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sexta-feira, 22 de abril de 2011

Breviário Obsceno IV - Quase-estupro

A linha tênue que separa o querer e o "ser invadida". É neste lugar, bruto e denso, de limites inexistentes, que mora o desejo/medo. Não falo de fobofilia, sim de uma direção em que o medo acompanha a negação, em que o desejo de fuga é a única verdade consciente, e que todo o resto é um emaranhado de emoções e sentidos. Neste lugar, começa o meu conto...

Uma jovem mediana. Não chamava atenção alheia por saber se proteger bem dos olhares indesejados. Talvez desejasse olhos que a devorassem, mas, não olhos comuns e plácidos. Queria olhos malvados, podres e cheios de fogo. Não era fácil admitir, mas desejava que um estranho qualquer, numa das esquinas da vida, a jogasse no canto e judiasse dela, daquele jeito que não se faz nem com as piranhas que vendem o seu sexo por poucos trocados. Queria alguém sujo, que não perguntasse o seu nome ou se estava bom ou ruim. Apenas um puro objeto de prazer, menos do que uma boneca inflável ou um vibrador com pilhas recarregáveis.
Certo dia decidiu que iria dar asas ao seu desejo. Pintou o rosto de tons fortes, batom vermelho, vestido curtíssimo sem calcinha e uma sandália que valorizava a bunda e as pernas. Não iria levar bolsa e nem documentos. Queria simplesmente ser violada e deixada ali. Se houvesse outras agressões além do sexo, melhor ainda. Ela precisava se sentir viva, e talvez a dor e o medo a tirassem das músicas de elevador, tons pastéis e comida de baixa gordura.
Não chovia, mas ventava e fazia frio. Pensou por um instante como era feliz em não fazer aquilo todas as noites. Ela odiava o frio. Odiava como o vento tocava a sua pele, principalmente com tanta pele exposta. Caminhou mais algumas quadras, nada de táxi, precisava sentir o medo a cada passo. Mais algumas esquinas dobradas e pronto, estava na pior localidade possível para uma moça sozinha naquele horário. Perto de uma boca de fumo, num canto escuro da cidade. Dificilmente alguém conheceria ela ali. Alvo fácil...
Quase hora grande e nenhuma alma viva ou penada se aproximava dela. Era impossível aquilo. Começou a ficar frustrada, se achando horrível, a pior das mulheres. Quando estava de jeans, tênis e camiseta, arrancava sempre algum comentário, mesmo que modesto. Agora, vestida para o abate, não havia matador para aquela causa.
Sem mais esperanças, pega os restos de si e da sua estima, e começa o caminho de volta para casa. Caminhada longa. Nunca o caminho de volta foi tão longo para alguém.
Duas quadras antes do seu apartamento, virando a esquina, se depara com um elemento mal encarado. Pondera, tenta não encarar o sujeito. Sente o seu hálito sujo, o perfume barato de peão de obra e sua camisa floral de missa de domingo. Devia estar voltando de algum bailão, trôpego e com o cigarro no canto da boca. Ele tira o cigarro com a mão direita, olha para a moça e quando tenta compor uma frase, a moça reage freneticamente e dá uma joelhada nas bolas do pobre diabo. Desce dos saltos e corre para casa, como se fugisse do capetão. E o infeliz nunca disse o que pretendia para a moça de pernas fortes, apenas teve dores durante a semana decorrente.


6 comentários:

Mariii disse...

Ahhh.... desejos secretos, medo real, combinação forte :P
Muito bom!

Naiara disse...

Poxa! Assim... poxaaaaa! Deixa-se o cara falar pô!

Próximo "Breviário Obsceno" hahaha.

=)

Fernanda Ribeiro disse...

KKKKK pensei que o desejo fosse maior que o medo, e mais, pensei que um dos desejos fosse o medo..
muito bom rs'

visite o meu:
www.umaformadepensamento.blogspot.com
valeu ^^

Quimera disse...

Ahhhh aposto que ela pensou que ele fosse chamá-la de piranha!!
De fato a linha é tênue! Para vário tipos de sentimentos, como nas gérberas.

Mas não se preocupe não é fixação!!

aldrey disse...

A não uma porrada ali?KKKK
bjs

pequenasub disse...

deixou um gosto de não terminou...
mas interessante, na verdade o desejo, do qual compartilho com a personagem, do não consensual é complexo porque, dentro do SSC não tira totalmente o controle...
Saber definir o limite entre alcançar a fantasia e não deixar o seguro é extremante complicado.
claro, caso extremo descrito no texto, muito bem escrito por sinal.