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sábado, 12 de dezembro de 2009

Conto de partida


Amanhace, mas sempre entardeço. Simplesmente vejo cair o dia na pequena janela de um motel qualquer, sentada na privada. O grande prazer do gelado da privada. Talvez conheça todos os quartos, ou perto disto. O ofício de conhecer as pessoas nuas é o meu.
Quem diria qu'eu, que tanto acreditei no amor, me deixasse marcar desta forma pelos prazeres da carne. Moça de família, perdi a virgindade tarde com meu primeiro namorado. Foi uma história bonita de se ver, me pediu em namoro antes de qualquer coisa. Romântico... meu primeiro e único talvez amor. O mundo girou, e entre idas e vindas, quase 5 anos de histórias e gemidos, não amava mais ele. Tinha admiração, carinho, era um bom amigo, apesar de seus ataques de ciúme calado, mas no final, era só prazer. Ali comecei a me vender. O maldito foi meu primeiro cafetão/cliente, e me vendia barato. Cigarros, acredite, era isto que ele me oferecia por um boquete numa rua escura. Ele gostava de lugares altos. Até hoje não entendo o porquê. Tudo bem, merecia um bom desconto dos meus "serviços", afinal, ele apresentou o tal Eros (e talvez Tanatos) numa cama de solteiro, cercada de paredes cobertas de livros. Lembro do gosto salgado do pranto dele, numa última (quase) despedida muitos anos atrás, antes de cair na vida, ou antes dela cair de mim.
Fui embora, precisava sair de casa. Minha mãe castrava qualquer possibilidade d'eu sair de casa que não fosse casada. A maldita igreja, mas no fundo, tinha pena dela. Tranquei a faculdade, juntei uns trocados (alguns já aprendi a ganhar com o corpo... mas vender o corpo onde se tem conhecidos demais é complicado). Me joguei para o extremo sul. Fui para os Pampas.
Como minha vida ficou complicada. Não virei garota de esquina, mas mesmo assim, aguentava diversos problemas com clientes. Estava de mal comigo, não amava mais, não me amava mais. Com um ano de labuta, comecei a usar cocaína... A maravilha branca, que combinava muito bem com a minha pele. Quase cadavérica, gostava apenas do turno da noite. Como sexo com estranhos fica bom com cocaína.
Não servia para feia, mas logo comecei a mudar o meu visual. Me tornei agressiva, mulher forte, que sempre quis. Aprendi a ser gananciosa. Comecei a ser seletiva com os clientes. Havia esquecido quem eu era, que um dia sonhava em casar e até ter filhos. Arthur, com certeza seria o nome do meu primeiro filho.
Tinha aprendido novas dimensões de prazer. Agenda cheia, uma certa fidelidade de alguns clientes inclusive. Como é estranho o laço que alguns criam por um pouco de prazer. Para mim, apenas rotina.
Não estava rica, mas conseguia me manter e sobrava algum. Logo, consegui comprar um apartamento pequeno, o que facilitou um bocado o meu serviço. Arranjei a minha tão sonhada companheira, Ágata, uma gata toda preta e bem arisca, um bom contraste para minha doçura alva. Estava orgulhosa de mim. Da minha coragem em sair do berço, ir para um lugar estranho e conquistar o meu espaço, mesmo que este espaço fosse as minhas entranhas, o meu "eu" que era conquistado.
Em alguns momentos, durante os anos que pareciam uma noite contínua, pensei em mudar de vida. Voltar a estudar. Não havia perdido o hábito da leitura, uma das poucas coisas que um dia cheguei a ensinar  a alguém. Mas minha vida era estável, tinha o que queria. Viajava, me vestia bem, comia bem. Dei muita sorte apenas dando tão pouco (ou quem sabe muito).
