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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Detalhes sobre o vermelho da parede

Realmente a chuva acabou com os meus planos. Queria ter passeado, ter respirado um pouco o ar cinza da cidade. Mas, sempre chove, cidade de eterna chuva. Perguntei de um canto tranquilo. Indicou alguma coisa entre indústrias. Final de semana, deve ser um tanto vazio e possível de fazer coisas. Muito claro. Vampiros não gostam do dia. Passamos pela frente de um motel. Ponderação: cama, chuveiro e privacidade. Olho para os dois lados da estrada, uma semicircunferência e suíte 211. Coincidência ou providência, a parede era vermelha. Um tanto óbvio se tratando de um quarto de motel, mas, poderia ter sido outro tom. O tema era tal. No canto esquerdo um móvel feito para o coito. Algo entre uma poltrona sem braços e um corpo de quatro esperando o coito infinito. Um objeto assim não deve ser utilizado para os movimentos iniciais da dança dos corpos.
Vou até o banheiro, confiro as toalhas. Mania velha, quase um TOC. Lavo as mãos. O contato com as partes íntimas exige isso. Por pouco não trago a bolsa que ela me deu. Teria sido bem útil. Mas, não tenho problemas com improviso.
Ela ainda olhava o quarto, mas, a mão foi mais rápida do que os olhos. Cabelo, puxão, para o chão. E assim, o membro teso da calça aberta salta, surra a face alva e preenche toda a boca. O primeiro corte deve ter sido feito ali, no sorriso metálico, recém posto, armado, no sorriso discreto. Lágrimas, gosto delas. Sempre dão um gosto especial ao meu prazer.
- Tire toda a roupa e olhe para aquela parede.
Com o dedo, indico qual parede. Mesmo assim, imersa nos seus sentidos, ela esquece ou finge não ter entendido. Começo a ponderar sobre as instruções que dou ou se ela faz proposital, apenas esperando retaliação. Putinha de castigo, só pode.
Novamente, o cabelo pertence a mão, que leva o corpo ao contato com a parede. Precisa disso. O contato com a parede áspera. Vejo que ela procura onde se agarrar. Sempre faz isso. Usa as mãos pra dar vazão as suas possíveis dores e prazeres. É uma característica interessante.
Sexo úmido. Não é difícil que comece a pingar. A pele fria espera a minha chama. Chego próximo a nuca e sussurro bem frouxo.
- Acha mesmo que serei brando?
Nisso, a outra mão golpei a bunda. Tapa seco que tira o corpo de qualquer centro que acreditasse possuir. Sem direção, o corpo afoito tenta fugir. Porém, entre a parede e a mão que gruda a face naquela superfície gelada, o repouso é o único movimento possível. Gosto de marionetes. Naturalmente associo os cabelos aos fios do titereiro e, num solavanco, a boneca dança um ballet em que seus pés mal tocam o chão. O chão. É isso que ela merece, e o corpo sucumbe aos meus pés, semi-convulsivo vai perdendo suas formas.
- Abra a boca. Língua pra fora e não feche um milímetro entre uma estocada e outra.
E assim, com as mãos para trás e de joelho, o membro é a anti-palavra. Aquela que anula e completa qualquer outra.
Cansado o falo de calar, agora quer ser ruido. Novamente, movimentos suspensos do erguer do corpo pelos cabelos cor de fogo. É o momento de usar aquele móvel estranho. Jogo o corpo, que demora a se recompor. Ergo e coloco na posição exata que tanto o tapa quanto o coito se encaixam com simetria. Sem qualquer delonga, ele entra fundo e ela toda líquida. O cabelo agora é o inverso da anatomia, pois se faz oposto ao descanso do corpo sob a poltrona. A mão direita é o algoz no momento.
Não demora e os corpos molhados de todos os fluídos. Após algumas pausas de silêncio...
- Vem e me banha. Estou embebido do teu gozo.

Não, não iremos abraçar balões.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Carta aberta para Sabine

Nas encruzilhadas da vida, não sabemos quem nos espera lá. Porém, invariavelmente, sempre haverá alguém ali. Caminhos que se chocam, coincidências que são postas a mesa, e assim o velho é sempre novo.
Sei que estava ali porque precisava estar. Não sei onde ajudei ou fui ajudado. Sabia que o campo era longo, mas não sabia que o seu caminho tão curto. Mesmo assim, ainda nos encontraremos em outras esquinas.

Daquele que te deu nome, 

J. S. 


quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Breviário Obsceno XI - Red Pearl

