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quinta-feira, 5 de julho de 2012

Binder

O relato que segue abaixo foi um castigo. Não o ato praticado no mesmo, mas sim o ato de relatar. Talvez nem tudo descrito seja fidedigno ao ocorrido, afinal nem sempre a vida tem tantas cores quanto a arte. E antes que perguntem, o castigo foi exatamente por não ter presenciado o ocorrido.  


Um dia rotineiro, como tantos outros na minha curta existência. E eu, ávida para quebrar ele, o dia, em estilhaços.
Sei que a aula vai ser tremendamente sonolenta. Decore o conceito e pronto, tudo ao som do ritmo suave e profundo  do canto gregoriano que um tal professor velho costuma chamar de aula. Preciso de algo novo, sem água gelada com gás para acordar, alguma coisa que me prenda a aula, literalmente.
Atrasada como sempre, levanto da mesa sem terminar o almoço, visto as primeiras roupas que vejo e confiro os prendedores  de madeira na mochila. Indo em direção a porta minha atenção é desviada pelo tilintar de metais. Mais de perto descubro prendedores metálicos de pressão, e o som deles sendo empurrados uns contra os outros se transforma num sussurro de ideias. Pego dois aleatórios, e saio.
Sento no chacoalhar do ônibus, como sempre na janela da última fila, e observo os dois. Repousando na palma brilham pra mim, um de tamanho médio e amarelo, o outro pequeno e rosa, brinco com eles. Pego o maior, aperto as duas alavancas salientes abrindo como uma pequena boca de lábios paralelos. Na junta da primeira falange, meu indicador é cobaia, a tensão aberta se transforma numa leve pressão que fecha pele, carne e osso. Depois de poucos segundos a pressão aumenta, o dedo todo pulsa até ficar vermelho na ponta e branco debaixo da unha. Incômodo. Lembrei da época que enrolava meu dedo com atilho de dinheiro e o observava ficar roxo e dormente, mostrava pra todos com um sorriso infantil no rosto... Não é o que acontecerá hoje.
Desço no terminal e vou automaticamente para meu destino, meus pés são fiéis ao caminho, habilidosos em desviar de pessoas e panfletos estendidos. Minha mente busca lugares estratégicos do corpo enquanto ando. Subo as escadas, banheiro, porta trancada, vaso fechado, mochila aberta. Levanto a blusa e deixo-a pender pelo pescoço nas minhas costas. O suor escorre, lavo as mãos e me refresco entre os seios, nuca, rosto e pulsos. Empurro a pequena janela que dá para uma parede, que beleza de ventilação! Abaixo o sutiã e finalmente, posicionada em frente ao espelho,  pego meu acessório de pressão. Já aberto, aproximo da ponta eriçada de minha mama direita e solto devagar, o metal gelado agarra meu mamilo que fica esbranquiçado. Enrugo a testa e fecho os olhos com leveza. Apoio minhas mãos na pia e direciono minha atenção para essa pequena área. Não consigo segurar e solto um breve gemido, algo como um "hummm". Olá dor, da última vez que apareceu por aqui mãos quentes masculinas te trouxeram. Sinto saudade do dono delas e me pergunto o que ele achará disso tudo... Levanto a cabeça e meu reflexo espelhado fala que não é uma boa ideia arriscar uma parte tão sensível no teste de resistência que planejo. Concordo. Pressiono novamente as alavancas e o prendedor se abre, a minha boca também, o soltar provoca um efeito mais intenso e abrupto. A cor original, volta devagar.
Mais uma tentativa, força, e desta vez tento prender o beneticto no corpo do seio, de preferência onde o sutiã não toque depois. Solto, ele não pega pele o suficiente e escorrega, me beliscando. "Tec!", o som seco, e seco novamente meu suor, maldito banheiro abafado! Pego do chão minha presilha teimosa, firmo um lado de sua boquinha contra o peito e, com a outra mão, empurro mais tecido para dentro das paredinhas tensionadas. Solto abruptamente dessa vez, uma dor leve, crescente, chata, ideal para meus objetivos. Olho o pequeno item de papelaria, agora estático, brilhando de novo para mim. Abaixo as pequenas alavancas da presilha, uma se apóia na auréola do mamilo, desestabilizando o prendedor que deita, puxando minha pele para um lado. Agora vem um "Hummmmmmmm" bem mais intenso. Não contava com esse jogo de equilíbrio de forças.

Duas batidas impacientes na porta.  