Um belo dia, um eco do passado. Vejam como a vida é estranha e singular. Uma feira de livros, alguns autores, autógrafos e livros em promoção, o de sempre. Caminhando por entre a multidão, vejo um rosto, quase um fantasma, careca pelo antigo anúncio da cálvice. Está mais magro, até relativamente corado o moço, agora já quase senhor, está. Deve ter virado pescador, como sempre falava dentro das suas possíveis realizações. Está sentado, muitas pessoas ao redor dele. Ironia ou determinação, o infeliz virou de fato escritor.
Me reconheceu no ato. Tímida (ou fingindo trejeito), me aproximo entre tantas outras. Prontamente me estende um livro seu, e uma dedicatória praticamente sem palavras. Escreveu apenas seu celular. Pensei em deixar o livro numa das pilhas, para que talvez umas tantas que o rodeavam pegasse. Mas, fiquei com o livro por pura curiosidade.
O desgraçado melhorou muito a escrita. Dizer que um dia fui tema dos seus pequenos poemas... Resolvi ligar para convidar para um café, perguntar como ia a vida, 16 anos em absoluto silêncio, ele que era pura verborragia. Aquele puto me amava. Pena que me amou quando não o amava mais. Podíamos ter sido felizes. Se não felizes, ao menos a vida teria sido bem diferente. Talvez estivesse gorda, varizenta, e sem nenhum viço. Com toda certeza, não seria metade da mulher que sou. Também, se ele continuar cozinhando tão bem quanto antigamente, nunca iria ter o manequim 38. Na terceira tentativa de pedido de casamento, desistiu de mim. Não queria usar ele de muleta para minha saída de casa.
Ligo 2 dias depois da feira. Antes, terminei o livro para poder ter assunto. Não pretendo começar a conversa dizendo que me prostituo 4 dias na semana e que faço isto desde que me mudei. Talvez o coração dele, tolo como é, não aguente o choque. Não quero que nosso encontro vire notícia nos jornais, e muito menos virar a prostituta que pousa para Playboy depois de ter matado um escritor em ascensão.
Ele não está mais na cidade. Estava apenas de passagem na feira. Fico com saudades dele. Descido então ir visitar ele. Casado, 2 filhos, gato, cachorro e mora num sítio perto da região metropolitana. Aquele corno trocou a mulher, mas os desejos continuam os mesmos.
Parece incomodado com a minha visita. Decido ir mais cedo embora. Não falo praticamente nada da minha vida. Falamos apenas de coisas impessoais. Livros, filmes, música e culinária. Propus que a próxima vez que fosse a minha cidade, que ficasse hospedado na minha casa. Ficou lisonjeado com o convite, mas viu as segundas intenções do mesmo, e disse que um homem casado não fica na casa de outra mulher que não a dele. Bem o tipo de papinho dele que nunca acreditei. Quantas vezes fizemos pequenas orgias, sendo namorados ou não... Mas, deixa estar.
Alguns meses depois, meu telefone toca. Avisa que está na cidade. Limpo toda a minha agenda de clientes. Marco uma dose extra de salão. Vou estar poderosa e irresistível. Aquele puto me paga. Jurou numa noite de Lua Cheia, que seríamos eternos amantes. Palavra de rei não volta atrás...
Uma adolescente, era isto que parecia. Frio na barriga e todos os outros sintomas tolos da paixão juvenil. Ele parecia feliz, falava do filho que tinha pulado duas séries e que a mais nova já estava lendo com 4 anos. E por puro infortúnio, a pequena se chama Clara.
É a deixa: "Clara é o meu nome de guerra". Ele entende muito bem o que eu falo, ele usava a expressão "nome de guerra". Fica pasmo. Abre o paletó, retira do bolso interno algum comprimido sublingual. A testa suando horrores. Fiquei realmente assustada como ele reagiu. Então, do nada, olha para mim e pergunta:
- Nunca paguei uma prostituta, mas vou lhe ajudar no ofício. Por quanto lhe tenho a noite toda?
Jogo o preço lá em cima. Já que aguentou o primeiro susto, não vai empacotar agora se inflacionar um pouco os meus serviços. Ele puxa o celular, pede o número da minha conta. Ninguém mais anda com tanto dinheiro na carteira. Recebo o aviso imediatamente que foi debitado o valor na minha conta.