Estephano mais uma vez estava perdido entre tantos livros da sua vasta biblioteca. Mais do que ofício, era a paixão que ela cultivava fervorosamente. Quase todas as tardes, a não ser as quartas-feiras que metodicamente se dedicava a jardinagem, aquele senhor, longe de ser moço, ainda tinha prazer, quase pueril, em descobrir novos livros antigos. Bibliofilia talvez você a sua "filia" favorita, entre tantas que já havia experimentado. Hoje, a companhia da tarde era mais um livro do Michel Onfray, que não gosta de ser chamado de filósofo, mas não menos reflexivo.
O Sol quase deitado estava. Gostava das luzes do crepúsculo nas janelas grandes da sua biblioteca. Um arquiteto planejava as janelas em contraponto com as estantes enormes de livros que corriam no pé direito da grande sala. Em nenhum momento do ano solar, a luz machucaria um livro sequer. Após aquele momento, iria até a cozinha preparar mais um jantar para sua mulher que não tardava. Seria uma noite especial, logo, algo honorável devia ser posto a mesa. Pensou num velho e bom risotto, afinal, ela gosta tanto de arroz, que não teria como deixar de provocar aquela alemoa ruim. Abre um Torrontés. Uma taça para o risotto, o restante para ele. Bom Mestre como era, havia ensinado para sua menina que vinho doce é pra sagu, e mesmo tão formiga, apreciava bons vinhos em sua companhia.
Doutora Caroline, era assim que gostava de ser chamada, chegava mais um vez do longo ofício. Leis, procurações e tantas outras coisas. Muitas responsabilidades e decisões que nem todos estariam dispostos a suportar. Era a personificação feminina de Atlas, com um pouco de maquiagem e um salto médio, com o globo celeste por sobre os ombros. Mas, ela tinha o seu Hércules que lhe roubava o peso das escolhas...
Sempre parecia algo contraditório. Ela uma mulher tão forte e bem resolvida, que batalhou tanto para estar onde estava, ser totalmente subjugada por alguém e negada de qualquer liberdade que fugisse o comando dele. Quase um paradigma, alguém que luta tão fervorosamente pela liberdade, estar entregue a uma escravidão voluntária. 
Mesmo com a diferença vertical entre eles, Estephano nunca abandonou o carinho e respeito pela pessoa da Doutora Caroline. Quando viu a mesa posta e o cheiro do seu risotto preferido, ela sabia que a noite seria especial. Alguma surpresa estaria presente em breve. Aquele mesmo risotto foi feito em outras ocasiões cabais, quase os pontos de inflexão do longo relacionamento de mais de duas décadas. 
Ela entra na cozinha, um dos principais palcos que ele gostava de assumir. Tirando algumas experiências frustradas, Estephano nunca deixava que se envolvesse com a culinária. Ela nem fazia questão alguma. Depois que o advento da máquina de lavar louças foi inserido naquele contexto, Doutora Caroline era incumbida apenas de servi-lo e retirar a mesa já usada. Quando ela não era usada com a mesa, é claro.
O prato dele está servido, ela senta ao seu lado e aguarda segundas instruções. Estephano tira um pequeno frasco do bolso e começa a tão prontamente como um vento sorrateiro que toca o sino balinês na sacada.
- Lembro que muito tempo atrás conversamos um bocado sobre uma prática que achei um tanto estranha na época. Uma fotos que apareceram aqui e ali, outra discussão em alguns lugares. Sedativos, obstrutores de sentidos e locomoção, recorda? Bem, aquilo não morreu na minha lembrança e hoje temos o pequeno frasco que irá proporcionar uma prova da tua confiança e lealdade comigo. Um obstrutor total de movimentos, locked inside. Você não poderá dizer absolutamente nada. Não que você precise, afinal, nunca nem usou nossa safeword, mas, ainda assim, existe uma possibilidade. Aqui, estará a total mercê do meu julgamento. Eu sentirei por você, serei a tua válvula de escape e apenas eu posso liberar você disso. Aqui está a Red Pearl, uma belezinha que quase me custou um rim. O efeito dela varia demais de um organismo para o outro. Pode ser pouco mais de uma hora ou alguns dias, e o risco que corremos é muito grande. Quero que esteja totalmente ciente disso. Sei que a decisão é minha, mas não deixo de comunicar pelo respeito que tenho por ti. Tome antes do jantar. Demora mais ou menos uma hora para que o efeito aconteça. Dormência nos membros, falta de sensibilidade luminosa e outras coisas que logo irá perceber. Tome e comece o risotto antes que esfrie.
- Sim, meu Mestre.



quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Breviário Obsceno XIII - A bela que não ouvia o silêncio

Amália era uma moça como poucas em seu tempo. Conseguia esconder o coração. De uma beleza construída, talvez soubesse o quão fútil era em seu âmago, mas resplandecia. Cabelo escuro, muito bem tratado por sinal, tinha um ângulo particularmente bonito em suas unhas e sempre perfumada. Dificilmente não chamava atenção de homens e mulheres que admiravam o belo.

Pra burra, não servia. Talvez, faltasse um pouco de ambição com o conhecimento, mas, nunca precisou botar seu cérebro a prova. Tinha uma vida tranquila, estável e cheia de mordomias. Resumindo; a sua preocupação maior é que possuía uma vida cheia de vazios, sem desafios ou possibilidades de escolha. Era um arcano menor, que dificilmente seria posto a mesa. Nunca amou ou deixou ser amada. Vivia lendo histórias de paixões vorazes, mas não se imaginava em tal situação.

Declaradamente, preferia o vilão. Não gostava de bons moços. Desejava mesmo os de caráter duvidoso, mesmo não tendo se permitido mais do que devaneios.

Nossa personagem tinha um grave problema. Não conseguia escutar o silêncio. Mas, como alguém consegue ou obtêm tal peculiaridade? Bem, ela precisava constantemente de companhia, multidões, diálogos ou até mesmo música em alto e bom som. Quando ficava próxima do quase silêncio, começava a cantar. Talvez fosse alguma fobia de escutar os próprios pensamentos e entender o quão sem sentido são seus movimentos, quão sem aventura é seu comodismo e quão cativa é de sua própria imagem. Enfim, assim era Amália.

Porém, a trama não teria a menor graça se apenas contasse sobre o distanciamento entre Amália e o silêncio.

A questão principal deste relato é a tensa relação de Amália com um tal de Jorge, figura não menos importante para o que segue nas próximas palavras.

Jorge não matava dragões. Muito pelo contrário, era extremamente criterioso em suas vítimas. Assim mesmo que gostava de se referir as moçoilas do qual tirava seu principal prazer, a conquista. Era um macho viril, cheio de ardil e bom papo. Mas, sempre deixava claro: "Benzinho, você não é a única". Parecia discurso pronto, frase de para-choque de caminhão. Mas, boa parte das mulheres, e talvez homens, tem a estúpida mania de acreditar que "comigo, ele vai ser diferente". Sim, de fato, sempre é diferente, mas, nesse exato aspecto, a sinceridade de Jorge não se fazia de meios tons.

E como Amália e Jorge se cruzaram? Este é o ponto sacana da narrativa que fica a critério de cada leitor. Os fatos importantes que devem ser expostos são os seguintes:

  • Jorge tinha cara de bom moço, mas escondia muito bem o quanto era malvado;
  • Amália estava cansada da solidão acompanhada da multidão;
  • Jorge ficou encantado com a beleza de Amália, mas achou que não era algo que valesse. Via muitos vazios nela, e não estava nada disposto a preencher;
  • Amália ficou praticamente ofendida por Jorge não ter dado em cima da sua pessoa. Era o que acontecia na maior parte do tempo. A negação do mecanismo "Uau, como você é gostosa", foi o principal motor da putaria que vem a seguir.

