pisco os olhos e reparo ela ajoelhada na beira da minha cama e se desculpando. Minha cabeça está quente e não é um bom momento pra conversar. Viro pro outro e ignoro. Pisco novamente e a boca dela corre o meu corpo. Chuto e sou estúpido, como não gosto de ser. Levanto e começa o sermão, não o da montanha. Se ela tinha vergonha das coisas, era um bom motivo pra sentir. Qualquer surra teria sido menos dolorida do que um "mocinha, você não é uma boa menina...". Camarões, só restava a fome. Mas, abençoados aqueles que tem a memória curta e o tesão longo. Mais uma vez o aeroporto. Está cada vez pior.
Um longo período, a saudade só aumenta. Ela viaja muito e logo está aqui novamente. Desta vez será curto, logo volta para o meu aniversário. Nem parece que o tempo passou tão rápido. Uma ligação, duas, três, é melhor atender. Volta correndo pra casa. Agora, a longa despedida no aeroporto. Era o momento que temia. Sei que não nos veremos mais tão cedo. Alguém descobriu o que saltava aos olhos. Promessas e mais promessas. Ela sumiu. Sem contato por qualquer meio.
O silêncio era muito alto e logo descubro que tem agora outra vida, onde finge para todos que deixei de existir. Mas, os livros, os contos, as horas de conversas e os gemidos marcaram o corpo. Descobri que virei uma pena no pulso, aquele que morre e ressuscita. As Coisas Frágeis do Gaiman. E mais uma vez o que me sobra é o silêncio.

House of the rising Sun

Texto originalmente publicado na revista digital Kink 101 - Edição 3 - Ano 1

2 comentários:

Sunsetmoonrise disse...

Leitura sofrida de um bom conto.

Savannah - Savi disse...

Olá..

Minha nossa que lindo..até chorei.. pura sacanagem chorar nesse dia..

Mas é perfeito... "..mas, se não dói, não é real.." que lindo...

um abraço

savannah