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domingo, 16 de agosto de 2009

Rosa branca


Engraçado como descubro que estou tão distante das pessoas. Posso estar cercado por uma multidão a dançar, diversão simples e barata, prazeres pequenos. Música, bebida, comida e muita dança. Uma festa, como tantas outras que haviam em qualquer lugar. Nada tinha apelo aos meus sentidos. Precisava de um cigarro para me acalmar. Aquela alegria gratuita me deixava realmente irritado, e principalmente, por não partilhar dela. Era simples, seguir algumas quadras. A noite estava agradável, o barulho do mar acompanhava os meus passos. Poderia simplesmente caminhar, indefinidamente, bastava o cheiro fresco da noite junto ao das ondas a quebrar. Mas logo cheguei ao meu destino. Um maço e um isqueiro, por favor. Abri a embalagem com todo esmero permitido para aquele momento. Retiro o primeiro cigarro, apenas sinto o cheiro dele. Alguns segundos próximo a narina para imaginar o gosto. O fogo e logo em seguida, a brasa. Assim caminho na direção contrária, admirando as cores sujas noturnas. Sou um animal peçonhento, em que a baixa luz, alimenta o meu espírito. Começo a caça solitária...

Logo lembro que tenho uma dívida, muito grande pra ser esquecida. Em algum dezembro distante sentei na beira do mar. Conversei, chorei e lhe pedi que trouxesse um amor pra mim. Que meu coração gelado estava cansado de não bater, de não sentir paixão. Alguém me escutou, fui feliz, mas do mar, me escondi. Fiquei com medo que o feitiço pudesse ser quebrado, que vendo minha felicidade, tiraria ela, ou já que tinha me dado o que pedi, também pediria alguma coisa de mim. Muitas e muitas vezes, tive medo do mar. Pensava em ir, mas faltava coragem. Sempre arranjava motivo qualquer para longe ficar. O que eu, tão pequeno, diante da grandeza do mar, poderia oferecer?

No caminho, apesar de não ser primavera, uma rosa branca pendia de um jardim triste e mal cuidado. Pedi licença a quem estivesse ali e roubei a flor. Uma linda rosa branca aberta. Perdi algumas gotas de sangue nos espinhos, mas a dor é pequena e nem encomoda. Guardei o cigarro, entrei numa rua que dava na praia. Tirei tênis e meias. Pisei firme na areia e disse odoiá!, minha mãe. Cheguei leve junto as águas, pedi desculpas pela demora, que apesar de guerreiro, tinha medo de perder minha alegria. As águas novamente lavaram meus pés, mas desta vez, como carinho de mãe. Ali me senti protegido e revigorado. Beijei a rosa e deitei ela numa onda mansa que chegou em mim. Molhei as mãos e lavei meu rosto na mesma. Sentei na beira da praia e admirei a sua grandeza. Pedi licença, calcei novamente meias e tênis e voltei para a festa junto do povo de aruanda.

O mar agora quebrava diferente nos meus ouvidos. Era um canto de paz, que a muito não conseguia escutar. Tinha um peso nas costas, porque queria ser feliz, mas não buscava a felicidade. Aprendi que devo cuidar do que peço e do que quero. Nem sempre o querer é o realmente precisar. Meu peso, minha culpa...

Quanto voltei pra festa, acendi mais um cigarro e alguém do povo disse que eu estava mais magro e "fromoso". Será?

...

Sábado, 15 de agosto de 2009. Ambos os dias, dias de Iemanjá.

4 comentários:

Lets de Assis disse...

Jon
Minha mãe, Odociá Iemanjá, também é tua mãe porque ela é a energia protetora de todos, independente de quem te cubra a coroa. Sabes disso. Tenho tanto a te dizer, mas sempre espero o momento em que tu estejas disposto a me ouvir. Espero o momento em que teu coração se abra para o amor (seja de que tipo ele for) que tanto eu quanto Ela temos a te dar.
Que bom que deste a rosa a Ela. Me sinto presenteada também porque é dEla a energia que me mantém alegre, mesmo diante de tantos obstáculos.
Assim como "Mamis", sempre estou de braços abertos e te repito: carinho SEMPRE é bom, basta a gente aprender a aceitá-lo e se abrir ao merecimento.
O povo de Aruanda te espera...
Amor
Lets

Niina disse...

Bah....essa maneira que escreve..me prende do começo ao fim.

ás vezes...leio...releio..treleio...gasto seu texto...porque ele realmente me fascina.

Algo que poderia ser tão simples, se torna bem complexo nos seus dedos que digitaram ali.

Gostei

Bye 'Stranger' ;)

Jaqueliny Euzébio disse...

Indentifiquei-me completamente com o primeiro parágrafo. Essa solidão que sentimos, mesmo estando rodeados de pessoas me é muito familiar.

Verdade, fazia um tempo que não visitava o seu blog. Mas não se incomode, voltarei aqui sempre que puder - e sempre que meu computador colaborar.

Jaqueliny Euzébio disse...

ps: Obrigada por ler meu blog! :D