Amália foi deixando cada vez mais claro o quanto tinha interesse, mais que sexual, em Jorge. Começaram com brincadeiras pequenas. Ela mostrando a nova peça íntima que havia comprado, só para mostrar na webcam (para ele). Ou ainda dançando uma música extremamente sexy também pela rede. Possuíam um hiato relativamente longo entre os corpos, mas, Amália estava sempre presente, galgando cada vez mais espaço na vida de Jorge. De simples conhecida, para amiga. Amiga próxima, até amiga íntima. Nunca ela havia se dedicado tanto com alguma coisa ou alguém. O conquistador deveria ser conquistado.

Jorge não se sentia oprimido por aquelo movimento. Era um tipo de entrega que admirava. apesar de não estar acostumado. Cada vez mais, ela baixava suas armas e proteções, deixando tão evidente seus vazios, ansiando ser preenchida por ele.

Horas de conversas, delírios e masturbações. Um encontro então foi marcado. Neutro, lençóis brancos e serviço de quarto. Era apenas sexo, havia sido o combinado. Ela estava extremamente preocupada em agradar. Não era muito do seu feitio, mas parecia confusa, mais do que o normal. Não era inexperiente, pelo menos queria parecer. Jorge já conhecia a imagem do corpo de Amália. Caras e bocas não faltaram nas inúmeras horas investidas dela no seu projeto.

Amália chegou primeiro ao hotel. Parecia uma aventura estar hospedada no mesmo quarto, ainda mais, na mesma cama. Fugia totalmente da sua zona de conforto. Precisava se sentir viva, e aquela era uma oportunidade ímpar.

Depois de algumas horas entre banho, perfume, escolha da roupa, cabelo e sapato, estava impecável. Para buscar seu futuro fornicador, estava terrivelmente atrasada, como sempre acontecia. Jorge já aguardava (puto da cara), com sua pequena mala para o final de semana libidinoso.

Eles mal trocaram olhares, e um beijo fortemente trocado. Aquela saia justa e pernas bem torneadas golpearam a visão de Jorge, e o tesão se fez tão logo presente. Amália facilmente sentiu o volume na calça do moço. Mal entraram no táxi e ela já tratou de tirar da bainha a espada de Jorge. Ensaiou até que o chuparia ali mesmo, mas Jorge era puro controle e queria deixar Amália salivando mais ainda. Pois, foi o que conseguiu. Mal feito o check in, elevador, cartão na porta, ela tenta arrancar a calça/cueca/meia/sapato tudo junto. Nada funciona. Jorge tem o pleno controle da situação. Joga o corpo dela contra a parede, afasta as pernas e sente o sexo úmido. Traz o dedo até próximo do nariz. Senti o cheiro. Experimenta o gosto como se verificasse um vinho de boa safra. Ergueu totalmente a saia. Grudou ainda mais o rosto dela a parede. Amália já escorria pelas pernas. Para aumentar a tirania, Jorge reforça com a seguinte frase:

- Agora, vai ficar parada onde está e fechar os olhos.

Amália à contragosto, obedece. Porém, ficou louca de vontade de virar e partir para cima de Jorge. E o que ele faz depois daquele instante não deve ser repetido por pessoas sem instrução para tal. Jorge, sem a mínima postura abaixa e observa a verdade. Olha diretamente para o caminho da morte. Sim, a buceta. Dali, todos saem não para viver, e sim para morrer. Ele não queria morrer, logo, sacou seu instrumento de combate e foi a luta. Tirou do bolso sua cyber shot de 14.1 MP e começou a fotografar, totalmente de roupa e sem a mínima pressa de consumir seu novo bibelô. Amália ficou atônita com a situação. Como, aquele infeliz iria tirar fotos num momento como aquele, em que ela estava virada do avesso, ansiando um membro pulsante em suas entranhas. E o guerreiro estava preocupado com a iluminação do ambiente. 

Depois do terceiro ou quarto click, a moça subiu nos tamancos, se recompôs e acabou com a brincadeira do pobre Vasanpeine. Nem espada ou vara, nada foi enfiado em seu ventre oco. Amália ficou mais vazia do que jamais fora. Ergueu a cabeça, bateu a porta e nunca mais voltou.

Assim acaba a história triste e pouco erótica de Amália e Jorge. Para os que esperavam mais putaria, entrem em contato com a nossa central de atendimento, que em breve providenciaremos coisas mais baixas e sujas.

Obrigado.        








segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Breviário Obsceno VIII - Eisoptrofobia ou a Anti-Narcisa

