Páginas

domingo, 11 de agosto de 2013

Breviário Obsceno XVII - 4 am

Já era madrugada alta. Um quinta ou sexta-feira quente de fevereiro de 2009. Havia cumprido meus ritos de prostituto musical naquela noite. Sobraram as fomes do mundo. O sexo e a comida.
Nosso acordo era simples. Ligava, ela atendia e eu ordenava o que queria. Sem frescuras e sem laços maiores. Nunca dividia o sono. Estava lendo mais uma vez A insustentável leveza do ser. O telefone mal tocou duas vezes.
- Sim. O que quer?
- Daqui uns 10 minutos apareço aí. Deixe a porta aberta, aquela toalha que gosto no banheiro e faça um molho de gorgonzola para uma massa simples. E não fique se enrolando. Estou com fome.
Estaciono o carro na rua oposta e com poucos passos chego no condomínio. O porteiro já entendia os meus hábitos noturnos e nem flagrava mais onde estava indo, Apenas um aceno e o longo corredor até o pequeno apartamento. Porta entreaberta e vejo aquele corpo manchado de tinta debruçado sobre o fogão. Não falo nada e vou direto para o chuveiro. Ela sabia que não deveria falar nada, apenas aguardar.
Ainda com algumas gotas que teimavam em grudar na pele, sento nu a mesa. Há um prato generoso de penne e uma cerveja que logo se aproxima e abre. Pego o braço esquerdo dela e indico que fique com os meus pés enquanto como. Havia muito sal e nenhuma pimenta. Dou algumas garfadas e logo perco a fome. Levo o prato até o meu colo e despejo o que sobra por sobre um misto de cadeira, minhas pernas e outras partes. Percebo que logo entende que não gostei do que comia e resta a ela limpar isto. O tampo de vidro da mesa era generoso em não esconder as expressões dela.
- Coma.
Rapidamente abandona os meus pés, que agora se encontram mais molhados do que no banho, e se debruça pelos restos. Bebo vagarosamente. Vez por outra, ergo sua cabeça e vejo o quanto suja está. E ela sorri. Depois de algum tempo, não há mais restos e peço outra cerveja. Levanto, vou até a cama, sento com as costas encostadas na parede fria. A janela está aberta e os vestígios da Lua Cheia invadem o quarto. Abro bem as pernas e ela, mais uma vez, parece entender o que não falo. Arrasto sua cabeça para o meio delas. Estou cansado, olho para a noite, dou mais alguns goles e o gozo vem.
- Quero outra toalha.
Mais um banho, visto as roupas, deixo o resto da cerveja na pia do banheiro. Ela estava aberta na cama, na mesma posição que eu estava antes. Talvez tentasse entender o que via pela janela. Desconfio que não viu. Enquanto passo pela porta, ela tenta dar boa noite. Deixo a porta como está. O corredor é longo. Aceno para o porteiro. A noite é quase dia e aquele dia queria ficar só. Ponho a mão no bolso e minhas chaves ficam no apartamento dela. Olho para o telefone e decido caminhar.

Noite quase dia.