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quarta-feira, 30 de maio de 2012

Diálogo sobre a dor

Texto originalmente publicado em iFetiche


A estrada era escura e a noite fria. O inverno ainda não havia chegado. Talvez não chegasse tão cedo. Fazia um bocado de tempo que não conversava com ela. Não as conversa de internet. Os dois, no carro, voltando de uma noite maravilhosa. Nada excepcional. Um jantar, sobremesa, escutar uma peça de um romântico alemã, um italiano que falava com as mãos, algumas, lágrimas. A volta para casa. Ela não podia ver o mar. Passava da hora dos remédios. E com eles, o tombo é certo. Sei que esteve perdida entre devaneios e dores, mas, parecia melhor, realmente melhor.
Já havia comentado que sua escrita havia melhorado. Se perder dentro dela foi o melhor combustível para sua arte. O mote: a dor. "No inverno uso sapatos de salto alto porque não sinto dor.", foi a frase que me fez ter o insight. Será que ela sabe o que é a dor? Cada vez mais a vejo rodeando a dor. Mas, não aquela fundamental,  mas, aquela que gera o prazer. A dor como ópio, como bálsamo para os sentidos, para a vida sem sentido ou cor. Será que são ecos de mim? Ou é o egocentrismo tentando justificar o mundo que me rodeia? Realmente, não sei. Sei o quanto fico preocupado. Devo ter alguma espécie maldita de Toque de Midas, em que tudo que toco fica podre. Tento puxar o assunto. Perguntar pra ela o como ela tem convertido a dor. Ela nunca falou isso explicitamente para mim, mas, sei que o faz.
- Uso sapato scarpin em casa.
- Apenas isso?
- Também torço o dedo.
- Como?
- É, torço numa posição para doer muito. Aí, as outras dores ficam menores. Até somem.
- Hum. E não tem outras coisas?
- Mordidas. Mas, deixa umas marcas muito feias.
- Sabe o que é isso, né?
- Eu que sempre odiei a dor.
- No teu caso, ela está sendo um remédio para outras dores.
Neste momento, ponderei muito sobre o que falar e em como falar. Mas, fui só silêncio.
- Assista o filme SM-Rechter.
- É bom?
- Assista.

Cilício

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Maldita Cassandra Rios

O texto que segue foi originalmente publicado em iFetiche


Este relato não pretende ser algo motivacional como "Você conseguirá gostar de ler se insistir" ou ainda "Encontre a felicidade nos livros". Muito pelo contrário, pretendo indicar livros que irão fazer mal. Gosto de pensar que são do tipo (se é que tipificar é válido) de "auto-destruição", aqueles que ficam escondidos nos cantos mais sujos das livrarias, no qual a maioria dos vendedores não sabem do que se trata, que subvertem e que farão do leitor um maldito zombie, devorador de outros cérebros.

Durante algum tempo, como ritual matinal, antes da labuta diária, sentava eu num banco qualquer e lia. Não dependia do barulho ou do fluxo de pessoas. Conseguia facilmente me isolar de tudo quando passava os olhos nas frases. Sempre estava com no mínimo dois livros na mochila. Caso algum terminasse, haveria o outro para dar continuidade. Fazia questão de levantar antes para ter mais tempo para me perder nas páginas. Mas, este vício, não foi algo que nasceu comigo.

Fui um leitor tardio, que descobriu o prazer dos cheiradores de papel de forma indireta, quase como competição. Sempre fui curioso, perguntador, e muitas vezes até chato. Porém, não deixava de ser raso. Faltava descobrir onde a minha curiosidade poderia morrer. Sim, queria estrangular aquela maldita. Afinal, quem quer ter uma mente perguntadora? Não sei se tive sorte ou azar em ter sido um analfabeto funcional durante tanto tempo, mas, as circunstâncias daquele momento me faziam refletir que era necessário o movimento. Que fosse para afirmar a total ignorância e repúdio aos livros, pronto para atear fogo até mesmo nas pessoas, se fosse o caso, ou então, admitir a minha ignorância de forma mais humilde como "tenho muito para ler, mas, é bom eu começar logo...". E assim foi.

