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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Breviário Obsceno V - Prólogo do Caos

Todas as quartas-feiras, pontualmente às 16:18h, a campainha tocava duas vezes. Aquele era o prelúdio de apenas duas notas que m., devidamente trajada, aguardava em sua ópera de tormentos.
Era uma cena simples. O convite para entrar. m. aponta uma poltrona junto as estantes. Ele agradece, mas avisa o quanto o assunto é sério. m. oferece um café. Já sabe exatamente a quantidade de açúcar que ele gosta, porém, o rito, faz com que a medida seja equivocada. Até aquele momento, a pauta continuava imaculada. Todos sinais perfeitamente respeitados. Houve muito ensaio para que a dança chegasse até aquele ponto. Era uma peça surrada, de uma velha companhia de teatro em que alguns atores já haviam falecido.
Aquele erro é necessário para todo o compasso seguinte. É o estopim pedagógico. Deve pedir desculpas, como dezenas de vezes já o fez. Aquele é o ponto exato em que tudo vira caos, um jazz atonal, em que ele a toma de súbito e nunca compõe a mesma melodia.
Por mais que m. concordasse com todas as possibilidades previamente estabelecidas, ele sempre compunha novos significados. m. sempre era tomada de medo. Primal e infantil. Talvez fosse o principal motivo da admirção de m. por ele. Nunca deixou de achar ele estranho.
Desta vez, foi minimalista. Escolheu apenas um tema (suplício: um paddle pequeno de angelim vermelho) e compilou modestas variações no corpo atado a seus pés no chão.
Ofegante, chorosa e imobilizada, m. não sabia se aguentaria muito mais aquele suplício. Criou coragem, mesmo sabendo que não o devia fazer, e rogou a ele que precisava ser invadida, que iria explodir de tesão se não o fizesse logo.
Para total surpresa de m., ele tira sua vara tesa da calça risca de giz, exibe de todas formas para m., mas, em nenhum momento deixa que o toque. Nunca haviam ido tão longe numa cena. Aquele pedido gerou uma complexa trama entre os desejos e os acontecimentos.
Porém, num lampejo de lucidez, ele ergue a calça, guarda o membro e manda ela se recompor. m. não acredita. Estava tão próxima ao gozo, tão próxima de ser avidamente consumida, que surta em desespero.
- Vem cá, está de palhaçada comigo, só pode. Impossível, tu com uma piroca dura como essa que acabou de guardar, não querer cravar ela inteira em mim. Olha, estou me oferecendo - m. se vira, abaixa o dorso como ele ensinou, e mostra a buceta ensopada e o rabo. Assim está bom pra ti? Mete esse infeliz em mim, por favor!
Ele ri, como se debochasse de própria morte, num ato de pura loucura. Um homem de pau duro não poderia ter tanto controle sobre sua volúpia. Mesmo a desejando tanto, abandonou o defeito fálico e perderia o seu poder se a consumisse naquele momento. Mas, ela talvez não percebesse tal sutileza. Ele pega sua pasta com livros, arruma o paletó e termina com a mesma frase do roteiro.
- Esteja com o café pronto no mesmo horário. A próxima semana não será diferente.


13 comentários:

Naiara disse...

Ai ai... então, já esperando pra saber sobre a próxima semana. Entende realmente o que eu espero MM? Hein?! Hein?!hahaha

=*

dog pet_JS disse...

sacanagem hein!! coisa triste!! aff, e na semana que vem com certeza o café estará lá!

petbeijos...

Naiara disse...

A próxima semana não será diferente.

Atrevida disse...

Ahhh...Tadinha da ''m''...rsrs

Espero a próxima quarta!

Felina disse...

Adorei!!!

Bem escrito, instigante, indecente... e malvado! Que covardia com a pobre m... (risos)

Estou a te (per)seguir agora.
Será que assim, descobre quem sou?
(lançado o desafio)


beijos.

Mariii disse...

Muto bom!
Café Café Café... na próxima vez errar mais no açucar... afinal a próxima semana não será diferente ;P
A dança vai continuar...

Bjsss

Aline Borba disse...

Preciso dizer que tanto quanto me choca, me dá tesão?
Um universo desconhecido pra mim, mas que me seduz de um jeito... e me dá medo. Não sei se de perder o controle ou gostar tanto a ponto de viciar. Sou ariana com tendência a excessos, sabe, né?

Fernanda Schimanski disse...

Posso lhe oferecer uma xícara de café? /DonaFlorindaFeelings

Humor à parte, seus textos são instigantes, você todo o é, provocação.

Naiara disse...

Sedutor! ;)

luba disse...

eu odeio quem tem controle sobre si.

E adoro.


Contraditória, eu?

Naiara disse...

Mais um comentário, hahaha. Mas esse é necessário!

Não posso deixar de elogiar a nova aparência do blog. Está um charme! Gostei bastante! Plano de fundo já comentei... LINDO!

Parabéns MM!!!!

Um beijo!

:)

khel disse...

Eu sempre leio, mas não comento para não cair na mesmice da admiração...mas confesso, esses seus breviários sempre me prendem o ar, e esse ultimo... estarei lá na próxima semana tb! Com certeza!
bjss

Bluish Red disse...

nada pode me enfurecer mais do que esse guardar o pau na calça risca de giz e ir embora. Ainda mais com a promessa de a semana seguinte ser igualzinha.

Mas eu sempre tou lá com o café prontinho e a calcinha molhada na hora marcada.