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segunda-feira, 21 de março de 2011

Escadaria

Devia ser agosto, quase setembro, não lembro. Recebo uma mensagem avisando que está na cidade e se não gostaria de sair para jantar. Realmente, fui pego de surpresa. Ela que tanto fugia de me conhecer, avisa que está na minha ilha perdida, e ainda por cima, tem coragem para um convite. Já tivemos o nosso período de latência, e o que faltava entre a gente era o simples contato dos corpos. Ela era uma pessoa estranha aos meus olhos, e olha que até eu sou normal quando me olho no espelho. Nunca arranquei dela uma palavra sobre sexo, um assunto tão confortável para mim, que até a minha vó fala das peripécias sexuais dela com o velho Nicolau. 
Apesar dela fazer o convite, eu escolhi minuciosamente o lugar. Um lugar tranquilo, sem música alta e com boa comida. Crepes e algum vinho tinto e seco. Não tem como errar.
Atravessei meia cidade para buscar ela na porta da casa de uns parentes. Mãe na porta, para eu ter que fingir ser bom moço. Boa noite, com licença e obrigado, sempre as palavras chaves, afinal, disfarço muito bem. Beijo no rosto, o respeito ainda se fazia presente naquele carro. Algumas palavras soltas no caminho, eu apresentando a cidade que ela já conhecia. Cumprindo apenas os regimentos do pré-coito. 
Ela estava com alto salto. Não sabia muito andar, principalmente com aquelas lajotas cheias de imperfeições. Ergui o braço, bom cavalheiro. Degrau, degrau e mais degrau. Chegamos na Degrau.
Pedi mesa para dois, no mezanino se possível. Parecia que aquele canto sempre estava reservado para mim. Quase havia o meu cheiro, o meu jeito de sentar na cadeira. Eu recomendei tomate seco e rúcula, cortado em quadradinhos, e com muita Tabasco. Pedi a carta de vinhos e chamei Dionísio para se sentar na mesa.
Uma taça de vinho, e vi seus olhos de desejo. Buchecha rosada e mãos inquietas. Peguei elas entre um compasso binário de um batuque qualquer. Olhos se tocam. Ela fingi timidez, mas aperta as minhas mãos. Arrasto a cadeira para próximo, e o crepe chega. Ela parece faminta ou usa a comida como prelúdio para o que está por acontecer. Azeite de oliva, pimenta e garfada, o trítono da música que tocava no momento. E a pausa. Mais um taça de vinho. Os olhos dela estavam maiores, havia muito mais desejo. Os pratos foram, e a posição anterior retorna a mesa. Os corpos mais próximos, o hálito de vinho, os lábios se tocam e "Love me do" toca no momento exato que os olhos se abrem no pós beijo. Peço a conta. Braços dados. Mais degraus. 
Descemos a rua, tirei o violão do banco de trás e sentamos na beira da lagoa. Algumas músicas, mais outros beijos tímidos. Quando terminei alguma canção dos Los Hermanos, ela virou e disse que queria ir embora. Esperei algum tempo até que ouvisse apenas o silêncio dela e do meu violão.

Canto dos Araças


        

6 comentários:

Mariii disse...

Gostei da combinação, lua, lagoa, violão, beijo... hum...

Naiara disse...

Como costumo ler e serve para o relato: nhoimmmmmm! =)

Amery disse...

Simples e romântico. Lindo ^^

Rafael Galelli disse...

e...?

elfah disse...

Posso ter ciumes desse conto?

elfah disse...

Posso ter ciumes desse conto?