Procurando um dos tantos bancos, um livro que tive a curiosa tristeza de não terminá-lo foi Eu sou uma lésbica da autora Cassandra Rios. Quando digo "não terminá-lo" não significa que não findei as páginas, mas, que os ecos daquele livro ainda são vivos na minha memória. Extremamente perturbador, o livro é uma história de amor. Amor proibido de uma menina pela sua vizinha, muito mais velha e casada. Menina no sentido mais inocente da palavra. Partindo da perspectiva do sentimento, a menina, que vira moça, que vira mulher, constrói toda a sua sexualidade baseada na sombra do desejo.
Brasileira, marginal e pornógrafa, Cassandra Rios era best-seller nos tempos da ditadura militar. Alguns livros da autora são facilmente encontrados em sebos do Brasil inteiro, afinal, não conseguiram queimar todos, mesmo em tempos de repreensão. Mas, em contrapartida, pouca coisa dela é publicada atualmente. Gostaria, e muito, que os livros tivessem novas edições, afinal sou aquele tipo rabugento de leitor que gosta de desvirginar os livros.

Maiores informações sobre Eu sou uma lésbica.
Maiores informações sobre Cassandra Rios.
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Eu sou uma lésbica

P.s. É de sua conta e risco a leitura. Livros fazem mal.   

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O primeiro encontro

O texto que segue foi originalmente publicado em iFetiche


Este é um relato nem muito fiel e muito menos mentiroso sobre coisas que ficaram guardadas na minha cabeça. Talvez, o tempo e outras coisas preencheram melhor os silêncios do que ocorreu e tornaram o que vou escrever mais interessante (ou não).