Numa cadeira de balanço, a varanda parecia o mundo. A navalha curta, na mão esquerda, corria pela folha. Breve, ela, seria preenchida pelo fumo amargo, que aguardava na mesa baixa ao lado do copo praticamente vazio de um bourbon qualquer. E ele esperava...
Susie-q, era assim que gostava de chamar sua boneca. Ela garçonete, ele um músico decadente que se alimentava de desilusões. No fundo, um blues escuro de Lightnin' Hopkins riscando o vinil.
Ela era perdidamente apaixonada por aquele farrapo de gente. Mas, ele nem sempre fora assim. Fora alguém bonito, galanteador e que com alguns acordes, arrancava suspiros.
Num dos bailes da vida estava tão bêbado, que mal guardou seu ganha pão, e caiu da cadeira e ali ficou. Susie-q. era responsável por fechar o bar, e não sabia o que fazer com aquele boêmio. Entre solavancos e tropeços, arrastou ele e seu Dobro para o carro velho e imundo.
Ela era uma pessoa simples e sem ninguém na vida. Teve sorte em herdar uma casa com alguns bens de da tia velha que ela nem gostava. Nunca teve grandes pretensões na vida. Seu bem maior era a sua bela forma, que mesmo passado os anos, a boa genética da família e algum exercício semanal, faziam dela mulher extremamente cobiçada.
Ele acorda sem roupa, numa cama estranha e nem marcas do seu violão. Puro desespero.
- Vadia! Onde foi parar o meu violão?
Susie-q. não deu muita bola. Por incrível que pareça, ela estava deitada num sofá um tanto longe da cama, morta de cansada do turno da noite. Mal despiu ele e tombou noutro canto para não relar naquele corpo estendido na cama.
Ele ponderava sobre o que havia acontecido. Em seguida, ensaiava uma ereção, mesmo gritando com Susie-q. Tão confusa quanto ele, não conseguiu desviar o olhar daquele que decidiu acordar. Pobre moça... mal sabia que aquele seria o seu futuro algoz, aquele em que noite predominava e o torpor era contínuo. O primeiro passo foi dela, não se convida um vampiro para entrar. Um rápido puxão pelo braço, e o corpo inteiro dela já pousava sobre o dele. Não ofereceu resistência alguma, era toda entrega. Ladeando a cama, um espelho antigo, com moldura de madeira velha e cantos perdendo o reflexo. Foi nele que Susie-q viu tudo acontecer. Não conseguia mais olhar diretamente para aquele moço. O espelho aprisionou a imagem do seu amante naquele momento. Pensou que em poucas horas, já não estaria mais ali, e ela novamente o buscaria a solidão. Talvez gostasse daquele vazio constante. Porém, o espelho seria a prova que não necessitava daquilo. 
Susie-q toma um banho. Veste um dos uniformes que usa diariamente, e mais uma vez sai para o trabalho. Eles não trocam palavra alguma. Fingem total desconhecimento do próximo. Mas, o reflexo foi avesso e ele a esperava com as panelas no fogo. Uma comida rústica que mal soube identificar. Puxou a cadeira para que ela sentasse e com um comando curto "coma enquanto está quente", ela por não saber como reagir, obedeceu sem saber o que estava fazendo. Permaneceu na mesa, esperando algum diálogo que nunca aconteceu. Ele retirou a mesa, lavou toda a louça e tão pronto acabou, a pegou pelo braço, da mesma maneira que a noite anterior, a arrastou pro quarto e a consumiu da mesma maneira. Mais uma vez, não conseguiu olhar diretamente para aquele que arrancava o gozo do seu corpo. Apenas o espelho era o olho do mundo. 
Depois daquele dia, todos os dias eram cópias fiéis do anterior, salvo a comida que deixava de ser rústica e se tornava cada vez mais elaborada. Nunca mais o Dobro soltou uma nota sequer e Susie-q nunca exigiu explicação alguma sobre tudo.


domingo, 26 de junho de 2011

Breviário Obsceno VI - Epílogo em sangue

Todas as quartas-feiras, pontualmente às 16:18h, a campainha tocava duas vezes. Aquele era o prelúdio de apenas duas notas que m., devidamente trajada, aguardava em sua ópera de tormentos.
Dessa vez ele não estava trajado igual. m. toma um susto e congela. Não sabe como proceder. Se pergunta ou se age ativamente na situação. As ordens eram precisas e por mais que a última vez tenha fugido ao script, o comentário final dele é que não seria diferente. Mas, diferente do que estava previamente estabelecido ou diferente da novidade? Muita confusão para a pobre m. que queria apenas gozar. Ele entra. Carrega uma valise diferente de tudo que já havia visto. E m. continua parada exatamente no mesmo lugar, como se abrisse a porta. Num reflexo, apenas fecha a porta. Curiosa, como sempre, quase convulsiona para perguntar o que há na mala. Porém, sabe muito bem, que naquele momento, a curiosidade é o pior dos inimigos. Aquele silêncio ensurdecedor. m. tem medo. Pânico. Se ele bater o pé no chão, é bem capaz de molhar as calças. m. está com os sentidos à flor de pele. Tenta não olhar diretamente nos olhos dele. Medusa, que faz qualquer sangue quente virar pedra. Maldição de Palas Athena, o conhecimento versus o prazer. Sim, são aqueles olhos de um negro sem igual, que roubas a beleza de m. e transmutam em prazeres hediondos. A buceta de m. faz movimentos involuntários. Sente a calcinha já perdida entre tantos fluidos. Simplesmente vai ao solo, fica de joelhos, seios contra as coxas, quase posição fetal, se não fosse os braços totalmente abertos e testa no chão. m. poderia esperar qualquer coisa naquela posição. Havia treinado horas para aquilo. E o silêncio ainda cortante. Estava isolada no seu pequeno mundo, uma dimensão quase fractal. E o tempo não passava. Ansiedade. Seus líquidos já chegavam a calça. m. tinha certeza que ele caçoaria dela por tamanha falta de controle. Perdida entre pensamentos, fica praticamente surda e é após o segundo ou terceiro comando que percebe que o silêncio havia sido quebrado.
- ... , sem roupa, de pé e agora.
m. furiosamente tira a roupa, como se aquilo a libertasse de grilhões seculares. Mas, não havia entendido quais foram as palavras anteriores. Se pedisse que as repetisse, provavelmente, ele abriria a porta e só na próxima semana o veria. Acabaria com a cena. Não sabendo o que fazer, se aproximou dele, virou de costas, ergueu os braços e armou a sua couraça imaginária que tanto usava nos momentos de dor. A mão esquerda grande e robusta pegou pescoço e começou apertar. Ele sabia muito bem do pânico que m. tinha de asfixia, mas acompanhado o movimento, seu corpo inteiro entra em choque pelas costas. O membro coberto pulsando na bunda, a mão direita confronta o sexo pingando, m. não sabe o que sentir, como se o sentir fosse crível de razão. m. ainda era uma cabeça que rola.
- Que parte burra de você, não entendeu meia dúzia de simples palavras do que havia de fazer? Agora, ou goza ou desmaia. Os dois juntos, melhor ainda.
m. tenta ofegar, como sempre faz no pré-gozo, mas o ar lhe falta. m. entra em desespero. Tenta se libertar, mas o gozo vem antes. E as pernas não suportam mais o seu peso. Ele a deixa cair. Olha de canto de olho, e vê que m. ainda respira, mesmo com certa dificuldade. Uma boneca de pano jogada no chão. Vira as costa, vai até a valise, esteriliza bem as mãos, veste luvas cirúrgicas e se faz valer do curso de body piercing de 90 horas fazendo um corset piercing. m. acorda apenas quando ele bate a porta.

