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segunda-feira, 29 de março de 2010

Marcas de sangue

Num canto o gramofone do tipo "colecionador-ultra-luxo", um B-side com "Is you is or is you ain't my baby?" canta uma melodia lenta que faz o tempo diminuir o seu fluxo. Uma luz, vermelha e simples, indica o que um dia talvez foi chamado de cama. O ambiente era requintado, algo próximo a um quarto-ateliê, com uma bela janela opulenta, aberta, que banhava tudo com o aroma das damas-da-noite. Em oposição ao leve rasgar da agulha no disco de 78 rotações, uma respiração sinaliza um manequim-arfante. Entre o sono e a exaustão, aquilo que era um corpo, era mantido com os joelhos ao solo, pés amarrados um tanto suspensos e a mãos erguidas por cordas atreladas n'algumas argolas e roldanas. Realmente, era um desnudado manequim imóvel. Passava pouco da hora grande, quando da porta que dava acesso ao cômodo, um vulto entra pisando forte, rompendo todos os compassos da música, inclusive os passados. Com um copo d´água na mão, ergue suave a cabeça da moça, um gole ou dois, o resto todo voa na cara. O tapa sempre parece ter mais pressão com a pele úmida. Tem que molhar o couro para poder esticar, é assim que funciona. Olhos profundos extremamente borrados, com eles, encontra as botas. "Sempre de olho nelas", ele sempre repetia. Talvez por vaidade, ou por pura maldade, ela só conhecia os olhos dele na luz do dia. Num quadro-bancada, cada instrumento tinha seu lugar marcado pelo contorno próprio. Uma oficina de tortura ou um laboratório de prazeres, tanto faz...
Ele pega um chicote bem equilibrado. Um cat o' nine tails feito sob medida para a sua mão. Não seria a primeira seqüência de lambidas que "le petit chat" faria na noite. Liga um pequeno holofote direcionado as costas dela. Outra luz estroboscópica pisca na direção que aponta o rosto dela. O novo ritmo é de 17 batidas/piscadas/chibatadas por minuto (aqui podemos usar o termo homônimo BPM). Ele gostava de quadrados... 17 minutos de 17 batidas... 289 é um número bonito para o final da noite. Alguns fios de sangue tingem as caldas, assim como o fim das costas da pequena vênus que é massacrada. Roldanas soltas, ela se joga aos pés dele. Lambe vorazmente suas botas, como se daquilo dependesse sua vida. Apenas um tapa é dado com as costas da mão e um comando "Quieta!" cessa a ovação. Ele arrasta ela pelos cabelos no piso de madeira bem encerado. Beirada da cama, mão cobrindo os próprios olhos, ela sabia mais do que ninguém o que devia esperar. Ela tinha que salivar e sufocar avidamente com o membro no fundo da sua garganta para saciar a gana dele. Quase meia hora depois, e praticamente desidratada, ele prolonga a noite sinalizando que deve ela ficar de quatro. Sem a mínima delicadeza, o membro já habita o fundo das entranhas dela. Com um ritmo convulsivo, não demora tanto que o gozo venha forte em jatos longos e quentes. Ele tira o membro e instrui que ela deixe toda a sua seiva escorrer numa exótica comadre transparente. 
"Deixe escorrer tudo... não quero desperdício", assim comenta. 
Parece satisfeito com a situação, ela exausta. Ergue a comadre e a dá de beber. Logo em seguida, ainda como o pau inflado, pega nas bochecas dela e arregaça a boca, e urina no rosto dela deixando o resto escorrer lentamente para a comadre. Terminado o fluxo, em torno de meio litro, ergue a comadre-urinol e lava todo o seu cabelo com o líquido amarelo-cítrico. Há um corpo estendido no chão, marcas de sangue tingem o lugar como um sacrifício para deuses. Então, ele surge na porta e diz:
"Vá se lavar, o jantar está quase pronto... Tinto ou branco?"


P.s.: Sinto o cheiro de fumaça no ar...