Meados de 2005 ou 2006, não lembro bem. Já havia pesquisado um bocado sobre o tal do BDSM, mas, nada parecia muito claro ou certo. Imagina, sentia vontade de fazer coisas malvadas com as pessoas, não pode ser certo.
Daria um passo hoje diferente para o conhecimento sobre o assunto. Iria participar de um encontro com pessoas que gostam também dessas coisas. Bem, não sei do que eles de fato gostam, mas, vou lá para descobrir.
O encontro seria num bar, Centro de Florianópolis. Não imaginava que haviam outras pessoas assim por aqui. Tudo bem, Rio, Sampa ou na gringa, tem muita gente que gosta disso, cheios de couro e algemas. Mas, aqui? Todos tão provincianos.
Fui, como sempre vou aos lugares, mais cedo do que a hora marcada. Mania ou frescura, preciso conhecer bem o lugar e escolher algo que me dê vantagem. Cheguei em torno de quinze minutos antes. Não havia ninguém no lugar além dos garçons. Literalmente, bati na porta para que abrissem o bar para mim.
Estava nervoso. Odeio me sentir inferior sobre um assunto. Não sei das experiências dos demais. As minhas foram dadas de forma natural. Um filme pornô com alguns elementos diferentes, um pouco de experimentação com namoradas. Bem, virgem e inocente não sou. Então, é apenas uma forma diferente de sexo. Nada que o mundo não tenha visto e refeito desde que a roda era quadrada.
Hora do encontro, e eu sozinho aqui. Será que não vem mais ninguém? Seria bem engraçado se eu fosse o único. Vou pedir uma bebida. Sex on the beach.
Quinze minutos, e ninguém chega. Metade do drink se foi. Vou terminar o copo com calma, pagar a conta e vou embora.
O copo acabou. Vou pedir mais um. Essa coisa de beber sozinho no bar com os garçons, pedir apenas um e ir embora é muito coisa de perdedor. Já que estou aqui, vou deixar que as coisas aconteçam. A noite apenas começou e não vou me inviabilizar do que estiver disposto para mim.
Quarenta minutos fora do horário e o segundo copo acabou. Vou pedir mais um. O barman caprichou dessa vez. Vou querer outro assim. Algo vibrando no meu bolso. Telefone!
- Alô. Quem fala?
- Oi, Jonatan. Aqui é o XXXXX (nomes não serão expostos neste relato, fora o meu, é claro). Sou aqui de Balneário. Estou chegando no bar. Todo mundo por aí? Muitas gostosas?
- Olá, XXXXX. Por enquanto, estou bebendo com os garçons. Não chegou viva alma. Mas, devem aparecer mais pessoas (Dionísio era generoso e já lubrificava o meu ânimo). Umas dez pessoas afirmaram a presença na comunidade.
- Aguarda aí, que já estou chegando.
Nisso, encosta um carro na frente do bar cantando pneus. Alguém queria dizer que chegou.
Como eu era a única pessoa no bar, não foi difícil quem chegou me identificar.
- Opa! Acabei de falar contigo no fone. Não chegou mais ninguém?
- Olá, ainda não. Chegou rápido. Pensei que ainda estava na estrada.
- Não, estava aqui perto mesmo.
Ele, visivelmente, já estava bêbado, e talvez até drogado (ou possuía tantos cacoetes, que simulava isso muito bem). Aquele volume ali na blusa dele é uma arma. Bêbado, armado e talvez drogado. Você veio no lugar certo, Jonatan.
- Sou Policial Federal. Espero que eles não reclamem que eu estacionei na calçada ali na frente.
Eu olho pra ele com um silêncio mortal. Pra quebrar o gelo, ele continua seguindo com frases cada vez mais inspiradoras.
- Cara, espera todo mundo chegar. Eu tenho um apartamento enorme lá em Balneário. Vamos todos pra lá, ficamos pelados e todo mundo faz uma mega-suruba, se batendo e apanhando. Curte os dois também?
- O que?
- Bater e apanhar.
- Eu pensei que fosse homens e mulheres.
- Também. Também curto ambos. O que vier, eu topo. O negócio é a putaria e a pancadaria. Tomara que todos gostem também. Curte né?
- O que?
- Tudo, oras... O pessoal que curte esse tal de sadomasoquismo é liberal. Lá nas casas de swing que vou, não rola bem de tudo.
- Swing?
- É, eu também curto bastante.
Bem, naquela hora ponderei se deveria estar ali mesmo. Não era bem aquilo que queria, principalmente com um cara visivelmente louco querendo me arrastar pra uma orgia. Vou terminar o copo e pedir a conta. Ele que fique para esperar os demais.
No meio tempo, entre o fim do copo e pedir a conta, outras duas pessoas aparecem. Homem e mulher. Talvez, um casal. Parecem simpáticos. E não são tão loucos quanto o que está sentado do meu lado.
- Olá, eu sou a YYYYYY. Nos falamos antes. Esse é o WWWWW.
- Olá.
- Eu sou o XXXXX, de Balneário. Vem mais alguém? O que vocês acham da gente ir lá pro meu apartamento e fazer umas coisas mais quentes? Todo mundo curte aqui, né?
- Curte o que?
- Ora, esse lance de sadomasoquismo.
- O encontro é exatamente pra conversarmos sobre isso, não? Mas, vamos com calma.
Nisso, o moço da putarianomeuapartamento levanta e vai no banheiro. Momento perfeito para comentários maldosos sobre a pessoa dele.
- Só me digam que vocês dois não são loucos como ele. Vou me sentir muito bem.
- Quem é essa figura?
- Boa pergunta. Mas, eu, sinceramente, não quero conhecer. Ele disse que é policial. Percebi mesmo que está armado.
- Não brinca.
- Sério, seríssimo. Ele veio com o discurso de "Todo mundo se batendo e apanhando pelado no meu apartamento". Assim, ele quase acabou com as minhas expectativas sobre o tal do BDSM.
- Nem todo mundo é como ele.
A noite continuou depois dele voltar do banheiro. Mais uma moça apareceu para o encontro, muitas conversas e ninguém correu pelado atrás de mim com um chicote naquela noite. Nunca mais vi o louco do putarianomeuapartamento,todomundopeladosebatendo (e fiquei feliz com isso).  
 