Com as mandíbulas contraídas, abaixo a blusa com cuidado, aperto a descarga para fins aparentes e, ignorando o calor, coloco o casaco que cobre o prendedor protuberante debaixo da blusa. Abro a porta e duas caras feias me encaram, aperto os lábios envergonhada e escapo para a sala. Chego a tempo de observar a cara de desânimo dos meus colegas, o professor age como se ninguém tivesse interrompido. Sento no fundo (todas as cadeiras próximas da porta estão ocupadas) e percebo que estou molhada entre as pernas, tenho certeza que não só de suor, queria ter trazido uma calcinha reserva... 
A dor no seio está constante, não mais tímida. Tiro meu livro da mochila. Talvez uns trinta minutos depois uma surpresa, a dor se torna intermitente, lembrando-me sua presença de tempos em tempos. Meus dedos dos pés se contraem dentro do All Star quando as pontadas chegam ao seu máximo. Interessante.
Metade da aula, e resolvo fazer exercícios por conta própria. Meu desafio é controlar meu impulso de tirar aquela coisa do peito, as questões parecem ser resolvidas sozinhas. Faltando quinze minutos para ao fim da aula, na última questão matemática, meus números saem tremidos, minha mão parece perder a força. Mas que coisa! O objetivo do meu teste é a resistência, será que não aguento um prendedor? Testo a mão esquerda que está normal, mas escrever com ela produziu o mesmo efeito que minha destra enfraquecida.
Finalmente a aula acaba, todos se levantam e penso se deveria me preocupar. Minha bunda vibra. Pego o celular, mensagem,  "Mãe te espera pra fazer compras, vem logo pra casa". Claro que tudo o que eu queria no momento era perambular pelo supermercado. Volto de ônibus pensando nos efeitos do meu auto-teste. Estou fraca. Não quero ser fraca para a dor, não é divertido assim. Olho pra dentro da blusa e a região espremida não está vermelha como de esperado. Meu sangue parece ter fugido. As pontadas permanecem e, de teimosa, decido ficar com elas me fazendo companhia até o final da tarde. Será a salvação para meu programa tedioso. 
No caminho pra casa compro um chocolate, um presente para mim mesma. A sensação do derreter na boca é estimulante, o Opereta parece estar mais gostoso, afasto a ideia que me pareceu tendenciosa demais. 
Caminhando, meus pés independentes da consciência, uma buzina de carro quebra meu semblante sereno, minha mãe abaixa o vidro, acena pra mim. Escondo o resto da barra no bolso do casaco, não sou solidária com todos quando se trata de chocolate.
Digamos que não é meu programa favorito, sempre acabo discutindo, reclamando do tempo excessivo gasto dentro de uma loja, mas hoje estou disposta a abrir uma exceção. "Está calada...". Realmente, hoje não estou para falar, a essas alturas estimo três horas usando o prendedor. Apesar dos picos de dor estarem mais intensos, estou calma, num ato inédito engancho meu braço no da minha mãe apoiado no carrinho de compras. Digamos que é um ato suspeito, em resposta a interrogação no rosto dela, minto que estou cansada da aula. Passos lentos, o tempo flui como na densa aula de matemática, minha mão direita sempre no bolso do casaco, droga, o chocolate está amolecendo... Guardo devagar as compras, ignoro mais caras feias vindas da fila do caixa, o empacotador nunca aparece quando precisamos dele! Estou lenta. Mas já são quatro horas e meia de pressão constante, quero ir pra casa. Quero uma calcinha limpa. 
"Vou pro banho", "Mas e o café?", "depois, estou sem fome agora". Pela segunda vez hoje, banheiro, porta trancada, jogo minha roupas no assento do vaso. Calcinha molhada, pro chão. Seco, ou tento, todos os fluídos que vertiam entre minhas pernas, lavo as mãos, sento nas minhas roupas e termino meu chocolate mole. Talvez delongando um pouco, curtindo a mistura das sensações, meu reflexo como testemunha. Sem tirar os olhos do espelho minha mão sobe até o prendedor amarelo, a alavanquinha é levantada, consigo ver a marca tortuosa na auréola do mamilo. Mais um pouco do jogo de forças e a boquinha fechada se endireita na vertical, provocando minha pele sensível.
Não aproximo as pontas do prendedor o suficiente, ele parece estar grudado em mim. Preciso da força das duas mãos, com as bases das palmas. Aperto devagar tentando aproximar. Fecho os olhos, o prendedor abre e os lábios paralelos e cruéis se soltam do meu peito. Dor aguda e máxima, a sensação diminui aos poucos. Mãos apoiadas na pia, olhos abertos, pupilas dilatadas. Meu peito está em relevo, um montinho de carne prensada entre as duas marcas que ficaram. Levo as mãos na região e afasto as linhas paralelas alisando a pele sensível. Acaricio meu seio dolorido com as duas mãos. Ligo o chuveiro e o vapor d'água sobe condensando no vidro do box. A água fervendo cai na minha nuca, costas, quadril. O calor percorre meus músculos e me sinto descontrair, minha cabeça pende para frente. 
Relaxada, o alívio toma conta, a vontade de me tocar também... Um sorriso meu ao sentir a presença de uma pessoa querida, afinal, fui proibida de me masturbar.

Algo inocente, não?

sábado, 2 de junho de 2012

Próximo encontro (1 de 2)

Este relato foi originalmente publicado em iFetiche


Era o final de semana do dia dos namorados, data que pra mim é rica de memórias. Não que fosse difícil recordar da infância, mas, com tanta vivacidade, pouco provável. Perder a inocência foi um passo que veio sem música, apenas o cheiro do suor do atrito dos corpos.
Mais uma vez iria ver ela. Estava cheio de expectativas. Mesmo assim, estava pronto para que ela partisse a corda e não quisesse mais coisa alguma comigo. Seria nosso segundo final de semana exclusivos, alheios ao resto do mundo. Era assim que ela gostava de dizer que dedicava sua atenção a mim, aquele momento apenas. Custava acreditar que pudesse separar tão bem as coisas, mas, começa acreditar que era possível.
Busco ela e estamos a caminho da uma pousada aqui mesmo na Ilha. Não conhecia o lugar. Antes mesmo que chegássemos ao lugar pediu a seguinte coisa:
- Estou cansada da semana e suja do dia. Não tive tempo de me preparar antes da viagem. Poderia tomar um banho antes de qualquer coisa?
Não afirmo e nem nego, apenas olho e deixo que interprete como quiser meu semblante. O lugar é bem isolado. Gosto disso. Com ou sem gritos, é bom ter privacidade.
Com a curta intimidade que tínhamos, já morria de tesão por aquela carne pálida. A vontade contida no meu corpo era maior e mais forte do que meu cérebro. O movimento contínuo de rasgar ela nas mais diferentes formas era a sombra da minha insanidade. Entramos na pousada, no quarto, e eu nela. Joguei tão logo seu corpo na parede fria do quarto, que mal teve tempo de reagir. Provável que não o quisesse. Da parede para o canto da cama. Calça nos joelhos, o caminhar dos pinguins e já deixava sua marca ali mesmo, molhando tão logo a colcha por sobre a cama. Meu suor completava o movimento dos fluidos. Não gozei, e nem o queria naquele momento. Ela capota e reclama que não cumpri o trato.
- Ora, que trato?
- De que eu pudesse tomar banho antes.
- Não falei que podia.
- Mas, você me olhou.
- Eu te olho o tempo todo. Agora, pode ir para o banho. Tenho algo especial pra gente.
- O que?
- Banho.
- Não vai me falar?
- Banho.
- Chato.
- Banho, e olha o respeito. Depois apanha, e não sabe o porquê,
- Como se eu não gostasse.
- Garanto que faço não gostar e deixe de enrolar. Banho, mas, antes, vem e me beija.
Ela beija de um jeito sem apego e vai para o banho. Sei que é da natureza dela, mas, é exatamente aí que mora o segredo. Esconder aquilo que consideramos mais valioso. Mesmo que ela não tenha dito explicitamente, sei que pensa assim. O dito pelo não dito. As coisas que guardamos atrás de nós mesmos.
Enquanto se banha, preparo a cena. A minha ideia é pregar uma peça nela. Sento, papel, caneca e cigarro. Sento na poltrona ao lado da cama. Bem colocado este móvel aqui. Vai servir perfeitamente para o que pretendo. O cigarro na mesinha ao lado. Labuta. Como é chato escrever a punho. Tomara que num futuro não muito distante a caneta obedeça direto pensamento. Quem sabe minha letra melhora. Devia ter feito antes. Enfim. Duas cartas, o mesmo texto. Vai ser divertido. Ela aparecer enrolada na toalha e pergunta:
- Preto ou vermelho?
- Não terá importância alguma a cor para o que pretendo.
- Está muito azedo hoje.
- E você, um bocado insolente. Falta pouco para levantar a voz pra mim. Coloque algo prático, é o que posso dizer.
- Escolhe vai. Preto ou vermelho?
- Quero surpresa.
Entra novamente no banheiro para o "ritual mulherzinha". É naturalmente bonita e não entende. É aquela teoria do pijama. Quer saber se uma mulher é realmente bela, manda colocar um pijama. Se ainda assim se sentir atraído por ela, bem, pode casar.
Termino ambas as cartas. A caixa e as cartas no meu colo. Mais um cigarro e a angustia do esperar.
- Não irá desfilar numa passarela. Sabe que não gosto de esperar. Tem 5 minutos para terminar.
(Para quem ficou curioso em saber o conteúdo da carta, clique AQUI)
Está impecável após o banho. Quase que a volúpia cega meu tato e repito os movimentos introdutivos do corpo. Mas, ainda consigo controlar e dou o exemplo frio. Digo que escolha a carta e que leia a mesma. Seria um teste de interpretação das ordens.
Aqui há um momento de ruptura no texto. Posteriormente, ou não, a colcha de retalhos será vista.