        

terça-feira, 14 de junho de 2011

Carta para e.

Minha e., 

Bem, se escolheu essa folha, faremos o segundo ato, pulando o que está escrito na outra folha. Não haverá perguntas, e muito menos palavras. Já que odeia tanto os números, hoje seremos só números. Tudo o que está escrito deve ser memorizado e repetido na precisa ordem. Quando fechar a folha novamente, começa o ato. Quero que se dispa por completo. Fique de joelhos na minha frente e estenda as mãos. Irei oferecer uma caixa. Dentro dela há um objeto. Quero que tire-o da caixa e o beije, bendizendo e agradecendo a oferta. Irá levantar, afastar-se dois passos de mim e dará vinte e cinco golpes com a mão direita sobre o ombro esquerdo atingindo as costas. Depois, vinte e cinco com a mão esquerda sobre o ombro direito. Após, mais vinte e cinco sobre o ombro direito com a mão direita. E por fim, vinte e cinco com a mão esquerda sobre o ombro esquerdo. Em momento algum deve fechar os olhos, sempre olhando para o meu semblante. A ordem das ações é fundamental. Segure o objeto com a boca, fique de quatro e venha caminhando assim para mim. Passos curtos e felinos. Com graça. Ofereça o objeto para mim. Irei pegá-lo da sua boca. Irá prostrar-se aos meus pés e receberá cinco golpes em cada lado da bunda. Em todos os golpes deve abrir contagem, dizendo apenas os números. Caso não aceite o que está escrito, rasgue a carta. A safeword é duzentos e cinquenta e cinco. Nunca saberá o que seria o outro ato. 

Assino: MM
vulgo JS  

créditos da imagem para a pekena

sábado, 28 de maio de 2011

Prelúdio do olhar avesso

O seu olhar, um olhar de luxúria, que passeava pelo corpo exposto, mesmo com aquelas roupas, mas que não tardariam a cair no chão. As curvas e saliências da modelo, cujas vestes levemente apertadas, só deixaram a situação um pouco mais insuportável. Vontade de rasgá-las sem preliminares, subjugar aquele corpo e satisfazer o quanto antes a vontade de ambos. Para controlar a vontade, um aperitivo, o som do tapa ricocheteou nas paredes... o olhar demonstrava que era momento...
Tira o membro da calça e o coloca em frente a volúpia de ambos, de joelhos, o olhar no seu, a sensação da língua passeando vagarosamente, parecia que era de propósito ser tão devagar, para atiçar mais... o olhar virá gelo, e ela entende o sinal para colocar tudo na boca... buraco pequeno, pau engrossado, nada que uns puxões de cabelo controlando o ritmo não resolvam... até o fundo, as sensações da língua e das paredes da boca, tão quente, tão macio, o ritmo do corpo, as mãos em suas bolas, e a vista da subjugada a seus pés, era demais para agüentar...
Em um instante muda a cena, uma voz vinda mais da adoração de comandar do que da capacidade de falar, faz o ser de joelhos tirar todas as roupas e se colocar a sua frente na cama, ela encara o seu rosto sério, com um misto de medo e desejo, e vê em seu olhar o fogo e a malícia... Ela estende a mão para passar por seu corpo, as unhas roçando a pele, e o puxa para um beijo de línguas ferozes... Você sente a pele macia, a suavidade dos seios expostos, coloca a mão na concavidade entre as pernas e sente o quanto ela também lhe quer... um tapa bem dado nas nádegas para demonstrar quem ainda está no controle...
A pega pelos cabelos e leva a boca novamente ao seu pau, latejando de desejo... de quatro na cama, chupando o seu membro do corpo em pé, você tem a visão privilegiada da curva das costas da bunda convidativa, enquanto o seu membro bate na curva da garganta...
A pega pelos cabelos novamente, leva a boca a sua, o olhar para atiçar as fogueiras, e é hora de parar de ser bonzinho, pois a noite só está começando...

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Breviário Obsceno V - Prólogo do Caos