domingo, 20 de maio de 2012

Brasa

Texto originalmente publicado em iFetiche


Nunca havia fumado. Já havia passado da idade de começar com certos vícios. Mas, numa banheira de motel, aquele cigarro forte fazia uma fumaça densa por sobre as águas. Experimentei. Nem tossi. Muitos amigos fumantes. Ela branca, esparramada nos meus braços comenta.
- Fazia muito tempo que não fumava. Por que trouxe este maço se você nunca fumou?
- Queria te ver fumar. É muito sexy. Ainda mais assim, nua, deitada numa banheira e nos meus braços.
- Sabe que a gente não dá mais certo. Fora a cama, é cada um para um lado. Não adianta, você roubou de mim a vontade de ser. Sou uma boneca para a tua libertinagem.
- Não queria que você tivesse tão apagada assim.
- Você roubou tudo, absolutamente tudo de mim.
E assim, ela puxa mais um cigarro do maço. Acende, põe em minha boca e se cala.
Não existia contrato, e muito menos diálogo sobre o que fazíamos. Apenas éramos amantes. Ela da dor, eu do martírio. A culpa que tinha em fragilizar alguém tão branca e pura, aquela que manchei de sangue era o peso sobre os meus ombros. É isso que dá roubar a pureza. A dela nunca será a minha.

O nosso cenário era um motel. A peça era dada em três atos. Hoje ela seria amarrada na pilastra do centro da suite. Mamilos rosáceos e grandes. Nunca haviam sidos tocados por outro alguém. Ela era apenas minha, como sempre foi.
Pergunto pra ela o que está disposta a fazer por mim hoje. Ela nunca responde. Sempre interpreto isso como um tudo. Nunca reclamou ou pediu que parasse.
Já estava com o cigarro na boca. Brincava de soltar a fumaça no seu rosto, e ela ali morta de vontade de apanhar. Conhecia o movimento dela e não demoraria para me entregar também aqueles prazeres malvados.

- E se eu te queimar com o cigarro? Você toda amarrada assim, fica bem fácil de fazer qualquer coisa com ele.
- Por que não queima logo no meu peito?
- Não está falando sério...
- Seu covarde, sabe que eu aguento.
- Isso vai marcar ele. Não sabe o que está falando.
- Frouxo.
- Não adianta ficar me provocando. Não vou fazer.
- É bem por isso que a gente não dá certo. Você não tem bolas para bancar as atitudes que supostamente deveria ter. Por isso, a gente não pode mais dar certo. Você me ensinou algo muito maior do que você.
- Não sou frouxo.
- É sim. Vai ficar culpado, como sempre fica, depois de me quebrar toda no sexo.
- Não é bem assim.
- Quem te conhece mais do que eu? Sei bem que nunca foi tão fundo nisso como é comigo agora. Solta tuas amarras. Quem está amarrada aqui sou eu. Aguento a brasa. Lembra "pode vir quente, que eu estou fervendo".
- Não quero te machucar.
- Você já transbordou o me machucar. Agora, quero ser machucada.

Chego perto dela. Meu coração quer sair pela boca. Uma tragada pra deixar a brasa viva. A mão esquerda vai na boca dela e a direita conduz o cigarro no mamilo. O cigarro apaga no contato com a pele branca como gelo. Busco o fogo. Mais uma vez a brasa vermelha. Outra vez, o cigarro apaga. As lágrimas nos olhos dela são um misto de prazer e dor. O cigarro apaga.   

Guimba ou bituca