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terça-feira, 21 de julho de 2009

Prudência


Numa paisagem em diversos tons de cinza, num caminho que não conheço, rostos construídos em série. Mesmo assim, não era um alienígena qualquer, exibia um sorriso confiante e roupas que denunciavam o meu motivo "exótico". Num território em que tinha poucas referências, cada observação era por demais valiosa. Pelos menos, era a mesma língua. Será que também liam Borges, Kafka e Saramago? Não importa. Se os índios americanos sobreviveram algumas centenas de anos ao contato hostil dos europeus, eu consigo terminar o final de semana inteiro. A missão é fácil. Alguns ingredientes pra fazer um strogonoff, entrar no carro e voltar ao apartamento. Nada pode dar errado. Simples.

Tomates, alho, cebolinha verde e alguns condimentos variados. O tempero tem que ser suave. Tudo devidamente escolhido. Produtos no carrinho e em direção ao caixa.

Fila é produto intermunicipal. Mas nem tudo é padrão. Caixa sem balança. Voltando a verduraria. Tomates e alho em mãos. Primeiro o tomate...

Nisto, ela percorre os olhos além dos tomates. Mira meus olhos e recua. Usa o que está disposto e diz:

- Engraçado este teu colar. Parecem... pequenos brigadeiros.
Já ouvi este comentário e nem são tão parecidos assim. Mas fiquei rubro com a lembrança e retruquei:

- Não faz muito e ouvi isto bem longe daqui. Nem acho que pareçam tanto assim. Mas, se duas pessoas tão distantes falam a mesma coisa, deve haver algo parecido mesmo.

Uma pequena risada, e ela mostra o anel na mão esquerda, uma aliança. Voluptuosa, morena alta, seios fartos e maior do que eu. Adoro este tipo de mulher decidida. De nada me incomodava aquele pequeno detalhe, sabia que papo do colar era apenas uma brecha. Fui agressivo e incisivo. Não teria nada a perder.

- Sei que o comentário sobre o colar foi apenas pra ter como abrir assunto. Não me importo que você seja casada. Que horas você sai do trabalho?

- Quem acha que sou? Como ousa fazer uma proposta dessas?

- Sou ninguém. Uma aventura, que você quer experimentar e achou que conseguiria esconder com este olhar me devorando...

Deixei ela rubra. Empate. A fila da verdureira aumentava e dei o ultimato.

- Que horas?

- Daqui uma hora estou no estacionamento dos fundos do supermercado. Esteja lá, mas já aviso, vamos num motel, nada de fazer sexo no carro ou em outro lugar.

Não esperava isto num supermercado, ainda mais num sábado, no começo da tarde e numa cidade estranha. Paguei para ver.

Antes da uma hora, já estava aguardando ela no dito estacionamento. Ela veio caminhando, rebolando muito, exibindo as formas. Lábios vermelhos denunciavam a intenção.

Abriu a porta e avançou com gana na minha boca. Mordia e rosnava como uma gata no cio. Ofegante disse:

- Três quadras a esquerda, Motel Mirage.

Nisto, já abria minha calça e sugava fundo. Não teve o menor pudor e chupava como se não estivessemos no trânsito de uma cidade média de final de tarde. Muitas pessoas fazendo compras e nós entrando no motel.

- Tenho quanto tempo contigo hoje?

- Meu marido só volta depois das 3 da manhã. Pode me usar até não querer mais.

- Gostei da idéia "usar".

Mal estacionei na garagem da suite, já estendi seu corpo por sobre o motor do carro. Queria a bunda dela quente. E não tive receio nenhum em dizer:

- Quero de quatro comer teu cu.

- Teu desejo é uma ordem...

Com todo o desejo que meu membro suportava, uma simples salivada dela serviu como lubrificante suficiente para uma penetração suave, porém firme. As pernas dela tremiam. Coxas fartas, de descendência italiana. Falava com as mãos. Gemia com as mãos. Cabelos escuros e grossos, pele cor de leite.

- Gosto de xingamentos. De piranha pra cima e nada de palavras como "papaizinho"...

- Eu já gosto de malvadezas. Adoraria dar uns tapas nestas carnes brancas. Mas minha mão pequena sempre deixa marcas profundas.

- Adoro profundas. Bate e com vontade. Meu marido é um palerma que gosta de sexo com luz apagada, isto quando fazemos. Descarrega tua gana em mim, como falei, me usa.

Tirei a cinta da calça já a muito longe. Ótimo instrumento de deixar marcas. Profundas, quase cortantes.

Seus gemidos criptavam meus ouvidos, transpondo aquele sentido. Via seu prazer, cheirava sua cor rosácea.

- Não aguento mais, goza, mas quero na minha boca pra sentir todo o teu gosto.