Ministério da Saúde não sabe o que é poesia
   

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Diálogo sobre a dor

Texto originalmente publicado em iFetiche


A estrada era escura e a noite fria. O inverno ainda não havia chegado. Talvez não chegasse tão cedo. Fazia um bocado de tempo que não conversava com ela. Não as conversa de internet. Os dois, no carro, voltando de uma noite maravilhosa. Nada excepcional. Um jantar, sobremesa, escutar uma peça de um romântico alemã, um italiano que falava com as mãos, algumas, lágrimas. A volta para casa. Ela não podia ver o mar. Passava da hora dos remédios. E com eles, o tombo é certo. Sei que esteve perdida entre devaneios e dores, mas, parecia melhor, realmente melhor.
Já havia comentado que sua escrita havia melhorado. Se perder dentro dela foi o melhor combustível para sua arte. O mote: a dor. "No inverno uso sapatos de salto alto porque não sinto dor.", foi a frase que me fez ter o insight. Será que ela sabe o que é a dor? Cada vez mais a vejo rodeando a dor. Mas, não aquela fundamental,  mas, aquela que gera o prazer. A dor como ópio, como bálsamo para os sentidos, para a vida sem sentido ou cor. Será que são ecos de mim? Ou é o egocentrismo tentando justificar o mundo que me rodeia? Realmente, não sei. Sei o quanto fico preocupado. Devo ter alguma espécie maldita de Toque de Midas, em que tudo que toco fica podre. Tento puxar o assunto. Perguntar pra ela o como ela tem convertido a dor. Ela nunca falou isso explicitamente para mim, mas, sei que o faz.
- Uso sapato scarpin em casa.
- Apenas isso?
- Também torço o dedo.
- Como?
- É, torço numa posição para doer muito. Aí, as outras dores ficam menores. Até somem.
- Hum. E não tem outras coisas?
- Mordidas. Mas, deixa umas marcas muito feias.
- Sabe o que é isso, né?
- Eu que sempre odiei a dor.
- No teu caso, ela está sendo um remédio para outras dores.
Neste momento, ponderei muito sobre o que falar e em como falar. Mas, fui só silêncio.
- Assista o filme SM-Rechter.
- É bom?
- Assista.

Cilício

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Maldita Cassandra Rios

O texto que segue foi originalmente publicado em iFetiche


Este relato não pretende ser algo motivacional como "Você conseguirá gostar de ler se insistir" ou ainda "Encontre a felicidade nos livros". Muito pelo contrário, pretendo indicar livros que irão fazer mal. Gosto de pensar que são do tipo (se é que tipificar é válido) de "auto-destruição", aqueles que ficam escondidos nos cantos mais sujos das livrarias, no qual a maioria dos vendedores não sabem do que se trata, que subvertem e que farão do leitor um maldito zombie, devorador de outros cérebros.

Durante algum tempo, como ritual matinal, antes da labuta diária, sentava eu num banco qualquer e lia. Não dependia do barulho ou do fluxo de pessoas. Conseguia facilmente me isolar de tudo quando passava os olhos nas frases. Sempre estava com no mínimo dois livros na mochila. Caso algum terminasse, haveria o outro para dar continuidade. Fazia questão de levantar antes para ter mais tempo para me perder nas páginas. Mas, este vício, não foi algo que nasceu comigo.

Fui um leitor tardio, que descobriu o prazer dos cheiradores de papel de forma indireta, quase como competição. Sempre fui curioso, perguntador, e muitas vezes até chato. Porém, não deixava de ser raso. Faltava descobrir onde a minha curiosidade poderia morrer. Sim, queria estrangular aquela maldita. Afinal, quem quer ter uma mente perguntadora? Não sei se tive sorte ou azar em ter sido um analfabeto funcional durante tanto tempo, mas, as circunstâncias daquele momento me faziam refletir que era necessário o movimento. Que fosse para afirmar a total ignorância e repúdio aos livros, pronto para atear fogo até mesmo nas pessoas, se fosse o caso, ou então, admitir a minha ignorância de forma mais humilde como "tenho muito para ler, mas, é bom eu começar logo...". E assim foi.

Procurando um dos tantos bancos, um livro que tive a curiosa tristeza de não terminá-lo foi Eu sou uma lésbica da autora Cassandra Rios. Quando digo "não terminá-lo" não significa que não findei as páginas, mas, que os ecos daquele livro ainda são vivos na minha memória. Extremamente perturbador, o livro é uma história de amor. Amor proibido de uma menina pela sua vizinha, muito mais velha e casada. Menina no sentido mais inocente da palavra. Partindo da perspectiva do sentimento, a menina, que vira moça, que vira mulher, constrói toda a sua sexualidade baseada na sombra do desejo.
Brasileira, marginal e pornógrafa, Cassandra Rios era best-seller nos tempos da ditadura militar. Alguns livros da autora são facilmente encontrados em sebos do Brasil inteiro, afinal, não conseguiram queimar todos, mesmo em tempos de repreensão. Mas, em contrapartida, pouca coisa dela é publicada atualmente. Gostaria, e muito, que os livros tivessem novas edições, afinal sou aquele tipo rabugento de leitor que gosta de desvirginar os livros.

