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sexta-feira, 30 de julho de 2010

Morte do Pierrot

Claro que não vale o esforço de ir a Grécia e revolver o túmulo perdido de Crátilo. Isso de nada resolveria a contenda sobre a essência das coisas e seus nomes. Poderia se chamar Tereza, aquela que o Jorge Ben Jor tanto procurava ou a moça que Tomas vela o sono em Insustentável Leveza do Ser. Poderia se chamar Cristina, quase messiânica, tão esperada para salvar os pobres de coração. Ou até mesmo se chamar Augusta, pois se até a bandeira tem no seu hino "salve o símbolo augusto da paz", por que o meu conto não pode ter um elemento máximo?

Logo, divagações de lado, vamos ao nosso mainstream. A nossa messalina de hoje será chamada, genericamente, de Colombina. Nem está perto do natal e venho com essa alegoria tão ilustre, presente nas marchinhas de diversos carnavais. Pois, o carnaval não acaba na quarta-feira, e de cinzas, todos somos imundos. Mas, por quê?

A estória de mais uma déspota, mais uma Wanda, aqui, Colombina. Na versão moderna, não existe apenas um Arlequim, mas toda uma horda deles. A mulher inteligente é aquela que não corta os vínculos com aqueles que lhe são útil, mantendo uma pequena anel de homens a sua volta. Como numa ciranda, em que ela fosse o ponto central, onde cada desejo desses Arlequins é uma força centrífuga que escoa para ela. E que o controle dela sobre cada um é uma força tem direção contrária e totalmente maior (maldita centrípeda).

Uma vez, algo raro cruza o caminho da Colombina. Pierrot, quase como o Dodô, havia sumido do mapa do IBGE. Ninguém mais gosta da forma ingênua como ele. É o palhaço triste, que aprendeu a rir dos seus infortúnios Um certo "pseudo-poeta" disse: "Triste agouro calado/ Aquele que pinta uma lágrima na face/ Porque sabe que sempre botaram/ No meu circo, o palhaço sou eu". Talvez ele fosse um projeto de Pierrot, ou quem sabe um adormecido. 

Depois de negar tanto para si mesmo, o Pierrot decidiu que abriria seu coração mais uma vez para a Colombina. Não aquela mesma Colombina, mas é aquele tipo de mulher, inteligênte e astuta, que o bendito gosta de dedicar seus quereres. 

Idas e vindas, cada dia o Pierrot tentava sufocar mais a Colombina dentro do seu peito. Não queria que ela tomasse conta do seu âmago, das suas vontades. Pierrot é sem medida, viceral e auto-destrutivo. Tolo Pierrot... Acho que ele nunca foi num baile de carnaval e escutou que a Colombina sempre acaba nos braços do infinito Arlequim.

O Pierrot puxa do bolso uma carta do Tarot de Marselha, e mais uma vez O Louco dá o seu caminho aos passos do eterno viajante. É o Arcano Maior Zero. É o cão que late para salvar do precipício. É a beleza que serve de embuste para a natureza. Moral história: cuidado com as borboletas, o abismo sempre está próximo.

Como deixar viver o pobre Pierrot? Ele, agoniza mas não morre, porém, ninguém lhe socorre. Suspiros, não existe algo depois do derradeiro. O jeito mais humano é o sacrifício, como quando um cavalo quebra a perna. Pierrot de coração doente, não tem jeito. É totalmente demente.

O triângulo Arlequim, Colombina e Pierrot é mote antigo, quase tão imemorável quanto o próprio desejo, quanto o próprio sexo. Mas, a Colombina é sempre soberana no seu território.

Resta saber se a morte do Pierrot será um suplício pela sua ingenuidade ou se foi apenas pura perfídia da mulher-inteligente.

Noutro dia, achava que precisava apenas de beijos e abraços. Hoje sabe que não basta mais apenas o amor. É preciso dar ao corpo o fogo que ele necessita. 

O que importa é roubar sorrisos. Pobre palhaço...
 

2 comentários:

€lєҟtrα disse...

Sempre achei que o Pierrot, assim como todos os palhaços, tem uma alma-mártir!

Que texto gostoso!

Beijos meu escritor preferido!

Mariana Carneiro disse...

Delicia de texto mesmo, Jonatan.

Desse jeito fica dificil lutar contra as minhas tentativas de fuga à inspiraçao...

Beijos!