- Gosto da tua ousadia.

- Não quero ficar com vontade fazer nada. Já que me ganhou, a ti me dou inteira.
Mais do que um jato, um jorro da minha seiva percorreu seu rosto. Boca, olhos, tudo salpicado de visco.

- Faz alguns anos que não tenho um sexo de qualidade. Acabei casando por comodidade e conforto. Esqueci dos meus prazeres. Ele é um bom companheiro e vai ser um ótimo pai. Pena que não sabe me comer direito. Não penses que sou uma puta, que dou pro primeiro estranho que sorri pra mim. Gostei das tuas mãos. Lembrei de alguém muito importante pra mim e que deixei numa escolha errada. Usava colares diferentes como o teu. Por isto te fiz o comentário. Mas você ganhou o que queria ter dado a ele novamente.

- Não te sinta culpada ou suja. Somos isto, um bocado de escolhas, muitas conscientemente contrárias as nossas vontades, mas comodas. Sempre o conforto e comodidade. Isto é o dinheiro, a família, a profissão segura, uma sociedade castrada e repreendida sexualmente. Triste, mas a realidade.

- Como posso te ver novamente? Gostei da tua sinceridade e muito mais do que isto, do teu sexo. A gente pode ir longe com isto...

- Moro a algumas horas daqui. Sozinho. Te ofereço pouso e adestramento durante uma semana, se assim quiseres.

- Adestramento?

- Se queres saber o que é isto, me procure. Aqui está o meu cartão com meu telefone e endereço. Não vou dizer o meu nome verdadeiro, mas no cartão está Zepol. Assim me chame.

Calada, sem entender muita coisa, pousou em meus braços um sono merecido de mulher realizada.

A ela chamo de Métis

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Culpa do cheiro de baunilha

Cão na guia, não é o Husky que um dia tive, mas é babão e bobão como tal. Dia lindo de sol, inverno cheiroso. A Lagoa dá a sua graça, cada vez mais próxima, mas este canto dela, não conheço. Um cantinho que nunca acharia se não estivesse passeando com o cachorro que não é meu. Agora entendo o porquê de tantos pelos. Cão solto, guia na mão, e mais uma vez ela fala de amores que não o meu. É duro ser o fiel de tantos sentimentos que não os meus. Isto é ser amigo, saber ler no outro sem palavras, porque estas gaiolas são, não dizem o que queremos e muito menos o que devemos ouvir. A comunicação é isto, algo qu'é inútil. Os cães é que são felizes correndo, sem ter medos ou travas, sem ter problemas com a lama ou a água fria, simplesmente correm. Mesmo sem saber pra onde, correm.


...

Até atos que abomino, podem ser divertidos na presença dela. Uma blusa bem cinturada lhe cai bem. Sempre com fome, sempre.

...

Roubar teu calor é boa desculpa pra poder te tocar.

...

Final de noite, mais uma vez, devo criar coragem e falar o que coração grita, mas a covardia nega. É apenas coisa da tua cabeça, não existe nada além da intenção.

...

Falo ou calo? Sempre dúvidas, sempre. Elas corrompem todas as certezas, se é que elas existem. Falo, mas isto não deve ser dito com versos e sim atos. Minha fala é muda. Minhas palavras são o silêncio, que nunca são escutadas. Palavra não tem cheiro, não tem apelo, não deixa saudade. Perdi, mas não sou emo, isto não.

...

O amor maior é aquele que não existiu, aquele que ficou pungente, mesmo sem gosto, com algum cheiro.

Vou roubar uma frase que gosto muito do Mutarelli pra tentar expor minhas idéias...

"De todas as coisas que tive, as que mais me valeram, das que mais sinto falta, são as coisas que não se pode tocar. São as coisas que não estão ao alcance de nossas mãos. São as coisas que não fazem parte do mundo da matéria. [...]"

...

Ela me fez sorrir

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Qualquer uma? Sacanagem!



Eu cá estou, debruçado na rotina de mais uma quarta-feira, em que o dia demora a passar... É a situação pré-coito do final de semana. Quase religião, quarta, sinuca e o papo jogado fora sobre as últimas leituras. Porém, um dicionário histórico-político (ou melhor, cinco livros pesados e com mais de dez mil páginas) muda drasticamente meus planos para fuga da monotonia.