Maiores informações sobre Eu sou uma lésbica.
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Eu sou uma lésbica

P.s. É de sua conta e risco a leitura. Livros fazem mal.   

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O primeiro encontro

O texto que segue foi originalmente publicado em iFetiche


Este é um relato nem muito fiel e muito menos mentiroso sobre coisas que ficaram guardadas na minha cabeça. Talvez, o tempo e outras coisas preencheram melhor os silêncios do que ocorreu e tornaram o que vou escrever mais interessante (ou não).

Meados de 2005 ou 2006, não lembro bem. Já havia pesquisado um bocado sobre o tal do BDSM, mas, nada parecia muito claro ou certo. Imagina, sentia vontade de fazer coisas malvadas com as pessoas, não pode ser certo.
Daria um passo hoje diferente para o conhecimento sobre o assunto. Iria participar de um encontro com pessoas que gostam também dessas coisas. Bem, não sei do que eles de fato gostam, mas, vou lá para descobrir.
O encontro seria num bar, Centro de Florianópolis. Não imaginava que haviam outras pessoas assim por aqui. Tudo bem, Rio, Sampa ou na gringa, tem muita gente que gosta disso, cheios de couro e algemas. Mas, aqui? Todos tão provincianos.
Fui, como sempre vou aos lugares, mais cedo do que a hora marcada. Mania ou frescura, preciso conhecer bem o lugar e escolher algo que me dê vantagem. Cheguei em torno de quinze minutos antes. Não havia ninguém no lugar além dos garçons. Literalmente, bati na porta para que abrissem o bar para mim.
Estava nervoso. Odeio me sentir inferior sobre um assunto. Não sei das experiências dos demais. As minhas foram dadas de forma natural. Um filme pornô com alguns elementos diferentes, um pouco de experimentação com namoradas. Bem, virgem e inocente não sou. Então, é apenas uma forma diferente de sexo. Nada que o mundo não tenha visto e refeito desde que a roda era quadrada.
Hora do encontro, e eu sozinho aqui. Será que não vem mais ninguém? Seria bem engraçado se eu fosse o único. Vou pedir uma bebida. Sex on the beach.
Quinze minutos, e ninguém chega. Metade do drink se foi. Vou terminar o copo com calma, pagar a conta e vou embora.
O copo acabou. Vou pedir mais um. Essa coisa de beber sozinho no bar com os garçons, pedir apenas um e ir embora é muito coisa de perdedor. Já que estou aqui, vou deixar que as coisas aconteçam. A noite apenas começou e não vou me inviabilizar do que estiver disposto para mim.
Quarenta minutos fora do horário e o segundo copo acabou. Vou pedir mais um. O barman caprichou dessa vez. Vou querer outro assim. Algo vibrando no meu bolso. Telefone!
- Alô. Quem fala?
- Oi, Jonatan. Aqui é o XXXXX (nomes não serão expostos neste relato, fora o meu, é claro). Sou aqui de Balneário. Estou chegando no bar. Todo mundo por aí? Muitas gostosas?
- Olá, XXXXX. Por enquanto, estou bebendo com os garçons. Não chegou viva alma. Mas, devem aparecer mais pessoas (Dionísio era generoso e já lubrificava o meu ânimo). Umas dez pessoas afirmaram a presença na comunidade.
- Aguarda aí, que já estou chegando.
Nisso, encosta um carro na frente do bar cantando pneus. Alguém queria dizer que chegou.
Como eu era a única pessoa no bar, não foi difícil quem chegou me identificar.
- Opa! Acabei de falar contigo no fone. Não chegou mais ninguém?
- Olá, ainda não. Chegou rápido. Pensei que ainda estava na estrada.
- Não, estava aqui perto mesmo.
Ele, visivelmente, já estava bêbado, e talvez até drogado (ou possuía tantos cacoetes, que simulava isso muito bem). Aquele volume ali na blusa dele é uma arma. Bêbado, armado e talvez drogado. Você veio no lugar certo, Jonatan.
- Sou Policial Federal. Espero que eles não reclamem que eu estacionei na calçada ali na frente.
Eu olho pra ele com um silêncio mortal. Pra quebrar o gelo, ele continua seguindo com frases cada vez mais inspiradoras.
- Cara, espera todo mundo chegar. Eu tenho um apartamento enorme lá em Balneário. Vamos todos pra lá, ficamos pelados e todo mundo faz uma mega-suruba, se batendo e apanhando. Curte os dois também?
- O que?
- Bater e apanhar.
- Eu pensei que fosse homens e mulheres.
- Também. Também curto ambos. O que vier, eu topo. O negócio é a putaria e a pancadaria. Tomara que todos gostem também. Curte né?
- O que?
- Tudo, oras... O pessoal que curte esse tal de sadomasoquismo é liberal. Lá nas casas de swing que vou, não rola bem de tudo.
- Swing?
- É, eu também curto bastante.
Bem, naquela hora ponderei se deveria estar ali mesmo. Não era bem aquilo que queria, principalmente com um cara visivelmente louco querendo me arrastar pra uma orgia. Vou terminar o copo e pedir a conta. Ele que fique para esperar os demais.
No meio tempo, entre o fim do copo e pedir a conta, outras duas pessoas aparecem. Homem e mulher. Talvez, um casal. Parecem simpáticos. E não são tão loucos quanto o que está sentado do meu lado.
- Olá, eu sou a YYYYYY. Nos falamos antes. Esse é o WWWWW.
- Olá.
- Eu sou o XXXXX, de Balneário. Vem mais alguém? O que vocês acham da gente ir lá pro meu apartamento e fazer umas coisas mais quentes? Todo mundo curte aqui, né?
- Curte o que?
- Ora, esse lance de sadomasoquismo.
- O encontro é exatamente pra conversarmos sobre isso, não? Mas, vamos com calma.
Nisso, o moço da putarianomeuapartamento levanta e vai no banheiro. Momento perfeito para comentários maldosos sobre a pessoa dele.
- Só me digam que vocês dois não são loucos como ele. Vou me sentir muito bem.
- Quem é essa figura?
- Boa pergunta. Mas, eu, sinceramente, não quero conhecer. Ele disse que é policial. Percebi mesmo que está armado.
- Não brinca.
- Sério, seríssimo. Ele veio com o discurso de "Todo mundo se batendo e apanhando pelado no meu apartamento". Assim, ele quase acabou com as minhas expectativas sobre o tal do BDSM.
- Nem todo mundo é como ele.
A noite continuou depois dele voltar do banheiro. Mais uma moça apareceu para o encontro, muitas conversas e ninguém correu pelado atrás de mim com um chicote naquela noite. Nunca mais vi o louco do putarianomeuapartamento,todomundopeladosebatendo (e fiquei feliz com isso).  
 