Todas as quartas-feiras, pontualmente às 16:18h, a campainha tocava duas vezes. Aquele era o prelúdio de apenas duas notas que m., devidamente trajada, aguardava em sua ópera de tormentos.
Era uma cena simples. O convite para entrar. m. aponta uma poltrona junto as estantes. Ele agradece, mas avisa o quanto o assunto é sério. m. oferece um café. Já sabe exatamente a quantidade de açúcar que ele gosta, porém, o rito, faz com que a medida seja equivocada. Até aquele momento, a pauta continuava imaculada. Todos sinais perfeitamente respeitados. Houve muito ensaio para que a dança chegasse até aquele ponto. Era uma peça surrada, de uma velha companhia de teatro em que alguns atores já haviam falecido.
Aquele erro é necessário para todo o compasso seguinte. É o estopim pedagógico. Deve pedir desculpas, como dezenas de vezes já o fez. Aquele é o ponto exato em que tudo vira caos, um jazz atonal, em que ele a toma de súbito e nunca compõe a mesma melodia.
Por mais que m. concordasse com todas as possibilidades previamente estabelecidas, ele sempre compunha novos significados. m. sempre era tomada de medo. Primal e infantil. Talvez fosse o principal motivo da admirção de m. por ele. Nunca deixou de achar ele estranho.
Desta vez, foi minimalista. Escolheu apenas um tema (suplício: um paddle pequeno de angelim vermelho) e compilou modestas variações no corpo atado a seus pés no chão.
Ofegante, chorosa e imobilizada, m. não sabia se aguentaria muito mais aquele suplício. Criou coragem, mesmo sabendo que não o devia fazer, e rogou a ele que precisava ser invadida, que iria explodir de tesão se não o fizesse logo.
Para total surpresa de m., ele tira sua vara tesa da calça risca de giz, exibe de todas formas para m., mas, em nenhum momento deixa que o toque. Nunca haviam ido tão longe numa cena. Aquele pedido gerou uma complexa trama entre os desejos e os acontecimentos.
Porém, num lampejo de lucidez, ele ergue a calça, guarda o membro e manda ela se recompor. m. não acredita. Estava tão próxima ao gozo, tão próxima de ser avidamente consumida, que surta em desespero.
- Vem cá, está de palhaçada comigo, só pode. Impossível, tu com uma piroca dura como essa que acabou de guardar, não querer cravar ela inteira em mim. Olha, estou me oferecendo - m. se vira, abaixa o dorso como ele ensinou, e mostra a buceta ensopada e o rabo. Assim está bom pra ti? Mete esse infeliz em mim, por favor!
Ele ri, como se debochasse de própria morte, num ato de pura loucura. Um homem de pau duro não poderia ter tanto controle sobre sua volúpia. Mesmo a desejando tanto, abandonou o defeito fálico e perderia o seu poder se a consumisse naquele momento. Mas, ela talvez não percebesse tal sutileza. Ele pega sua pasta com livros, arruma o paletó e termina com a mesma frase do roteiro.
- Esteja com o café pronto no mesmo horário. A próxima semana não será diferente.


sexta-feira, 22 de abril de 2011

Breviário Obsceno IV - Quase-estupro

A linha tênue que separa o querer e o "ser invadida". É neste lugar, bruto e denso, de limites inexistentes, que mora o desejo/medo. Não falo de fobofilia, sim de uma direção em que o medo acompanha a negação, em que o desejo de fuga é a única verdade consciente, e que todo o resto é um emaranhado de emoções e sentidos. Neste lugar, começa o meu conto...

Uma jovem mediana. Não chamava atenção alheia por saber se proteger bem dos olhares indesejados. Talvez desejasse olhos que a devorassem, mas, não olhos comuns e plácidos. Queria olhos malvados, podres e cheios de fogo. Não era fácil admitir, mas desejava que um estranho qualquer, numa das esquinas da vida, a jogasse no canto e judiasse dela, daquele jeito que não se faz nem com as piranhas que vendem o seu sexo por poucos trocados. Queria alguém sujo, que não perguntasse o seu nome ou se estava bom ou ruim. Apenas um puro objeto de prazer, menos do que uma boneca inflável ou um vibrador com pilhas recarregáveis.
Certo dia decidiu que iria dar asas ao seu desejo. Pintou o rosto de tons fortes, batom vermelho, vestido curtíssimo sem calcinha e uma sandália que valorizava a bunda e as pernas. Não iria levar bolsa e nem documentos. Queria simplesmente ser violada e deixada ali. Se houvesse outras agressões além do sexo, melhor ainda. Ela precisava se sentir viva, e talvez a dor e o medo a tirassem das músicas de elevador, tons pastéis e comida de baixa gordura.
Não chovia, mas ventava e fazia frio. Pensou por um instante como era feliz em não fazer aquilo todas as noites. Ela odiava o frio. Odiava como o vento tocava a sua pele, principalmente com tanta pele exposta. Caminhou mais algumas quadras, nada de táxi, precisava sentir o medo a cada passo. Mais algumas esquinas dobradas e pronto, estava na pior localidade possível para uma moça sozinha naquele horário. Perto de uma boca de fumo, num canto escuro da cidade. Dificilmente alguém conheceria ela ali. Alvo fácil...
Quase hora grande e nenhuma alma viva ou penada se aproximava dela. Era impossível aquilo. Começou a ficar frustrada, se achando horrível, a pior das mulheres. Quando estava de jeans, tênis e camiseta, arrancava sempre algum comentário, mesmo que modesto. Agora, vestida para o abate, não havia matador para aquela causa.
Sem mais esperanças, pega os restos de si e da sua estima, e começa o caminho de volta para casa. Caminhada longa. Nunca o caminho de volta foi tão longo para alguém.
Duas quadras antes do seu apartamento, virando a esquina, se depara com um elemento mal encarado. Pondera, tenta não encarar o sujeito. Sente o seu hálito sujo, o perfume barato de peão de obra e sua camisa floral de missa de domingo. Devia estar voltando de algum bailão, trôpego e com o cigarro no canto da boca. Ele tira o cigarro com a mão direita, olha para a moça e quando tenta compor uma frase, a moça reage freneticamente e dá uma joelhada nas bolas do pobre diabo. Desce dos saltos e corre para casa, como se fugisse do capetão. E o infeliz nunca disse o que pretendia para a moça de pernas fortes, apenas teve dores durante a semana decorrente.


quinta-feira, 21 de abril de 2011

Breve nota sobre lágrimas e gérberas

Devia ser agosto, quase setembro, não lembro. Ela era um heterônimo, uma distorção da própria volúpia. Avisou, sem muito explicar, que estaria de branco, cheia de odores do mundo e de outros lugares. Não foi difícil entender do que se tratava. Sexta-feira, lua alta, cheiros de arruda e cachimbo. Quem é de banda, é de banda. Quem não é...
Cabelo vermelho, olhos claros e pele extremamente branca. De tímida, passava longe, mas reparei o como media as palavras, os gestos e a postura. Laura, Wanda, ou seja lá qual for o nome dela, ela era apenas desejo.
Busquei ela num lugar que eu bem conhecia, ou talvez o lugar me conhecesse. Várias esquinas e encruzilhadas que dão em lugar algum. Entrou no carro. Beijo na face e sorriso de canto. Ela indica o caminho do seu apartamento. Subimos. Ela pede para tomar um banho e me oferece a sua cama. Eu sento, zapeio os canais da TV. Pornô, pornô, pornô, futebol, noticiário. Pornô e mais pornô. Parece até programação de motel. Sugestivo.
Ela sai do banho, toalha enrolada no corpo e outra no cabelo. Vi a toalha de cima manchada, tinta no cabelo.

