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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Breviário Obsceno XIV - O Balde

Para a leitura deste, é recomendável que leia o texto anterior.
Leia aqui.

Na primeira noite, foi relativamente fácil ignorá-la na porta. Estava bonita, mas, longe de estar impecável como hoje. Uma capa vermelha. Totalmente apelativo e desnecessário. Enfim, talvez ela soubesse mais de mim do que imaginava. Mal abri a porta e já se prostrou. Achei no mínimo fofinha, afinal, não havia dado instrução alguma sobre aquilo. Guria esperta, fez a lição de casa. Ganhou alguns pontos, mas, não sabe absolutamente nada do que pretendo fazer com ela...
- Que bonitinha... Entra, se prostra, e ainda fica caladinha. O que andou lendo?
- Como devo me referir? Senhor, Mestre ou algum outro nome em específico?
- Veja só! Até escolher o nome. As putas que gostam bastante de ter um nome de guerra. Até termos algum vínculo maior, vai evitar qualquer nomeação.
- Mas, não vê? Já estou aqui, toda entregue e implorando o peso da sua mão.
- E eu com isso?
- Um mequetrefe, isso sim. É bem isso que tu és...
Um tapa com as costas da mão. Bem dado. Apenas um. Foi suficiente pra calar.
- Em primeiro lugar: nunca mais, nem por brincadeira, me falte o respeito. Não lhe dou tal liberdade, e muito menos ainda se quer galgar algum espaço comigo.
Nisso vi um lágrima escorrer no canto do olho. Sei que o tapa foi pesado. Aposto que ela não estava acostumada com aquele tipo de coisa. Mas, se quer jogar, a coisa toda acontece com as minhas regras. Ainda me olhava fixamente, sem ter desviado um momento sequer. Gostei da determinação e postura.
- Bem, vou te explicar um pouco melhor as coisas...
Nisso, fiz uma breve explanação sobre as coisas, não sendo profundo e deixando algumas dúvidas. O necessário para que as engrenagens comecem a trabalhar.
- Certo, entendeu então que não temos um relacionamento tradicional nos moldes que conhece.
- Ficou bem claro.
- Bom, então, vamos ao trabalho. Está vendo aquele balde próximo ao sofá?
- Sim.
- Bem, fique de joelhos próximo dele.
- Mas, próximo quanto?
- Apenas próximo. O quão, controlo com a minha mão depois.
Propositalmente, a água tinha um tom amarelo cítrico. Não, não era mijo. Mas, era para parecer. Atrás do sofá havia jogado um pano que propositalmente preparado com o boas doses do líquido realmente fedorento. Malvadeza premeditada, assim que eu gosto.
- Pera aí, eu não disse quais são os meus limites.
- E quem disse que você pode ter algum?
- Tá louco por acaso? Não vou enviar a minha cabeça nesse balde de urina. Isso aqui tá fedido demais.
- É mesmo? Pena, esse seria apenas o começo da brincadeira toda. Bem, se não quer isso, pode se levantar e ir embora.
- Não, novamente não! Sério, assim você vai foder com as minhas ideias, e não com o meu corpo. Que bruxo maldito é você em conseguir controlar assim o impulso sexual dessa maneira? Não dá! Não tenho ferramentas ou jeito de fazer com que me queira do jeito que sou...
- Controlar esse impulso é o que diferencia meninos de homens. Já que não quer obedecer, levanta e vai para casa. Ou não entendeu?
- Posso negociar?
- Negociar? Acha que isso aqui é algum tipo de mercado de pulgas?
- Por favor, não entendeu. Faço algo que queira muito, mas, isso não.
- Acha que pode julgar o que quero ou não? Que petulância hein!? Não entendi ainda porque não levantou e partiu.
- Faço qualquer coisa.
- Qualquer coisa inclui o balde.
- Menos ele. Pode pedir. Sei que é criativo e vai conseguir ser muito mais cruel do que esse simples balde.
- Simples?
Ergo o balde, puxo ela pelos cabelos. A cabeça arqueia para trás e o líquido amarelo vai na cara. Tenta, mas, não consegue fugir.
- Não era mijo! Você me enganou.
- Em momento algum disse que o era.
Vejo a fúria brotando dos olhos dela, mas, antes que venha à tona, arrasto seu corpo molhado até a beira do sofá. O corpo encaixa perfeitamente, a barriga sobre o encosto e os joelhos no chão. Ergo a capa, que nada tem por baixo, e apoio meu joelho sobre a lombar. A sequência é simples, um tapa na banda esquerda, outro na direita. E assim vai, numa sequência ritmada que foge do rumo do tempo. A mão começava a ficar cansada, e adoto métodos pouco ortodoxos. O jornal de alguns dias estava no outro sofá. Faço um pequeno rolo. Parece funcional. E assim continuo.
- Estou começando a cansar. Senta agora no sofá e sente a bunda latejar.
- Amaciou a minha carne, e agora, não vai comer?
- Muito oferecida você, mocinha.
- Não é oferecida. Não vê que estou aqui pingando. Nunca ninguém fez algo parecido comigo. É bem capaz de ter um orgasmo se continuasse mais um pouco.
- Não estava aqui para o meu prazer?
- Sim, mas, também o queria.
- Quem? O prazer?
- Claro. Sei que conseguiria me dar muito prazer. Vejo o quanto sabe usar um corpo. Realmente, tenho medo de ti.
- Meu prazer já foi atendido. Se quiser pode me fazer companhia para uma dose ou então, pode se retirar.
- Porra!!! Enfia o pau em mim logo.
- Pode ir pra casa. Vai lavar essa boca suja. Retiro o convite que fiz para beber comigo.
Agora ela foi enérgica e se joga na minha frente. Tenta abrir minhas calças. Acha que pode me forçar ao coito ou qualquer coisa do gênero. Mais um tapa sem dó com as costas da mão.
- Bem vadiazinha você. Já pra casa e não me toque mais.
O pranto logo brota, ela sai mais triste do que um cachorro que caiu mudança e não fecha a porta.
Pego um copo largo, sirvo algumas doses caprichadas, sento no mesmo sofá do ocorrido e penso alto.
- Droga! Devia ter mandado ela limpar o chão antes de ir. A Dona Clotilde só vem na próxima semana. Vou terminar esse copo e já interfono pra ela. Vou deixar ela terminar de engolir o choro e tocar pelo menos uma em paz.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Breviário Obsceno XIII - Canção de ninar