domingo, 20 de maio de 2012

Brasa

Texto originalmente publicado em iFetiche


Nunca havia fumado. Já havia passado da idade de começar com certos vícios. Mas, numa banheira de motel, aquele cigarro forte fazia uma fumaça densa por sobre as águas. Experimentei. Nem tossi. Muitos amigos fumantes. Ela branca, esparramada nos meus braços comenta.
- Fazia muito tempo que não fumava. Por que trouxe este maço se você nunca fumou?
- Queria te ver fumar. É muito sexy. Ainda mais assim, nua, deitada numa banheira e nos meus braços.
- Sabe que a gente não dá mais certo. Fora a cama, é cada um para um lado. Não adianta, você roubou de mim a vontade de ser. Sou uma boneca para a tua libertinagem.
- Não queria que você tivesse tão apagada assim.
- Você roubou tudo, absolutamente tudo de mim.
E assim, ela puxa mais um cigarro do maço. Acende, põe em minha boca e se cala.
Não existia contrato, e muito menos diálogo sobre o que fazíamos. Apenas éramos amantes. Ela da dor, eu do martírio. A culpa que tinha em fragilizar alguém tão branca e pura, aquela que manchei de sangue era o peso sobre os meus ombros. É isso que dá roubar a pureza. A dela nunca será a minha.

O nosso cenário era um motel. A peça era dada em três atos. Hoje ela seria amarrada na pilastra do centro da suite. Mamilos rosáceos e grandes. Nunca haviam sidos tocados por outro alguém. Ela era apenas minha, como sempre foi.
Pergunto pra ela o que está disposta a fazer por mim hoje. Ela nunca responde. Sempre interpreto isso como um tudo. Nunca reclamou ou pediu que parasse.
Já estava com o cigarro na boca. Brincava de soltar a fumaça no seu rosto, e ela ali morta de vontade de apanhar. Conhecia o movimento dela e não demoraria para me entregar também aqueles prazeres malvados.

- E se eu te queimar com o cigarro? Você toda amarrada assim, fica bem fácil de fazer qualquer coisa com ele.
- Por que não queima logo no meu peito?
- Não está falando sério...
- Seu covarde, sabe que eu aguento.
- Isso vai marcar ele. Não sabe o que está falando.
- Frouxo.
- Não adianta ficar me provocando. Não vou fazer.
- É bem por isso que a gente não dá certo. Você não tem bolas para bancar as atitudes que supostamente deveria ter. Por isso, a gente não pode mais dar certo. Você me ensinou algo muito maior do que você.
- Não sou frouxo.
- É sim. Vai ficar culpado, como sempre fica, depois de me quebrar toda no sexo.
- Não é bem assim.
- Quem te conhece mais do que eu? Sei bem que nunca foi tão fundo nisso como é comigo agora. Solta tuas amarras. Quem está amarrada aqui sou eu. Aguento a brasa. Lembra "pode vir quente, que eu estou fervendo".
- Não quero te machucar.
- Você já transbordou o me machucar. Agora, quero ser machucada.

Chego perto dela. Meu coração quer sair pela boca. Uma tragada pra deixar a brasa viva. A mão esquerda vai na boca dela e a direita conduz o cigarro no mamilo. O cigarro apaga no contato com a pele branca como gelo. Busco o fogo. Mais uma vez a brasa vermelha. Outra vez, o cigarro apaga. As lágrimas nos olhos dela são um misto de prazer e dor. O cigarro apaga.   

Guimba ou bituca



terça-feira, 27 de março de 2012

La Diada de Sant Jordi - Parte 1 de 3

Este é o relato um tanto tardio de um final de semana de Lua Cheia em abril de 2011.

Inferno astral, era onde me encontrava. Praticamente véspera do meu aniversário, data que não costumo gostar por diversos motivos. Por mais que tentasse, fantasmas sempre me importunavam e não era uma data prazerosa. Normalmente, ficava isolado e refletia sobre o ciclo que passou e o que está por começar. Sempre, os ciclos. Naquele ano seria um tanto diferente. Algumas coisas boas já haviam acontecido, coisas que realmente me surpreenderam, mas, havia muito ainda por acontecer.
Minha síndrome de "Don Juan" estava latente naquele período. Cada vez mais arranjando problemas, ou melhor, mulheres. Não acredito no mundo binário, e devo arcar com as consequências de tal afirmação.
Aquele final de semana iria ser peculiar. Algo de longa data, prometido e planejado, seria compartilhado entre comuns. Muita expectativa, nervosismo e o perfeccionismo aflorado mais do que nunca.
Além do que, existia uma intensão tácita naquele acontecimento. Queria eu aproximar uma pessoa do meu contato. Alguém que relutava um tanto. Não expunha seu rosto ou velava suas vontades. Enigmática, mas não menos atraente.
...
Milhares de voltas aqui e acolá, e vou buscar a trupe que vem de cima. Nela, estava quem tanto me interessava. Encostei o carro e logo vi uma elfa saltitante. Não demorou nada para que meus olhos fossem enfeitiçados e começasse ali a devorá-la com uma fome sem igual. Indico que deve seguir comigo, afinal, quero companhia e no outro carro já existe um par. Mera balela que não precisa ser comentada.
Como foi difícil não parar o carro e subjugar aquele corpo alvo prontamente. Malditos hormônios. De fato, o cheiro dela me atraiu. Sou mesmo esse cachorro no cio que não pode ver um par de coxas e a intumescência galopante se faz presente. Porra, é triste girar em torno do meu pau.
Aquele era um dia de comer camarões. O grupo todo estava faminto. Pra variar, meu senso direcional novamente falha, e demoro um bocado para achar o bendito rodízio. O prato dela estava lotado de arroz, quase nenhuma salada e camarões, é claro.
Chegamos todos fartos e bem alimentados na casa que iríamos usar para "rituais". Sim, foi esta a afirmação que fiz ao proprietário: "Um grupo seleto de pessoa que estuda algumas coisas místicas, entre outros". Colou.
Havia feito uma divisão das pessoas da casa, julgando o meu interesse e de outros que também mandavam na situação. Poucas malas. "Você, bote a sua mala no quarto da esquerda. Vai dormir comigo. Tome um banho, você precisa se refrescar."
Porém, antes disso, jogo ela na parede, dou um beijo demorado, a mão voa no peito farto. A outra mão vai no cangote. Pescoço, língua, corpo quente. Realmente, tive toda a vontade de fechar a porta e dizer a todos os outros "Estarei fechado para manutenção. Não pertubem...", porém, tinha diversas responsabilidades e não fugiria de nenhuma. Mas, mesmo assim, botei a moçoila de joelhos para conversar com alguém que ela ainda não conhecia. Abrupto, seco e desconexo, cortei o papo cabeça e botei ela pro banho. Nisso, chamo outra mocinha para o quarto e dou instruções precisas de que deve incitar na que está no banho. Acabo aproveitando a situação, e brinco um pouco com ela também. Ao sair do banho, tem um breve susto com aquela cara "O que ela está fazendo aqui?!". Prontamente, mando que sente no meio de mim e da outra mocinha. Forço um beijo na outra, depois em mim. Nada que a mão no lugar certo no cabelo não resolva.
  
