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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Breviário Obsceno XIII - Canção de ninar

O metal não parecia mais tão frio. Aquela faca de formato estranho havia roubado algum calor de suas mãos. Uma gota de sangue acabará de cair e quebrava o silêncio. Até o bruxelar das inúmeras velas era calado. Parecia acordar de um transe, um estado ampliado da consciência que consumia toda sua racionalidade e jogava todas as suas vísceras novamente dentro do próprio corpo. Antes parecia feito de de puro vazio.
Mesmo no quase breu da sala, os adornos da caixinha de música ainda eram vivos o suficiente que para voltasse seus olhos para o objeto e percebesse que estava quase sem som. Voltou a dar corda. E com a melodia a tocar fez com que um gemido fosse percebido em dissonância à nota mais aguda. Um corpo todo manchado de sangue padecia a menos de dois pés de distância. Como não o havia percebido antes? A faca, o sangue, o corpo, as coisas que via começavam a fazer sentido. Ponderou sobre a presença de outras pessoas no mesmo ambiente. Não havia mais ninguém além deles. Sabia onde estava. Era a sua sala. Sabia quem ele próprio era. A faca foi mais um presente pra sua coleção. Mas, e o corpo? Abordar alguém que ofegava, com uma faca na mão, muito provavelmente suja do sangue dela, não era uma atitude sensata. Largou a faca do lado da pequena caixa, se aproximou ainda mais do corpo para tentar distinguir os traços, e o corpo respondeu com um abraço. Apertado e vermelho. Aquela era vizinha. Meses e meses de puro flerte e cortejos. Não sabia o que ela fazia ali, desnuda, toda ensanguentada e ainda mais abraçando tão vorazmente. Então, rompeu o silêncio.
- Por favor, meti em mim agora. Preciso.
Ele ficou sem entender nada. Como chegaram a tal intimidade? Lembra bem das conversas de elevador, do bater na porta para pedir algo emprestado, que brevemente seria devolvido. Sempre com trocas de sorrisos. Mas, nunca sentiu tal intimidade de chegar nesse ponto. Ainda mais de alguém que morava praticamente na frente da sua porta.
Ele sabia que ela sabia da sua vida sexual discordante. Não tinha namoradas, apenas coisas semelhantes, mas, tinha total autonomia. Até um certo fluxo de mulheres indo e vindo. Os barulhos, que sabiam atravessar facilmente as paredes finas que dividiam ambos, nunca foram mistério para a vizinha. Sabia que o sexo ali era assunto recorrente, e não apenas o coito tradicional. Foi objetivo e perguntou.
- Como chegamos até tal ponto?
- Realmente, não lembra?
- ...
- Bem, tomei coragem. Quantas e quantas vezes ficava grudada com o ouvido na parede, escutando e tarando as tuas fodas. Porra, é difícil arranjar um vibrador silencioso, sabia? Cansei dessa coisa de só escutar e ter meu prazer egoísta. Queria eu ser prazer pra ti. Bati na porta, você atendeu. Disse que precisava conversar um assunto íntimo contigo. Estranhou, mas, perguntou se queria sentar. Ofereceu um vinho. Fomos pra segunda garrafa, e eu já esboçava que queria ser subjugada. Acha que não te manjo? Sei muito bem que curte esse lance de "eu sou malvado". Dois anos, estou a pelos menos dois anos de fazer esse discurso. Sempre me faltou coragem. Hoje, não consegui aguentar mais. Você disse que queria tirar um pouco de sangue de mim. Foi golpe baixo, sabia? Como adivinhou que tenho esse tesão louco por sangue? Agora, por favor, imploro, me come logo, vai...
- Você está realmente bem?
- Considerando que estou a ponto de te estuprar, nunca estive melhor.
- Nesse caso, vai pra casa, toma um banho e tira todo o sangue da pele.
- Tá brincando, né? Deixa eu ensopada, ao molho pardo, e vem com essa de banho? Só pode ser piada...
- Nada disso. Falo sério. Faça isso. Amanhã bata na minha porta a meia noite.
- Não. Não vai fazer isso comigo. Vejo você comendo uma penca de mulheres todo mês e me vem com essa de "volte amanhã". Cê fuder!
- Entendeu o que eu disse?
Ela saiu louca porta a fora, nua, toda cheia de sangue.
Na mesma noite, precisamente a meia, a campainha toca. Ele vai até a porta, a vê através do olho mágico, e lentamente volta para a cama. Acaba pensando alto.
- Ela não entendeu bem qual meia noite que era. Vamos ver se amanhã volta...



  
        

2 comentários:

aurorah disse...

Hummm Sangue... acho que ela não está saciada, certamente voltará :)

Mais um ótimo texto... Continue nos alimentando MM :*

Sophia disse...

Sangue: a cor, o cheiro, o gosto, a textura! Não consigo não ser vidrada na coisa.
Estava com saudade dos Breviários Professor! Acho que não faz total ideia de como corrompe, de como alimenta as pessoas a cada palavra. Como disse certa vez, uma armadilha, um vício.