O metal não parecia mais tão frio. Aquela faca de formato estranho havia roubado algum calor de suas mãos. Uma gota de sangue acabará de cair e quebrava o silêncio. Até o bruxelar das inúmeras velas era calado. Parecia acordar de um transe, um estado ampliado da consciência que consumia toda sua racionalidade e jogava todas as suas vísceras novamente dentro do próprio corpo. Antes parecia feito de de puro vazio.
Mesmo no quase breu da sala, os adornos da caixinha de música ainda eram vivos o suficiente que para voltasse seus olhos para o objeto e percebesse que estava quase sem som. Voltou a dar corda. E com a melodia a tocar fez com que um gemido fosse percebido em dissonância à nota mais aguda. Um corpo todo manchado de sangue padecia a menos de dois pés de distância. Como não o havia percebido antes? A faca, o sangue, o corpo, as coisas que via começavam a fazer sentido. Ponderou sobre a presença de outras pessoas no mesmo ambiente. Não havia mais ninguém além deles. Sabia onde estava. Era a sua sala. Sabia quem ele próprio era. A faca foi mais um presente pra sua coleção. Mas, e o corpo? Abordar alguém que ofegava, com uma faca na mão, muito provavelmente suja do sangue dela, não era uma atitude sensata. Largou a faca do lado da pequena caixa, se aproximou ainda mais do corpo para tentar distinguir os traços, e o corpo respondeu com um abraço. Apertado e vermelho. Aquela era vizinha. Meses e meses de puro flerte e cortejos. Não sabia o que ela fazia ali, desnuda, toda ensanguentada e ainda mais abraçando tão vorazmente. Então, rompeu o silêncio.
- Por favor, meti em mim agora. Preciso.
Ele ficou sem entender nada. Como chegaram a tal intimidade? Lembra bem das conversas de elevador, do bater na porta para pedir algo emprestado, que brevemente seria devolvido. Sempre com trocas de sorrisos. Mas, nunca sentiu tal intimidade de chegar nesse ponto. Ainda mais de alguém que morava praticamente na frente da sua porta.
Ele sabia que ela sabia da sua vida sexual discordante. Não tinha namoradas, apenas coisas semelhantes, mas, tinha total autonomia. Até um certo fluxo de mulheres indo e vindo. Os barulhos, que sabiam atravessar facilmente as paredes finas que dividiam ambos, nunca foram mistério para a vizinha. Sabia que o sexo ali era assunto recorrente, e não apenas o coito tradicional. Foi objetivo e perguntou.
- Como chegamos até tal ponto?
- Realmente, não lembra?
- ...
- Bem, tomei coragem. Quantas e quantas vezes ficava grudada com o ouvido na parede, escutando e tarando as tuas fodas. Porra, é difícil arranjar um vibrador silencioso, sabia? Cansei dessa coisa de só escutar e ter meu prazer egoísta. Queria eu ser prazer pra ti. Bati na porta, você atendeu. Disse que precisava conversar um assunto íntimo contigo. Estranhou, mas, perguntou se queria sentar. Ofereceu um vinho. Fomos pra segunda garrafa, e eu já esboçava que queria ser subjugada. Acha que não te manjo? Sei muito bem que curte esse lance de "eu sou malvado". Dois anos, estou a pelos menos dois anos de fazer esse discurso. Sempre me faltou coragem. Hoje, não consegui aguentar mais. Você disse que queria tirar um pouco de sangue de mim. Foi golpe baixo, sabia? Como adivinhou que tenho esse tesão louco por sangue? Agora, por favor, imploro, me come logo, vai...
- Você está realmente bem?
- Considerando que estou a ponto de te estuprar, nunca estive melhor.
- Nesse caso, vai pra casa, toma um banho e tira todo o sangue da pele.
- Tá brincando, né? Deixa eu ensopada, ao molho pardo, e vem com essa de banho? Só pode ser piada...
- Nada disso. Falo sério. Faça isso. Amanhã bata na minha porta a meia noite.
- Não. Não vai fazer isso comigo. Vejo você comendo uma penca de mulheres todo mês e me vem com essa de "volte amanhã". Cê fuder!
- Entendeu o que eu disse?
Ela saiu louca porta a fora, nua, toda cheia de sangue.
Na mesma noite, precisamente a meia, a campainha toca. Ele vai até a porta, a vê através do olho mágico, e lentamente volta para a cama. Acaba pensando alto.
- Ela não entendeu bem qual meia noite que era. Vamos ver se amanhã volta...