(continua em breve)


domingo, 4 de março de 2012

Breviário Obsceno XVI - Sem maiores detalhes

...
- Sim, você entendeu muito bem. Sem nenhum acessório. Apenas o vestido vermelho e os sapatos pretos. Nada de calcinha, brincos ou qualquer outro detalhe.
- Mas, vou me sentir totalmente nua! Nem aqueles brincos que usei na primeira vez? Sei que gosta deles. Poxa, faz tanto tempo que não usos eles.
- Sabe que não irei ceder. Então, pare de frescuras e esteja pronta em 20 minutos. E me espere no saguão. Não quero correr o risco de ter vontade de te descabelar toda e muito menos estragar o que planejei.
- O que planejou?
- Agora tem 19 minutos. (E ele desliga o telefone na cara dela...)
...
Como era do costume dele, já estava no local quando faltava 5 minutos para o romper do prazo. Sabia que ela  iria se atrasar. O tempo deve correr de formas diferentes para as demais pessoas. Ele só precisava controlar seu ímpeto e tudo estaria resolvido. Deu o horário combinado, nada dela. Mais 10 minutos ele pensou. E assim aguardou. Quando a tolerância havia estourado, virou as costas e se dirigia novamente ao carro. Escutou passos apressados atrás dele. O salto alto marcando o chão quase em marcha atlética.
- Mil perdões. O elevador estava muito demorado e acabei descendo pelas escadas.
Nisso ele vira para e dá uma bofetada que esquentou a própria mão no ato.
- Eu adoro esperar, principalmente quem se atrasa.
A partir deste momento, existe um terceiro na conversa. Entra no carro junto com o casal. Senta no banco de trás, afinal não tem a mínima intenção de separar eles. Assim que todos ficam devidamente acomodados, o Silêncio dá um longo monólogo, principalmente para ela, fazendo com que reflita se aquilo é mesmo o que procura para seu prazer. Já ele, reflete intensamente que deveria estar lendo o último livro do Gonçalo M. Tavares que havia acabado de comprar.
Quase chegando ao destino programado por ele, decide apertar o botão vermelho ao lado do volante, ejetando o Silêncio pelo teto com a seguinte frase:
- Hoje não vai ser a minha puta, e sim a dos outros.
- Por favor, explique melhor.
- Estamos quase chegando num ponto famoso de prostituição da cidade. Provavelmente não o conhece. O jogo vai ser você se oferecer, ser durona, resistir até onde puder e...
- E mais o que?
- E mais nada. Apenas isso.
- Tá, mas, isso não é perigoso?
- É.
- Vai me deixar ali como uma puta velha e acabada no relento?
- Vou
- É insano este jogo que vamos fazer hoje.
- Eu sei.
- Já não basta tudo o que faz comigo. Agora, vai me expor a uma situação assim deplorável?
- Bem isso. Deplorável ao bom estilo meretriz de esquina.
- Não tenho ideia de preço pelos "serviços". Como vou saber quanto é uma mamada ou o serviço completo?
- Pense o seguinte, se você cobrar barato demais, vai acabar entrando no primeiro carro que parar ali, Bem que com esse corpinho todo malhado e bronzeado, o quanto cobrar, vão acabar pagando. Cobre sempre adiantado e diga que não aceita débito ou crédito.
- Como assim "não aceita débito ou crédito"?
- Acha que cada puta agora não tem a sua maquininha de cartão na bolsa? Se até flanelinha tem, por que as tias da rua não?
- Inferno de capitalismo.
...
- Pronto. Chegamos. Salte aqui. Venho te buscar assim que o dia raiar. Neste mesmo lugar. E tudo o que ganhar é meu, entendido?
- A brincadeira está bem bacana. Estou realmente com muito medo. Deixa eu voltar pro carro e me come agora, gostosinha do jeito que estou. Pra ti, nem vou cobrar nada e garanto os meus serviços.
- Salte agora.
- Não pode estar falando sério. Das outras vezes, era apenas eu e você. Por mais maluca que fosse a situação, não envolvia outros. E se um maluco decide fazer mal de verdade pra mim, como eu fico? E porra, eu tenho uma imagem a zelar. Sei que não estou na minha cidade, mas, vai que um conhecido me vê fazendo  ponto, e ainda mais um lugar assim. Alivia pra mim, por favor.
- Salte.
...
Ele deu a volta no quarteirão, escondeu o carro e deixou a moça lá, mais de uma hora, no frio, com medo e levando dedadas aleatórias de tarados que procuravam saciar a fome que não cala. De fato, ela foi forte, mas, não esperava o desenlace que estava por vir. Malandro, ele se aproxima de uma forma contra o fluxo natural dos carros. Chega por trás, bota um capuz nela e a algema. Logo em seguida, joga ela nas costas e não diz palavra alguma. É nítida a tensão no corpo dela. Leva ela até o carro, abre o porta-malas e joga o corpo lá. A todo pulmão, ela berra socorro, mas, ninguém dá ouvidos para uma puta.
Mantém a frieza, mesmo com o desespero evidente dela. Guia o carro até um lugar distante e isolado, onde grito algum chamaria a atenção de viva alma, pois não havia nenhuma ali.
Parou o carro num solavanco, estrada de barro, o corpo dela deve ter se batido um tanto nas paredes do carro. Deixou assim, sem nada fazer durante alguns minutos. Então, abriu a sua porta e foi de encontro a sua bagagem especial. Mal abriu e ela abriu o griteiro novamente. Quase sem voz, rouca de rogar ajuda, assim que ele tocou novamente no seu corpo, não segurou a bexiga, e urinou ali mesmo. Os animais acuados sempre fazem o mesmo.
Tirou o corpo dela, levantou o vestido justíssimo e começou a bolinar o sexo dela como nunca havia feito antes. O que era negação antes, agora era pura afirmação de desejo. Ela continuava a relutar, mas, seu corpo reagia ao toque. Levemente úmida, molhada e ensopada. Em pouquíssimo tempo, foi a reação que teve. Antes arranhava e tentava chutar. Quando o sexo latejava de desejo, já não relutava mais ao toque. Quase aceitava que iria ser estuprada por um desconhecido, num lugar qualquer. Ele tira o membro teso para fora, faz mira e momento exato da estocada fala bem mansamente.
- Você não é a vadia de qualquer um. É apenas a minha.

