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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Breviário Obsceno XI - Red Pearl

Estephano mais uma vez estava perdido entre tantos livros da sua vasta biblioteca. Mais do que ofício, era a paixão que ela cultivava fervorosamente. Quase todas as tardes, a não ser as quartas-feiras que metodicamente se dedicava a jardinagem, aquele senhor, longe de ser moço, ainda tinha prazer, quase pueril, em descobrir novos livros antigos. Bibliofilia talvez você a sua "filia" favorita, entre tantas que já havia experimentado. Hoje, a companhia da tarde era mais um livro do Michel Onfray, que não gosta de ser chamado de filósofo, mas não menos reflexivo.
O Sol quase deitado estava. Gostava das luzes do crepúsculo nas janelas grandes da sua biblioteca. Um arquiteto planejava as janelas em contraponto com as estantes enormes de livros que corriam no pé direito da grande sala. Em nenhum momento do ano solar, a luz machucaria um livro sequer. Após aquele momento, iria até a cozinha preparar mais um jantar para sua mulher que não tardava. Seria uma noite especial, logo, algo honorável devia ser posto a mesa. Pensou num velho e bom risotto, afinal, ela gosta tanto de arroz, que não teria como deixar de provocar aquela alemoa ruim. Abre um Torrontés. Uma taça para o risotto, o restante para ele. Bom Mestre como era, havia ensinado para sua menina que vinho doce é pra sagu, e mesmo tão formiga, apreciava bons vinhos em sua companhia.
Doutora Caroline, era assim que gostava de ser chamada, chegava mais um vez do longo ofício. Leis, procurações e tantas outras coisas. Muitas responsabilidades e decisões que nem todos estariam dispostos a suportar. Era a personificação feminina de Atlas, com um pouco de maquiagem e um salto médio, com o globo celeste por sobre os ombros. Mas, ela tinha o seu Hércules que lhe roubava o peso das escolhas...
Sempre parecia algo contraditório. Ela uma mulher tão forte e bem resolvida, que batalhou tanto para estar onde estava, ser totalmente subjugada por alguém e negada de qualquer liberdade que fugisse o comando dele. Quase um paradigma, alguém que luta tão fervorosamente pela liberdade, estar entregue a uma escravidão voluntária. 
Mesmo com a diferença vertical entre eles, Estephano nunca abandonou o carinho e respeito pela pessoa da Doutora Caroline. Quando viu a mesa posta e o cheiro do seu risotto preferido, ela sabia que a noite seria especial. Alguma surpresa estaria presente em breve. Aquele mesmo risotto foi feito em outras ocasiões cabais, quase os pontos de inflexão do longo relacionamento de mais de duas décadas. 
Ela entra na cozinha, um dos principais palcos que ele gostava de assumir. Tirando algumas experiências frustradas, Estephano nunca deixava que se envolvesse com a culinária. Ela nem fazia questão alguma. Depois que o advento da máquina de lavar louças foi inserido naquele contexto, Doutora Caroline era incumbida apenas de servi-lo e retirar a mesa já usada. Quando ela não era usada com a mesa, é claro.
O prato dele está servido, ela senta ao seu lado e aguarda segundas instruções. Estephano tira um pequeno frasco do bolso e começa a tão prontamente como um vento sorrateiro que toca o sino balinês na sacada.
- Lembro que muito tempo atrás conversamos um bocado sobre uma prática que achei um tanto estranha na época. Uma fotos que apareceram aqui e ali, outra discussão em alguns lugares. Sedativos, obstrutores de sentidos e locomoção, recorda? Bem, aquilo não morreu na minha lembrança e hoje temos o pequeno frasco que irá proporcionar uma prova da tua confiança e lealdade comigo. Um obstrutor total de movimentos, locked inside. Você não poderá dizer absolutamente nada. Não que você precise, afinal, nunca nem usou nossa safeword, mas, ainda assim, existe uma possibilidade. Aqui, estará a total mercê do meu julgamento. Eu sentirei por você, serei a tua válvula de escape e apenas eu posso liberar você disso. Aqui está a Red Pearl, uma belezinha que quase me custou um rim. O efeito dela varia demais de um organismo para o outro. Pode ser pouco mais de uma hora ou alguns dias, e o risco que corremos é muito grande. Quero que esteja totalmente ciente disso. Sei que a decisão é minha, mas não deixo de comunicar pelo respeito que tenho por ti. Tome antes do jantar. Demora mais ou menos uma hora para que o efeito aconteça. Dormência nos membros, falta de sensibilidade luminosa e outras coisas que logo irá perceber. Tome e comece o risotto antes que esfrie.
- Sim, meu Mestre.






Instruções de Leitura:

O conto acima é originário de um sonho, que talvez se mistura com a realidade, que se mistura com o sonho. Ele ainda não acabou, e talvez, demore um tanto para terminar. Mas, o risotto está quente, e vamos encher a boca, porque está delicioso demais.

3 comentários:

Mariii disse...

Primeroo \o/
Que perfeito!
Amei amei amei... Ao seu lado a maioria dos contos se torna realidade, e nesse pedaço de uma possibilidade futura que foi a historia, gostaria de ver se realizando também!
Tantos detalhes de coisas explicitas e implícitas, que como um bom observador e portador de uma mente malvada e romântica por natureza, só vc poderia captar e expressar assim...
o risoto ficou uma delicia!
Parabéns e obrigada MM :D

MZ Sub disse...

parabéns jon!

além de uma história bem preparada o modo como a serve é muito boa :)

abrax

elfah disse...

quando irei conhecer o Red Pearl: >.<