Páginas

domingo, 20 de maio de 2012

Brasa

Texto originalmente publicado em iFetiche


Nunca havia fumado. Já havia passado da idade de começar com certos vícios. Mas, numa banheira de motel, aquele cigarro forte fazia uma fumaça densa por sobre as águas. Experimentei. Nem tossi. Muitos amigos fumantes. Ela branca, esparramada nos meus braços comenta.
- Fazia muito tempo que não fumava. Por que trouxe este maço se você nunca fumou?
- Queria te ver fumar. É muito sexy. Ainda mais assim, nua, deitada numa banheira e nos meus braços.
- Sabe que a gente não dá mais certo. Fora a cama, é cada um para um lado. Não adianta, você roubou de mim a vontade de ser. Sou uma boneca para a tua libertinagem.
- Não queria que você tivesse tão apagada assim.
- Você roubou tudo, absolutamente tudo de mim.
E assim, ela puxa mais um cigarro do maço. Acende, põe em minha boca e se cala.
Não existia contrato, e muito menos diálogo sobre o que fazíamos. Apenas éramos amantes. Ela da dor, eu do martírio. A culpa que tinha em fragilizar alguém tão branca e pura, aquela que manchei de sangue era o peso sobre os meus ombros. É isso que dá roubar a pureza. A dela nunca será a minha.

O nosso cenário era um motel. A peça era dada em três atos. Hoje ela seria amarrada na pilastra do centro da suite. Mamilos rosáceos e grandes. Nunca haviam sidos tocados por outro alguém. Ela era apenas minha, como sempre foi.
Pergunto pra ela o que está disposta a fazer por mim hoje. Ela nunca responde. Sempre interpreto isso como um tudo. Nunca reclamou ou pediu que parasse.
Já estava com o cigarro na boca. Brincava de soltar a fumaça no seu rosto, e ela ali morta de vontade de apanhar. Conhecia o movimento dela e não demoraria para me entregar também aqueles prazeres malvados.

- E se eu te queimar com o cigarro? Você toda amarrada assim, fica bem fácil de fazer qualquer coisa com ele.
- Por que não queima logo no meu peito?
- Não está falando sério...
- Seu covarde, sabe que eu aguento.
- Isso vai marcar ele. Não sabe o que está falando.
- Frouxo.
- Não adianta ficar me provocando. Não vou fazer.
- É bem por isso que a gente não dá certo. Você não tem bolas para bancar as atitudes que supostamente deveria ter. Por isso, a gente não pode mais dar certo. Você me ensinou algo muito maior do que você.
- Não sou frouxo.
- É sim. Vai ficar culpado, como sempre fica, depois de me quebrar toda no sexo.
- Não é bem assim.
- Quem te conhece mais do que eu? Sei bem que nunca foi tão fundo nisso como é comigo agora. Solta tuas amarras. Quem está amarrada aqui sou eu. Aguento a brasa. Lembra "pode vir quente, que eu estou fervendo".
- Não quero te machucar.
- Você já transbordou o me machucar. Agora, quero ser machucada.

Chego perto dela. Meu coração quer sair pela boca. Uma tragada pra deixar a brasa viva. A mão esquerda vai na boca dela e a direita conduz o cigarro no mamilo. O cigarro apaga no contato com a pele branca como gelo. Busco o fogo. Mais uma vez a brasa vermelha. Outra vez, o cigarro apaga. As lágrimas nos olhos dela são um misto de prazer e dor. O cigarro apaga.   

Guimba ou bituca



2 comentários:

Natacha Dick Gerling disse...

ai.Doeu em mim.

elfah disse...

Esse é um conto que sempre paro depois de ler para repensar as palavras, imaginar ela nessa situação, pensar em vc na forma que ela diz... E sentir a dor, muito maior do que o cigarro, a dor de querer ser machucada por alguém que quebrou a sua alma...