Páginas

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Binder

O relato que segue abaixo foi um castigo. Não o ato praticado no mesmo, mas sim o ato de relatar. Talvez nem tudo descrito seja fidedigno ao ocorrido, afinal nem sempre a vida tem tantas cores quanto a arte. E antes que perguntem, o castigo foi exatamente por não ter presenciado o ocorrido.  


Um dia rotineiro, como tantos outros na minha curta existência. E eu, ávida para quebrar ele, o dia, em estilhaços.
Sei que a aula vai ser tremendamente sonolenta. Decore o conceito e pronto, tudo ao som do ritmo suave e profundo  do canto gregoriano que um tal professor velho costuma chamar de aula. Preciso de algo novo, sem água gelada com gás para acordar, alguma coisa que me prenda a aula, literalmente.
Atrasada como sempre, levanto da mesa sem terminar o almoço, visto as primeiras roupas que vejo e confiro os prendedores  de madeira na mochila. Indo em direção a porta minha atenção é desviada pelo tilintar de metais. Mais de perto descubro prendedores metálicos de pressão, e o som deles sendo empurrados uns contra os outros se transforma num sussurro de ideias. Pego dois aleatórios, e saio.
Sento no chacoalhar do ônibus, como sempre na janela da última fila, e observo os dois. Repousando na palma brilham pra mim, um de tamanho médio e amarelo, o outro pequeno e rosa, brinco com eles. Pego o maior, aperto as duas alavancas salientes abrindo como uma pequena boca de lábios paralelos. Na junta da primeira falange, meu indicador é cobaia, a tensão aberta se transforma numa leve pressão que fecha pele, carne e osso. Depois de poucos segundos a pressão aumenta, o dedo todo pulsa até ficar vermelho na ponta e branco debaixo da unha. Incômodo. Lembrei da época que enrolava meu dedo com atilho de dinheiro e o observava ficar roxo e dormente, mostrava pra todos com um sorriso infantil no rosto... Não é o que acontecerá hoje.
Desço no terminal e vou automaticamente para meu destino, meus pés são fiéis ao caminho, habilidosos em desviar de pessoas e panfletos estendidos. Minha mente busca lugares estratégicos do corpo enquanto ando. Subo as escadas, banheiro, porta trancada, vaso fechado, mochila aberta. Levanto a blusa e deixo-a pender pelo pescoço nas minhas costas. O suor escorre, lavo as mãos e me refresco entre os seios, nuca, rosto e pulsos. Empurro a pequena janela que dá para uma parede, que beleza de ventilação! Abaixo o sutiã e finalmente, posicionada em frente ao espelho,  pego meu acessório de pressão. Já aberto, aproximo da ponta eriçada de minha mama direita e solto devagar, o metal gelado agarra meu mamilo que fica esbranquiçado. Enrugo a testa e fecho os olhos com leveza. Apoio minhas mãos na pia e direciono minha atenção para essa pequena área. Não consigo segurar e solto um breve gemido, algo como um "hummm". Olá dor, da última vez que apareceu por aqui mãos quentes masculinas te trouxeram. Sinto saudade do dono delas e me pergunto o que ele achará disso tudo... Levanto a cabeça e meu reflexo espelhado fala que não é uma boa ideia arriscar uma parte tão sensível no teste de resistência que planejo. Concordo. Pressiono novamente as alavancas e o prendedor se abre, a minha boca também, o soltar provoca um efeito mais intenso e abrupto. A cor original, volta devagar.
Mais uma tentativa, força, e desta vez tento prender o beneticto no corpo do seio, de preferência onde o sutiã não toque depois. Solto, ele não pega pele o suficiente e escorrega, me beliscando. "Tec!", o som seco, e seco novamente meu suor, maldito banheiro abafado! Pego do chão minha presilha teimosa, firmo um lado de sua boquinha contra o peito e, com a outra mão, empurro mais tecido para dentro das paredinhas tensionadas. Solto abruptamente dessa vez, uma dor leve, crescente, chata, ideal para meus objetivos. Olho o pequeno item de papelaria, agora estático, brilhando de novo para mim. Abaixo as pequenas alavancas da presilha, uma se apóia na auréola do mamilo, desestabilizando o prendedor que deita, puxando minha pele para um lado. Agora vem um "Hummmmmmmm" bem mais intenso. Não contava com esse jogo de equilíbrio de forças.

Duas batidas impacientes na porta.  