- É, sempre acabo manchando as coisas com o cabelo.

Senta do meu lado, e sem a mínima cerimônia confere o volume da minha calça. Curta e determinada. Mostrou a que veio. Se aproxima, beijo no pescoço. Em contraponto, misturo minha mão esquerda em seus cabelos molhados. Puxo um tanto, afastando o rosto para um tapa. Mal armei a mão, e ela já solta sem respirar.

- Não gosto de tapa na cara. É uma total falta de respeito para mim.

Menos alguns graus no ângulo da minha ereção. Eu realmente gosto de dar tapas na cara. Não é a dor, e sim o ataque moral. Romper a fronte, simples assim.
O mesmo problema, corpos novos são sempre estranhos. Mesmo que o tesão seja extremamente alto, gozar não é objetivo do primeiro coito. É sempre conhecer a intensidade do outro, os gemidos e movimentos. Primeiras fodas são quase artificiais.
Depois de algum suor, perguntei se podia me dar de beber. O de fumar, eu já tinha. Fui na sala e olhei a mesa. Ferro, linda, muito bem trabalhada. Devia ser um tanto pesada. As cadeiras eram no mesmo estilo. Sentei, pedi fogo. Ela não se importou que eu fumasse. Falei o quanto era novo o maldito vício. Olhei para o vaso de flores na mesa. Gérberas muito bonitas.

- São as minhas preferidas - disse ela.

Naquele momento tive um grande dejà-vu, sabendo que tantos outros momentos como aquele eu teria.






sexta-feira, 8 de abril de 2011

Meias sangrentas - primeiro terço

Sorrir é um ato tão simples, que mal percebemos o quanto acentua nossos dias. Nem todos os dias são primaveras, pássaros cantando e meninas de vestido florido com laço no cabelo. Muitos dias cinzas, de tantos tons, que nos perdemos em reflexões e comparações entre meias cores. Sim, tons pastéis são quase sinônimos de introspecção e melancolia. A morte de uma cor se dá pelo cinza. São Paulo, do alto, é cinza salpicado com um infinito de luzes.
As malas girando na esteira contínua. Lembro do Ford. Aparece o Lobato, aquele bigodudo. Máquina de ver o futuro ou déjà vu? Não sei... Perco o olhar novamente dentro de mim. Vem a cena dela chorando por ter perdido a mala. Mas, nunca aconteceu. É apenas um medo sempre presente em qualquer viagem. Acho que esqueci alguma coisa. E se perderem a minha mala? Os livros sempre levo dentro da mochila. Não tem problema. Será que ela ronca? Nada que um par de meias não resolva. Judiaria, mas nem tenho chulé. Realmente poderia ser bem pior. Ainda acho que esqueci de algo. Minha mala ficou leve demais. Poderia ter trago mais coisas. Talvez, roupas... Um SMS para avisar que já estou aqui. Quero ver se ela trouxe a minha placa de MM. Chocolate... Droga, estou com fome. Duro vai ser sair para jantar com tanta coisa para fazer (ou não). Só eu mesmo para me embrenhar numa coisa assim... E se ela for uma louca? Bem, é o mínimo que devo esperar... Animaçãoooo.
Bonito o cabelo dela. Abraçando. Cheirosa. A coisa vai ser complicada. Tantas fomes... Que caos. Não imaginava São Paulo tão grande. Só naquela fila ali, tem mais táxis do que em toda Florianópolis. Sim, eu sou provinciano. Puxa, é realmente baixinha. Será que eu não vou quebrar ela? Bulinagem dentro de táxi é divertido. Será que ainda está muito longe do hotel? Se ela beijar novamente a minha orelha esquerda, não me responsabilizo por atos secundários de natureza sexual... Arrasta mala. As minhas, não tem rodinhas do tipo que mala fica na vertical o tempo todo. Check-in no hotel. A moça da recepção me olha com desdém. Aperta o botão do elevador. Entra no elevador. Aperta o botão do andar. Aperta ela no elevador. Abre a porta do elevador e quase voltamos a descer. Acha o quarto. Chave-porta. Vuco-vuco, onde por as malas? Preciso mijar. Paudurescência latejante. De joelhos no chão, agora! Sente o meu cheiro. Era isso que queria? Cuidado com os dentes. Você realmente gosta disso... Agora, de joelhos na cama. Não assim, o contrário. Abaixa o quadril. Gostou do tapa? Cuidado, vicia. Você está pingando. Imagina se bater mais... Relaxa, você está tensa. Tensa e úmida. Tensa, úmida e sangrenta? Caralho, olha as minhas meias! Não iamos jantar? Mim pele vermelha, e quem ser cacique? Sabia que havia esquecido algo. Estou sem meias limpas agora...


