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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Breviário Obsceno VIII - Eisoptrofobia ou a Anti-Narcisa

Numa cadeira de balanço, a varanda parecia o mundo. A navalha curta, na mão esquerda, corria pela folha. Breve, ela, seria preenchida pelo fumo amargo, que aguardava na mesa baixa ao lado do copo praticamente vazio de um bourbon qualquer. E ele esperava...
Susie-q, era assim que gostava de chamar sua boneca. Ela garçonete, ele um músico decadente que se alimentava de desilusões. No fundo, um blues escuro de Lightnin' Hopkins riscando o vinil.
Ela era perdidamente apaixonada por aquele farrapo de gente. Mas, ele nem sempre fora assim. Fora alguém bonito, galanteador e que com alguns acordes, arrancava suspiros.
Num dos bailes da vida estava tão bêbado, que mal guardou seu ganha pão, e caiu da cadeira e ali ficou. Susie-q. era responsável por fechar o bar, e não sabia o que fazer com aquele boêmio. Entre solavancos e tropeços, arrastou ele e seu Dobro para o carro velho e imundo.
Ela era uma pessoa simples e sem ninguém na vida. Teve sorte em herdar uma casa com alguns bens de da tia velha que ela nem gostava. Nunca teve grandes pretensões na vida. Seu bem maior era a sua bela forma, que mesmo passado os anos, a boa genética da família e algum exercício semanal, faziam dela mulher extremamente cobiçada.
Ele acorda sem roupa, numa cama estranha e nem marcas do seu violão. Puro desespero.
- Vadia! Onde foi parar o meu violão?
Susie-q. não deu muita bola. Por incrível que pareça, ela estava deitada num sofá um tanto longe da cama, morta de cansada do turno da noite. Mal despiu ele e tombou noutro canto para não relar naquele corpo estendido na cama.
Ele ponderava sobre o que havia acontecido. Em seguida, ensaiava uma ereção, mesmo gritando com Susie-q. Tão confusa quanto ele, não conseguiu desviar o olhar daquele que decidiu acordar. Pobre moça... mal sabia que aquele seria o seu futuro algoz, aquele em que noite predominava e o torpor era contínuo. O primeiro passo foi dela, não se convida um vampiro para entrar. Um rápido puxão pelo braço, e o corpo inteiro dela já pousava sobre o dele. Não ofereceu resistência alguma, era toda entrega. Ladeando a cama, um espelho antigo, com moldura de madeira velha e cantos perdendo o reflexo. Foi nele que Susie-q viu tudo acontecer. Não conseguia mais olhar diretamente para aquele moço. O espelho aprisionou a imagem do seu amante naquele momento. Pensou que em poucas horas, já não estaria mais ali, e ela novamente o buscaria a solidão. Talvez gostasse daquele vazio constante. Porém, o espelho seria a prova que não necessitava daquilo. 
Susie-q toma um banho. Veste um dos uniformes que usa diariamente, e mais uma vez sai para o trabalho. Eles não trocam palavra alguma. Fingem total desconhecimento do próximo. Mas, o reflexo foi avesso e ele a esperava com as panelas no fogo. Uma comida rústica que mal soube identificar. Puxou a cadeira para que ela sentasse e com um comando curto "coma enquanto está quente", ela por não saber como reagir, obedeceu sem saber o que estava fazendo. Permaneceu na mesa, esperando algum diálogo que nunca aconteceu. Ele retirou a mesa, lavou toda a louça e tão pronto acabou, a pegou pelo braço, da mesma maneira que a noite anterior, a arrastou pro quarto e a consumiu da mesma maneira. Mais uma vez, não conseguiu olhar diretamente para aquele que arrancava o gozo do seu corpo. Apenas o espelho era o olho do mundo. 
Depois daquele dia, todos os dias eram cópias fiéis do anterior, salvo a comida que deixava de ser rústica e se tornava cada vez mais elaborada. Nunca mais o Dobro soltou uma nota sequer e Susie-q nunca exigiu explicação alguma sobre tudo.


3 comentários:

Mariii disse...

Uma bela anti-narcisa...submissa e entregue... sonho de um comedor de desilusões?
Ótimo texto MM ^^
Bjssss

Marcelo Augusto disse...

muito bom amigo!
sorvi cada palavra com muita imaginação.

abraços!

{sub-mara}LORD DEIMOS disse...

Muito bom este texto Senhor...