Com as mandíbulas contraídas, abaixo a blusa com cuidado, aperto a descarga para fins aparentes e, ignorando o calor, coloco o casaco que cobre o prendedor protuberante debaixo da blusa. Abro a porta e duas caras feias me encaram, aperto os lábios envergonhada e escapo para a sala. Chego a tempo de observar a cara de desânimo dos meus colegas, o professor age como se ninguém tivesse interrompido. Sento no fundo (todas as cadeiras próximas da porta estão ocupadas) e percebo que estou molhada entre as pernas, tenho certeza que não só de suor, queria ter trazido uma calcinha reserva... 
A dor no seio está constante, não mais tímida. Tiro meu livro da mochila. Talvez uns trinta minutos depois uma surpresa, a dor se torna intermitente, lembrando-me sua presença de tempos em tempos. Meus dedos dos pés se contraem dentro do All Star quando as pontadas chegam ao seu máximo. Interessante.
Metade da aula, e resolvo fazer exercícios por conta própria. Meu desafio é controlar meu impulso de tirar aquela coisa do peito, as questões parecem ser resolvidas sozinhas. Faltando quinze minutos para ao fim da aula, na última questão matemática, meus números saem tremidos, minha mão parece perder a força. Mas que coisa! O objetivo do meu teste é a resistência, será que não aguento um prendedor? Testo a mão esquerda que está normal, mas escrever com ela produziu o mesmo efeito que minha destra enfraquecida.
Finalmente a aula acaba, todos se levantam e penso se deveria me preocupar. Minha bunda vibra. Pego o celular, mensagem,  "Mãe te espera pra fazer compras, vem logo pra casa". Claro que tudo o que eu queria no momento era perambular pelo supermercado. Volto de ônibus pensando nos efeitos do meu auto-teste. Estou fraca. Não quero ser fraca para a dor, não é divertido assim. Olho pra dentro da blusa e a região espremida não está vermelha como de esperado. Meu sangue parece ter fugido. As pontadas permanecem e, de teimosa, decido ficar com elas me fazendo companhia até o final da tarde. Será a salvação para meu programa tedioso. 
No caminho pra casa compro um chocolate, um presente para mim mesma. A sensação do derreter na boca é estimulante, o Opereta parece estar mais gostoso, afasto a ideia que me pareceu tendenciosa demais. 
Caminhando, meus pés independentes da consciência, uma buzina de carro quebra meu semblante sereno, minha mãe abaixa o vidro, acena pra mim. Escondo o resto da barra no bolso do casaco, não sou solidária com todos quando se trata de chocolate.
Digamos que não é meu programa favorito, sempre acabo discutindo, reclamando do tempo excessivo gasto dentro de uma loja, mas hoje estou disposta a abrir uma exceção. "Está calada...". Realmente, hoje não estou para falar, a essas alturas estimo três horas usando o prendedor. Apesar dos picos de dor estarem mais intensos, estou calma, num ato inédito engancho meu braço no da minha mãe apoiado no carrinho de compras. Digamos que é um ato suspeito, em resposta a interrogação no rosto dela, minto que estou cansada da aula. Passos lentos, o tempo flui como na densa aula de matemática, minha mão direita sempre no bolso do casaco, droga, o chocolate está amolecendo... Guardo devagar as compras, ignoro mais caras feias vindas da fila do caixa, o empacotador nunca aparece quando precisamos dele! Estou lenta. Mas já são quatro horas e meia de pressão constante, quero ir pra casa. Quero uma calcinha limpa. 
"Vou pro banho", "Mas e o café?", "depois, estou sem fome agora". Pela segunda vez hoje, banheiro, porta trancada, jogo minha roupas no assento do vaso. Calcinha molhada, pro chão. Seco, ou tento, todos os fluídos que vertiam entre minhas pernas, lavo as mãos, sento nas minhas roupas e termino meu chocolate mole. Talvez delongando um pouco, curtindo a mistura das sensações, meu reflexo como testemunha. Sem tirar os olhos do espelho minha mão sobe até o prendedor amarelo, a alavanquinha é levantada, consigo ver a marca tortuosa na auréola do mamilo. Mais um pouco do jogo de forças e a boquinha fechada se endireita na vertical, provocando minha pele sensível.
Não aproximo as pontas do prendedor o suficiente, ele parece estar grudado em mim. Preciso da força das duas mãos, com as bases das palmas. Aperto devagar tentando aproximar. Fecho os olhos, o prendedor abre e os lábios paralelos e cruéis se soltam do meu peito. Dor aguda e máxima, a sensação diminui aos poucos. Mãos apoiadas na pia, olhos abertos, pupilas dilatadas. Meu peito está em relevo, um montinho de carne prensada entre as duas marcas que ficaram. Levo as mãos na região e afasto as linhas paralelas alisando a pele sensível. Acaricio meu seio dolorido com as duas mãos. Ligo o chuveiro e o vapor d'água sobe condensando no vidro do box. A água fervendo cai na minha nuca, costas, quadril. O calor percorre meus músculos e me sinto descontrair, minha cabeça pende para frente. 
Relaxada, o alívio toma conta, a vontade de me tocar também... Um sorriso meu ao sentir a presença de uma pessoa querida, afinal, fui proibida de me masturbar.

Algo inocente, não?

5 comentários:

Lets de Assis disse...

Chamou a atenção o marcador. Autodestruição do ego???
:D

elfah disse...

Prendedor, mamilo, resistência, só tenho uma opinião sobre isso: Ai!!!

E castigo de quem? Fiquei curiosa....

:*

_lua_ disse...

Inocente sim.

Indolor??? Creio que não. rs

Beijos Jonatan.

=)

Laura disse...

Prende, solta, abre, fecha, alívio, tesão e dor. Esse movimento de vai e vem é inevitável e transmite ritmo para as vontades.
Como respirar.
Um texto com cor, sem cor-de-rosa.

:)

Monjh - Senhor dos Muitos Nomes disse...

Aqui está mais desatualizado que meu blog.