Foto meramente ilustrativa retirada do Google
 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Breviário Obsceno XIV - O Balde

Para a leitura deste, é recomendável que leia o texto anterior.
Leia aqui.

Na primeira noite, foi relativamente fácil ignorá-la na porta. Estava bonita, mas, longe de estar impecável como hoje. Uma capa vermelha. Totalmente apelativo e desnecessário. Enfim, talvez ela soubesse mais de mim do que imaginava. Mal abri a porta e já se prostrou. Achei no mínimo fofinha, afinal, não havia dado instrução alguma sobre aquilo. Guria esperta, fez a lição de casa. Ganhou alguns pontos, mas, não sabe absolutamente nada do que pretendo fazer com ela...
- Que bonitinha... Entra, se prostra, e ainda fica caladinha. O que andou lendo?
- Como devo me referir? Senhor, Mestre ou algum outro nome em específico?
- Veja só! Até escolher o nome. As putas que gostam bastante de ter um nome de guerra. Até termos algum vínculo maior, vai evitar qualquer nomeação.
- Mas, não vê? Já estou aqui, toda entregue e implorando o peso da sua mão.
- E eu com isso?
- Um mequetrefe, isso sim. É bem isso que tu és...
Um tapa com as costas da mão. Bem dado. Apenas um. Foi suficiente pra calar.
- Em primeiro lugar: nunca mais, nem por brincadeira, me falte o respeito. Não lhe dou tal liberdade, e muito menos ainda se quer galgar algum espaço comigo.
Nisso vi um lágrima escorrer no canto do olho. Sei que o tapa foi pesado. Aposto que ela não estava acostumada com aquele tipo de coisa. Mas, se quer jogar, a coisa toda acontece com as minhas regras. Ainda me olhava fixamente, sem ter desviado um momento sequer. Gostei da determinação e postura.
- Bem, vou te explicar um pouco melhor as coisas...
Nisso, fiz uma breve explanação sobre as coisas, não sendo profundo e deixando algumas dúvidas. O necessário para que as engrenagens comecem a trabalhar.
- Certo, entendeu então que não temos um relacionamento tradicional nos moldes que conhece.
- Ficou bem claro.
- Bom, então, vamos ao trabalho. Está vendo aquele balde próximo ao sofá?
- Sim.
- Bem, fique de joelhos próximo dele.
- Mas, próximo quanto?
- Apenas próximo. O quão, controlo com a minha mão depois.
Propositalmente, a água tinha um tom amarelo cítrico. Não, não era mijo. Mas, era para parecer. Atrás do sofá havia jogado um pano que propositalmente preparado com o boas doses do líquido realmente fedorento. Malvadeza premeditada, assim que eu gosto.
- Pera aí, eu não disse quais são os meus limites.
- E quem disse que você pode ter algum?
- Tá louco por acaso? Não vou enviar a minha cabeça nesse balde de urina. Isso aqui tá fedido demais.
- É mesmo? Pena, esse seria apenas o começo da brincadeira toda. Bem, se não quer isso, pode se levantar e ir embora.
- Não, novamente não! Sério, assim você vai foder com as minhas ideias, e não com o meu corpo. Que bruxo maldito é você em conseguir controlar assim o impulso sexual dessa maneira? Não dá! Não tenho ferramentas ou jeito de fazer com que me queira do jeito que sou...
- Controlar esse impulso é o que diferencia meninos de homens. Já que não quer obedecer, levanta e vai para casa. Ou não entendeu?
- Posso negociar?
- Negociar? Acha que isso aqui é algum tipo de mercado de pulgas?
- Por favor, não entendeu. Faço algo que queira muito, mas, isso não.
- Acha que pode julgar o que quero ou não? Que petulância hein!? Não entendi ainda porque não levantou e partiu.
- Faço qualquer coisa.
- Qualquer coisa inclui o balde.
- Menos ele. Pode pedir. Sei que é criativo e vai conseguir ser muito mais cruel do que esse simples balde.
- Simples?
Ergo o balde, puxo ela pelos cabelos. A cabeça arqueia para trás e o líquido amarelo vai na cara. Tenta, mas, não consegue fugir.
- Não era mijo! Você me enganou.
- Em momento algum disse que o era.
Vejo a fúria brotando dos olhos dela, mas, antes que venha à tona, arrasto seu corpo molhado até a beira do sofá. O corpo encaixa perfeitamente, a barriga sobre o encosto e os joelhos no chão. Ergo a capa, que nada tem por baixo, e apoio meu joelho sobre a lombar. A sequência é simples, um tapa na banda esquerda, outro na direita. E assim vai, numa sequência ritmada que foge do rumo do tempo. A mão começava a ficar cansada, e adoto métodos pouco ortodoxos. O jornal de alguns dias estava no outro sofá. Faço um pequeno rolo. Parece funcional. E assim continuo.
- Estou começando a cansar. Senta agora no sofá e sente a bunda latejar.
- Amaciou a minha carne, e agora, não vai comer?
- Muito oferecida você, mocinha.
- Não é oferecida. Não vê que estou aqui pingando. Nunca ninguém fez algo parecido comigo. É bem capaz de ter um orgasmo se continuasse mais um pouco.
- Não estava aqui para o meu prazer?
- Sim, mas, também o queria.
- Quem? O prazer?
- Claro. Sei que conseguiria me dar muito prazer. Vejo o quanto sabe usar um corpo. Realmente, tenho medo de ti.
- Meu prazer já foi atendido. Se quiser pode me fazer companhia para uma dose ou então, pode se retirar.
- Porra!!! Enfia o pau em mim logo.
- Pode ir pra casa. Vai lavar essa boca suja. Retiro o convite que fiz para beber comigo.
Agora ela foi enérgica e se joga na minha frente. Tenta abrir minhas calças. Acha que pode me forçar ao coito ou qualquer coisa do gênero. Mais um tapa sem dó com as costas da mão.
- Bem vadiazinha você. Já pra casa e não me toque mais.
O pranto logo brota, ela sai mais triste do que um cachorro que caiu mudança e não fecha a porta.
Pego um copo largo, sirvo algumas doses caprichadas, sento no mesmo sofá do ocorrido e penso alto.
- Droga! Devia ter mandado ela limpar o chão antes de ir. A Dona Clotilde só vem na próxima semana. Vou terminar esse copo e já interfono pra ela. Vou deixar ela terminar de engolir o choro e tocar pelo menos uma em paz.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Breviário Obsceno XIII - Canção de ninar