segunda-feira, 21 de março de 2011

Escadaria

Devia ser agosto, quase setembro, não lembro. Recebo uma mensagem avisando que está na cidade e se não gostaria de sair para jantar. Realmente, fui pego de surpresa. Ela que tanto fugia de me conhecer, avisa que está na minha ilha perdida, e ainda por cima, tem coragem para um convite. Já tivemos o nosso período de latência, e o que faltava entre a gente era o simples contato dos corpos. Ela era uma pessoa estranha aos meus olhos, e olha que até eu sou normal quando me olho no espelho. Nunca arranquei dela uma palavra sobre sexo, um assunto tão confortável para mim, que até a minha vó fala das peripécias sexuais dela com o velho Nicolau. 
Apesar dela fazer o convite, eu escolhi minuciosamente o lugar. Um lugar tranquilo, sem música alta e com boa comida. Crepes e algum vinho tinto e seco. Não tem como errar.
Atravessei meia cidade para buscar ela na porta da casa de uns parentes. Mãe na porta, para eu ter que fingir ser bom moço. Boa noite, com licença e obrigado, sempre as palavras chaves, afinal, disfarço muito bem. Beijo no rosto, o respeito ainda se fazia presente naquele carro. Algumas palavras soltas no caminho, eu apresentando a cidade que ela já conhecia. Cumprindo apenas os regimentos do pré-coito. 
Ela estava com alto salto. Não sabia muito andar, principalmente com aquelas lajotas cheias de imperfeições. Ergui o braço, bom cavalheiro. Degrau, degrau e mais degrau. Chegamos na Degrau.
Pedi mesa para dois, no mezanino se possível. Parecia que aquele canto sempre estava reservado para mim. Quase havia o meu cheiro, o meu jeito de sentar na cadeira. Eu recomendei tomate seco e rúcula, cortado em quadradinhos, e com muita Tabasco. Pedi a carta de vinhos e chamei Dionísio para se sentar na mesa.
Uma taça de vinho, e vi seus olhos de desejo. Buchecha rosada e mãos inquietas. Peguei elas entre um compasso binário de um batuque qualquer. Olhos se tocam. Ela fingi timidez, mas aperta as minhas mãos. Arrasto a cadeira para próximo, e o crepe chega. Ela parece faminta ou usa a comida como prelúdio para o que está por acontecer. Azeite de oliva, pimenta e garfada, o trítono da música que tocava no momento. E a pausa. Mais um taça de vinho. Os olhos dela estavam maiores, havia muito mais desejo. Os pratos foram, e a posição anterior retorna a mesa. Os corpos mais próximos, o hálito de vinho, os lábios se tocam e "Love me do" toca no momento exato que os olhos se abrem no pós beijo. Peço a conta. Braços dados. Mais degraus. 
Descemos a rua, tirei o violão do banco de trás e sentamos na beira da lagoa. Algumas músicas, mais outros beijos tímidos. Quando terminei alguma canção dos Los Hermanos, ela virou e disse que queria ir embora. Esperei algum tempo até que ouvisse apenas o silêncio dela e do meu violão.

Canto dos Araças


        

Breviário Obsceno III - Monólogo agridoce

- Se acha que eu vou lamber o chão por onde passa, está muito enganado, Senhor. Não são assim que as coisas acontecem no meu mundo. Sabe que morro de vontade desse misto insano que vive a contar para mim. Como acha que fica a infeliz da minha calcinha depois de escutar tanta coisa imunda? Posso até me vestir de menina, fingir pureza e recato, mas no meu íntimo, quero ser aquela piranha que tanto pinta nas tuas frases. Acha que é fácil negar a minha posição feminista e assumir que quero ser judiada e tratada como a pior das vadias? Porra, e pra que serviu queimar o sutiã se é um tapa na cara que quero... Odeio esse bando de homem frouxo que tenta me tratar como princesa, como menininha frágil ou como dondoca. Porque eles não entendem, o que eu quero é um homem para me maltratar. Violar meu maculado corpo para que minha alma seja apagada, e que possa nascer novamente, como s'eu fosse apenas brandura. Parece poesia barata, mas é apenas desejo. Como você conseguiu plantar todos estes desejos malditos em mim sem nunca ter me tocado? Sim, só pode ser um bruxo malvado que manipula a mente de quem abra a porta. E nem tive a opção de escolher. É a minha vontade que me movimenta, e todas as direções são apenas... uma. É injusto, muito. Pensa, que opção tive se tuas palavras eram tão amenas. Parece o Burlador de Sevilla de bigode galego. Desculpe... Não era para ser assim. Eu não posso me submeter... não assim. Que lugar-comum, fala de coisas que todas as mulheres têm vontade de fazer, mas, apenas uma meia dúzia admite. E a meia dúzia, provavelmente, são as tuas ex-namoradas. Que saco isso! Sabe de uma coisa, vou me vestir e ir embora. Sair e nunca mais olhar na tua cara. Seu safado! Sem vergonha!! Cachorro!!! Te odeio com todas as forças do meu corpo agonizante... sedento... de prazer. Porra, só com este olhar, já me deixou molhada novamente. Vê, estou escorrendo por ti. Vem, me usa como quiser. Vou ter que pedir muito? Droga, sei que é você quem manda. Perdão, o Senhor quem manda. Ainda não me acostumei bem com a ideia de o chamar de Senhor. Por favor, bate com força no meu corpo. Preciso disso. Não sabe como é difícil admitir, mas preciso muito. Sonhei tanto com o dia que iria me consumir. Veja, estou tão bonita. Amarradinha e imobilizada como o Senhor gosta. Chega mais perto, por favor. Deixa eu sentir o teu cheiro de homem. Está tão bonito com esta camiseta nova. Vermelho sempre lhe cai bem. Não me ignore assim. É muita judiaria deixar uma mulher com tanto tesão nesse estado inerte. Nada acontece. Eu não espero Godot, quero o teu pau latejando nas minhas víceras. Vem aqui. Minha boca saliva tanto. Deixa eu chupar ele. Ainda nem senti o gosto dele. Por favor, não aguento mais. Não, não quero a gag novamente. Não, por favor... Filha da P.....

Ele coloca mais uma vez a gag na boca da mocinha em fúria. Senta no sofá posto estrategicamente na frente da cama, pega o tubo de Pringles Barbecue e continua a mastigar lentamente, como é do seu costume. Gosta muito do que vê, e descansa no sétimo minuto.



domingo, 20 de fevereiro de 2011

Final alternativo ao "Conto inacabado de um Natal morto"

A ideia do Conto inacabado é a mesma do coito interrompido. Nada de coisas molhadas latejando dentro de você. Nada de festinha. É a morte que antecipa a morte sem gemido. Mas, como eu ando feliz e algumas pessoas falaram que o conto não poderia terminar assim, hoje, é meu dia de ser puta (na escrita).

Como vou falar novamente de putas, botei Strip-Hop do 3 Mother Funkers, liguei o abajur vermelho e lavei as mãos com sabonete de erva-doce.

Vou contar até 3, e o conto volta na ida do homem ao banheiro. 3... 2... 1