Percebo então o nervosismo dele. Será que aprendeu a ser fiel? Talvez ame a sua vida como está, ame a sua mulher. Os filhos, com toda certeza, ele ama mais do que tudo. Sempre teve vocação para isto. Sinto inveja da vida dele, não de uma vida com ele.
Chegamos no motel que indico. Faço questão de pedir uma das melhores suítes. Gracejo comunicando que é meu hóspede. Ele senta na beira da cama, puxa o cachimbo e acende um fumo cheiroso com um fundo de canela. Lembro de como ele tem cheiro de canela. Vou tirando os sapatos dele, fazendo uma massagem nos seus pés. Então, ele de forma ríspida comunica: "Apenas teremos o sono. Não quero mais sexo com você..."
Caí seca sentada no chão, olhando totalmente atônita para ele. Eu era naquele momento muito mais sexy e mulher do que qualquer rabisco que imaginou nos seus mais devassos devaneios. De certo modo, era fruto da imaginação pervertida dele. Como podia então se negar o prazer?
Lendo a minha indagação no olhar, fala num rápido lampejo: "Só é desejo aquilo que não se pode realizar. Quero apenas dormir, e nada mais...". Aquilo cortou fundo, como nunca ia imaginar. Mas, ele era o cliente, e escolhia a posição que queria no sexo.
Despida totalmente, tentei, ainda que em vão, oferecer o meu corpo. Ele, respeitoso, ficou de samba-canção, me ofereceu as costas e baixou totalmente as luzes. Como último suspiro, tentei bolinar sua bunda. Levei um tapa na mão.
Ele dormia. Eu corria seu corpo sentindo o seu cheiro. Aos poucos, consegui abraçar o seu peito e sentir seu cheiro de homem de meia idade. Aquilo balançou as minhas convicções de independência, de liberdade e solidão. No seu sono pesado, não reparou (ou não quis reparar), o quanto esfregava muito corpo no dele. Talvez tentando roubar aquele cheiro para mim, que tanto me trouxe esperança num passado quase esquecido. Perdi a noção do tempo e a noite virou dia.
Ele acorda, finjo o sono. Ele pede café para dois. Ainda lembra de como pedir o meu. Aviso que vou para o banho. Ele prepara mais uma sessão-cachimbo-cheiroso. Vejo a mesma janela que olhei tantas vezes depois do coito. Hoje, sem coito, me sinto oca por dentro. Oca de mim, oca de sentido e oca de existência. Vejo uma navalha. Não sei como, em tempos tão modernos, ainda se tenha este tipo de objeto num motel tão luxuoso. Olho a banheira, e pronto me vem cena. Navalha no pulso, banheira cheia e secador de cabelo ligado na banheira. Morte certa, e a energia do quarteirão indo embora. Mas é bom deixar um bilhete. Na falta de lápis ou caneta, vou escrever com sangue na parede.

Dô,

Por favor, cuide da minha gata. O nome dela é Ágata.
Sempre te amei.

No meu último adeus, assino:

Clara

6 comentários:

Maria Carol Muller disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Maria Carol Muller disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Niina disse...

Eu consegui sentir o cheiro do fumo....


Um arrepio passou por mim.


intenso.

beso da ali

Lucy disse...

Poderia destacar muitas frases que me subiram à cabeça como poesia. Esse texto é inteiramente delicioso para os olhos em sua imagens românticas com cheiro de cigarro e orgulho.

Maycon Aguiar disse...

Tá perdendo dinheiro, cara, em não publicar um livro. E, nós, somos privados a cada dia de um talento tão visceral, e isso é quase criminoso.

Lets de Assis disse...

Foi muito bom reler este texto e ver tanto de mim, de ti, de nós, de outros em cada entrelinha.

E me deu uma solidão, tão profunda quanto a falta que sinto de certas coisas que não voltam mais... coisas que sequer aconteceram!

Mas pelo menos tenho a certeza da permanência da essência!

Te amo