O metal não parecia mais tão frio. Aquela faca de formato estranho havia roubado algum calor de suas mãos. Uma gota de sangue acabará de cair e quebrava o silêncio. Até o bruxelar das inúmeras velas era calado. Parecia acordar de um transe, um estado ampliado da consciência que consumia toda sua racionalidade e jogava todas as suas vísceras novamente dentro do próprio corpo. Antes parecia feito de de puro vazio.
Mesmo no quase breu da sala, os adornos da caixinha de música ainda eram vivos o suficiente que para voltasse seus olhos para o objeto e percebesse que estava quase sem som. Voltou a dar corda. E com a melodia a tocar fez com que um gemido fosse percebido em dissonância à nota mais aguda. Um corpo todo manchado de sangue padecia a menos de dois pés de distância. Como não o havia percebido antes? A faca, o sangue, o corpo, as coisas que via começavam a fazer sentido. Ponderou sobre a presença de outras pessoas no mesmo ambiente. Não havia mais ninguém além deles. Sabia onde estava. Era a sua sala. Sabia quem ele próprio era. A faca foi mais um presente pra sua coleção. Mas, e o corpo? Abordar alguém que ofegava, com uma faca na mão, muito provavelmente suja do sangue dela, não era uma atitude sensata. Largou a faca do lado da pequena caixa, se aproximou ainda mais do corpo para tentar distinguir os traços, e o corpo respondeu com um abraço. Apertado e vermelho. Aquela era vizinha. Meses e meses de puro flerte e cortejos. Não sabia o que ela fazia ali, desnuda, toda ensanguentada e ainda mais abraçando tão vorazmente. Então, rompeu o silêncio.
- Por favor, meti em mim agora. Preciso.
Ele ficou sem entender nada. Como chegaram a tal intimidade? Lembra bem das conversas de elevador, do bater na porta para pedir algo emprestado, que brevemente seria devolvido. Sempre com trocas de sorrisos. Mas, nunca sentiu tal intimidade de chegar nesse ponto. Ainda mais de alguém que morava praticamente na frente da sua porta.
Ele sabia que ela sabia da sua vida sexual discordante. Não tinha namoradas, apenas coisas semelhantes, mas, tinha total autonomia. Até um certo fluxo de mulheres indo e vindo. Os barulhos, que sabiam atravessar facilmente as paredes finas que dividiam ambos, nunca foram mistério para a vizinha. Sabia que o sexo ali era assunto recorrente, e não apenas o coito tradicional. Foi objetivo e perguntou.
- Como chegamos até tal ponto?
- Realmente, não lembra?
- ...
- Bem, tomei coragem. Quantas e quantas vezes ficava grudada com o ouvido na parede, escutando e tarando as tuas fodas. Porra, é difícil arranjar um vibrador silencioso, sabia? Cansei dessa coisa de só escutar e ter meu prazer egoísta. Queria eu ser prazer pra ti. Bati na porta, você atendeu. Disse que precisava conversar um assunto íntimo contigo. Estranhou, mas, perguntou se queria sentar. Ofereceu um vinho. Fomos pra segunda garrafa, e eu já esboçava que queria ser subjugada. Acha que não te manjo? Sei muito bem que curte esse lance de "eu sou malvado". Dois anos, estou a pelos menos dois anos de fazer esse discurso. Sempre me faltou coragem. Hoje, não consegui aguentar mais. Você disse que queria tirar um pouco de sangue de mim. Foi golpe baixo, sabia? Como adivinhou que tenho esse tesão louco por sangue? Agora, por favor, imploro, me come logo, vai...
- Você está realmente bem?
- Considerando que estou a ponto de te estuprar, nunca estive melhor.
- Nesse caso, vai pra casa, toma um banho e tira todo o sangue da pele.
- Tá brincando, né? Deixa eu ensopada, ao molho pardo, e vem com essa de banho? Só pode ser piada...
- Nada disso. Falo sério. Faça isso. Amanhã bata na minha porta a meia noite.
- Não. Não vai fazer isso comigo. Vejo você comendo uma penca de mulheres todo mês e me vem com essa de "volte amanhã". Cê fuder!
- Entendeu o que eu disse?
Ela saiu louca porta a fora, nua, toda cheia de sangue.
Na mesma noite, precisamente a meia, a campainha toca. Ele vai até a porta, a vê através do olho mágico, e lentamente volta para a cama. Acaba pensando alto.
- Ela não entendeu bem qual meia noite que era. Vamos ver se amanhã volta...