Páginas

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O primeiro encontro

O texto que segue foi originalmente publicado em iFetiche


Este é um relato nem muito fiel e muito menos mentiroso sobre coisas que ficaram guardadas na minha cabeça. Talvez, o tempo e outras coisas preencheram melhor os silêncios do que ocorreu e tornaram o que vou escrever mais interessante (ou não).

Meados de 2005 ou 2006, não lembro bem. Já havia pesquisado um bocado sobre o tal do BDSM, mas, nada parecia muito claro ou certo. Imagina, sentia vontade de fazer coisas malvadas com as pessoas, não pode ser certo.
Daria um passo hoje diferente para o conhecimento sobre o assunto. Iria participar de um encontro com pessoas que gostam também dessas coisas. Bem, não sei do que eles de fato gostam, mas, vou lá para descobrir.
O encontro seria num bar, Centro de Florianópolis. Não imaginava que haviam outras pessoas assim por aqui. Tudo bem, Rio, Sampa ou na gringa, tem muita gente que gosta disso, cheios de couro e algemas. Mas, aqui? Todos tão provincianos.
Fui, como sempre vou aos lugares, mais cedo do que a hora marcada. Mania ou frescura, preciso conhecer bem o lugar e escolher algo que me dê vantagem. Cheguei em torno de quinze minutos antes. Não havia ninguém no lugar além dos garçons. Literalmente, bati na porta para que abrissem o bar para mim.
Estava nervoso. Odeio me sentir inferior sobre um assunto. Não sei das experiências dos demais. As minhas foram dadas de forma natural. Um filme pornô com alguns elementos diferentes, um pouco de experimentação com namoradas. Bem, virgem e inocente não sou. Então, é apenas uma forma diferente de sexo. Nada que o mundo não tenha visto e refeito desde que a roda era quadrada.
Hora do encontro, e eu sozinho aqui. Será que não vem mais ninguém? Seria bem engraçado se eu fosse o único. Vou pedir uma bebida. Sex on the beach.
Quinze minutos, e ninguém chega. Metade do drink se foi. Vou terminar o copo com calma, pagar a conta e vou embora.
O copo acabou. Vou pedir mais um. Essa coisa de beber sozinho no bar com os garçons, pedir apenas um e ir embora é muito coisa de perdedor. Já que estou aqui, vou deixar que as coisas aconteçam. A noite apenas começou e não vou me inviabilizar do que estiver disposto para mim.
Quarenta minutos fora do horário e o segundo copo acabou. Vou pedir mais um. O barman caprichou dessa vez. Vou querer outro assim. Algo vibrando no meu bolso. Telefone!
- Alô. Quem fala?
- Oi, Jonatan. Aqui é o XXXXX (nomes não serão expostos neste relato, fora o meu, é claro). Sou aqui de Balneário. Estou chegando no bar. Todo mundo por aí? Muitas gostosas?
- Olá, XXXXX. Por enquanto, estou bebendo com os garçons. Não chegou viva alma. Mas, devem aparecer mais pessoas (Dionísio era generoso e já lubrificava o meu ânimo). Umas dez pessoas afirmaram a presença na comunidade.
- Aguarda aí, que já estou chegando.
Nisso, encosta um carro na frente do bar cantando pneus. Alguém queria dizer que chegou.
Como eu era a única pessoa no bar, não foi difícil quem chegou me identificar.
- Opa! Acabei de falar contigo no fone. Não chegou mais ninguém?
- Olá, ainda não. Chegou rápido. Pensei que ainda estava na estrada.
- Não, estava aqui perto mesmo.
Ele, visivelmente, já estava bêbado, e talvez até drogado (ou possuía tantos cacoetes, que simulava isso muito bem). Aquele volume ali na blusa dele é uma arma. Bêbado, armado e talvez drogado. Você veio no lugar certo, Jonatan.
- Sou Policial Federal. Espero que eles não reclamem que eu estacionei na calçada ali na frente.
Eu olho pra ele com um silêncio mortal. Pra quebrar o gelo, ele continua seguindo com frases cada vez mais inspiradoras.
- Cara, espera todo mundo chegar. Eu tenho um apartamento enorme lá em Balneário. Vamos todos pra lá, ficamos pelados e todo mundo faz uma mega-suruba, se batendo e apanhando. Curte os dois também?
- O que?
- Bater e apanhar.
- Eu pensei que fosse homens e mulheres.
- Também. Também curto ambos. O que vier, eu topo. O negócio é a putaria e a pancadaria. Tomara que todos gostem também. Curte né?
- O que?
- Tudo, oras... O pessoal que curte esse tal de sadomasoquismo é liberal. Lá nas casas de swing que vou, não rola bem de tudo.
- Swing?
- É, eu também curto bastante.
Bem, naquela hora ponderei se deveria estar ali mesmo. Não era bem aquilo que queria, principalmente com um cara visivelmente louco querendo me arrastar pra uma orgia. Vou terminar o copo e pedir a conta. Ele que fique para esperar os demais.
No meio tempo, entre o fim do copo e pedir a conta, outras duas pessoas aparecem. Homem e mulher. Talvez, um casal. Parecem simpáticos. E não são tão loucos quanto o que está sentado do meu lado.
- Olá, eu sou a YYYYYY. Nos falamos antes. Esse é o WWWWW.
- Olá.
- Eu sou o XXXXX, de Balneário. Vem mais alguém? O que vocês acham da gente ir lá pro meu apartamento e fazer umas coisas mais quentes? Todo mundo curte aqui, né?
- Curte o que?
- Ora, esse lance de sadomasoquismo.
- O encontro é exatamente pra conversarmos sobre isso, não? Mas, vamos com calma.
Nisso, o moço da putarianomeuapartamento levanta e vai no banheiro. Momento perfeito para comentários maldosos sobre a pessoa dele.
- Só me digam que vocês dois não são loucos como ele. Vou me sentir muito bem.
- Quem é essa figura?
- Boa pergunta. Mas, eu, sinceramente, não quero conhecer. Ele disse que é policial. Percebi mesmo que está armado.
- Não brinca.
- Sério, seríssimo. Ele veio com o discurso de "Todo mundo se batendo e apanhando pelado no meu apartamento". Assim, ele quase acabou com as minhas expectativas sobre o tal do BDSM.
- Nem todo mundo é como ele.
A noite continuou depois dele voltar do banheiro. Mais uma moça apareceu para o encontro, muitas conversas e ninguém correu pelado atrás de mim com um chicote naquela noite. Nunca mais vi o louco do putarianomeuapartamento,todomundopeladosebatendo (e fiquei feliz com isso).  
 

3 comentários:

elfah disse...

hauahuahauhauhahua....

Imagino vc novinho, com carinha de inocente, e o cara louco de "putarianomeuapartamento" :P

Sempre adiantado :*

^^
Ótima maneira de expressar acontecimentos em palavras, como sempre :*

elfah disse...

Vc tbm sempre pega alguém dos encontros, incrível isso :*

Quíron disse...

Imagino o que não foi aguentar esse idiota. hahhahahahahahah

E vc continuou ainda. Quem quer muito, não larga o osso facilmente.

Abraço.