Páginas

domingo, 26 de junho de 2011

Breviário Obsceno VI - Epílogo em sangue

Todas as quartas-feiras, pontualmente às 16:18h, a campainha tocava duas vezes. Aquele era o prelúdio de apenas duas notas que m., devidamente trajada, aguardava em sua ópera de tormentos.
Dessa vez ele não estava trajado igual. m. toma um susto e congela. Não sabe como proceder. Se pergunta ou se age ativamente na situação. As ordens eram precisas e por mais que a última vez tenha fugido ao script, o comentário final dele é que não seria diferente. Mas, diferente do que estava previamente estabelecido ou diferente da novidade? Muita confusão para a pobre m. que queria apenas gozar. Ele entra. Carrega uma valise diferente de tudo que já havia visto. E m. continua parada exatamente no mesmo lugar, como se abrisse a porta. Num reflexo, apenas fecha a porta. Curiosa, como sempre, quase convulsiona para perguntar o que há na mala. Porém, sabe muito bem, que naquele momento, a curiosidade é o pior dos inimigos. Aquele silêncio ensurdecedor. m. tem medo. Pânico. Se ele bater o pé no chão, é bem capaz de molhar as calças. m. está com os sentidos à flor de pele. Tenta não olhar diretamente nos olhos dele. Medusa, que faz qualquer sangue quente virar pedra. Maldição de Palas Athena, o conhecimento versus o prazer. Sim, são aqueles olhos de um negro sem igual, que roubas a beleza de m. e transmutam em prazeres hediondos. A buceta de m. faz movimentos involuntários. Sente a calcinha já perdida entre tantos fluidos. Simplesmente vai ao solo, fica de joelhos, seios contra as coxas, quase posição fetal, se não fosse os braços totalmente abertos e testa no chão. m. poderia esperar qualquer coisa naquela posição. Havia treinado horas para aquilo. E o silêncio ainda cortante. Estava isolada no seu pequeno mundo, uma dimensão quase fractal. E o tempo não passava. Ansiedade. Seus líquidos já chegavam a calça. m. tinha certeza que ele caçoaria dela por tamanha falta de controle. Perdida entre pensamentos, fica praticamente surda e é após o segundo ou terceiro comando que percebe que o silêncio havia sido quebrado.
- ... , sem roupa, de pé e agora.
m. furiosamente tira a roupa, como se aquilo a libertasse de grilhões seculares. Mas, não havia entendido quais foram as palavras anteriores. Se pedisse que as repetisse, provavelmente, ele abriria a porta e só na próxima semana o veria. Acabaria com a cena. Não sabendo o que fazer, se aproximou dele, virou de costas, ergueu os braços e armou a sua couraça imaginária que tanto usava nos momentos de dor. A mão esquerda grande e robusta pegou pescoço e começou apertar. Ele sabia muito bem do pânico que m. tinha de asfixia, mas acompanhado o movimento, seu corpo inteiro entra em choque pelas costas. O membro coberto pulsando na bunda, a mão direita confronta o sexo pingando, m. não sabe o que sentir, como se o sentir fosse crível de razão. m. ainda era uma cabeça que rola.
- Que parte burra de você, não entendeu meia dúzia de simples palavras do que havia de fazer? Agora, ou goza ou desmaia. Os dois juntos, melhor ainda.
m. tenta ofegar, como sempre faz no pré-gozo, mas o ar lhe falta. m. entra em desespero. Tenta se libertar, mas o gozo vem antes. E as pernas não suportam mais o seu peso. Ele a deixa cair. Olha de canto de olho, e vê que m. ainda respira, mesmo com certa dificuldade. Uma boneca de pano jogada no chão. Vira as costa, vai até a valise, esteriliza bem as mãos, veste luvas cirúrgicas e se faz valer do curso de body piercing de 90 horas fazendo um corset piercing. m. acorda apenas quando ele bate a porta.

        

terça-feira, 14 de junho de 2011

Carta para e.

Minha e., 

Bem, se escolheu essa folha, faremos o segundo ato, pulando o que está escrito na outra folha. Não haverá perguntas, e muito menos palavras. Já que odeia tanto os números, hoje seremos só números. Tudo o que está escrito deve ser memorizado e repetido na precisa ordem. Quando fechar a folha novamente, começa o ato. Quero que se dispa por completo. Fique de joelhos na minha frente e estenda as mãos. Irei oferecer uma caixa. Dentro dela há um objeto. Quero que tire-o da caixa e o beije, bendizendo e agradecendo a oferta. Irá levantar, afastar-se dois passos de mim e dará vinte e cinco golpes com a mão direita sobre o ombro esquerdo atingindo as costas. Depois, vinte e cinco com a mão esquerda sobre o ombro direito. Após, mais vinte e cinco sobre o ombro direito com a mão direita. E por fim, vinte e cinco com a mão esquerda sobre o ombro esquerdo. Em momento algum deve fechar os olhos, sempre olhando para o meu semblante. A ordem das ações é fundamental. Segure o objeto com a boca, fique de quatro e venha caminhando assim para mim. Passos curtos e felinos. Com graça. Ofereça o objeto para mim. Irei pegá-lo da sua boca. Irá prostrar-se aos meus pés e receberá cinco golpes em cada lado da bunda. Em todos os golpes deve abrir contagem, dizendo apenas os números. Caso não aceite o que está escrito, rasgue a carta. A safeword é duzentos e cinquenta e cinco. Nunca saberá o que seria o outro ato. 

Assino: MM
vulgo JS  

créditos da imagem para a pekena