- Você trabalha aqui?
- Sim. Em que posso ajudar?
- Bem, vi que vocês tem um dicionário de política antiquíssimo, mas é um bocado... Nossa! que interessante este seu colar. Parece feito de brigadeiros. Posso tocar?
- Claro. Os "brigadeiros" dão em árvores lá da Índia.
- Puxa, bonito mesmo... Tem uma textura interessante. Como eu ia lhe falando, um bocado volumosos estes dicionários. Teria como entregar na minha casa? Moro perto, na direção do Pantanal, mas não dou conta de carregar todos eles sozinha.
- Estamos sem entregar no momento, mas caso queira, eu posso te ajudar a levar no final do meu expediente. Vou pr'aquelas bandas logo que sair. É a minha religião...
- Engraçado alguém com um visual assim, professar sua fé no meio da semana. Nem lá no interior as pessoas vão a missa no meio da semana.
- Não é bem rezar o que vou fazer. Vou encontrar uns amigos num bar, algumas partidas de sinuca e um pouco de bobagem pra tirar a tensão acumulada.
- Mas assim eu vou atrapalhar a tua diversão. Não quero incomodar.
- Assim eu posso sair um pouco mais cedo do meu pequeno martírio.
- Até parece que trabalhar com livros é chato assim. Imagina se estar rodeado deste mundareu de mundos...
- São mundos distantes demais de mim. Sem dúvida, tenho uma grande paixão por livros, tanto que trabalho fora da minha área de formação.
- Formado em...?
- Matemática.
- Exótico.
- Gosto desta palavra.
- Eu também.

A troca de olhares marcou a intenção de cada um perante o outro. Ela, era o ser exótico que não tinha tido coragem de assumir seus desejos. Vinda do interior, apenas um namorado que demorou 3 anos para lhe dar um sexo oral a muito contragosto, havia cansado da vida pudica. Ele, homem vivido, que com cinco palavras ou uma dança sabia se alguém queria dar para ele (ou não).

- Faço assim então, pago agora os livros. Tenho que fazer algumas voltas daqui a pouco. Passo no final do dia aqui, e se não for abusar, você me ajuda com eles. Que horas você sai?
- Daqui uma hora, mais ou menos.
- Certo. Venho daqui uns quarenta minutos...
- Me deixa telefone e fique com um cartão meu.
- Está bem.

Ela voou para casa e arrumou como deu a depilação. Sabia que aquele moço da livraria iria salvar seu dia não só trazendo os livros, mas lhe dando prazer. Estava eufórica. Não tinha acreditado na sua coragem, não que pedir para alguém ajudar com alguns livros o fosse, mas conseguiu ler no corpo dele a palavra tesão. Pensou e decidiu que ela não precisaria ajudar ele. Seria até melhor que ele cansado chegasse, assim poderia lhe oferecer algo para beber. Ótima idéia dona Mayla, pensou. O telefone toca, é ele. Será que ele escutou meu pensamento. Ele vai me devorar inteira...

- Alô, eu poderia falar com a Dona Mayla?
- É ela.
- Aqui é o moço da entrega. Já estou saindo daqui, mas preciso do seu endereço.
- Você leu meu pensamento. Acabei vindo direto pra casa. É na segunda rua depois da padaria, casa verde, número 62.
- Ok, daqui a 10 minutos estou aí.
- Te aguardo.

Tomou seu banho mais rápido da vida, mas pretensiosa continuou de toalha e uma calcinha minúscula que mal cobria seu sexo.

Dim-dom, a campainha tocou. Acendeu um incenso e abriu a porta. Aquele homem suado mal tinha atravessado a porta e ela já o puxava pelo colar de brigadeiros. Toalha caída, a porta batia e ela cheirava o seu suor. Ele adorou pegar no cabelo molhado e curto da moça recatada que agora se mostra despudorada.

- Não importa eu dizer o meu nome?
- Não me venha com romantismos... Nem cheguei perto dos livros de auto-ajuda pra você tentar me oferecer isto.
- Então faço qualquer uma sacanagem contigo?
- Me chama de puta pra cima, me chupa, me bate e me xinga... Posso não ter muita experiência, mas tenho tesão e hoje eu quero você em mim.

O "querer ele" dela bastou para criar todos os quereres dele.

Da noite que passou restam poucas marcas no corpo e uma fatura do cartão de crédito.

Pra ele a fé de quarta agora cheira incenso, pra ela uma bom amante que entende de livros.


P.s. Texto para Letícia com as palavras presentes no título

segunda-feira, 6 de julho de 2009

01



Mais uma vez o contato da louça gelada acordava meu corpo inteiro após a masturbação rotineira de uma manhã de inverno. Devia escrever uma máxima sobre a altura e temperatura dos objetos do banheiro, mas me falta literalidade pra tanto. De certo modo, é neste pequeno momento, la petite mort, que minha natureza se revela. Independente da longa sombra dos anos, acumulo uma lista de "pequenos crimes", entenda crimes como as paixões sadianas que destroem os costumes. Minha história é simples: sou um homem sem rastros. Tudo que tenho, são meus prazeres. Tive sorte em momentos pouco propícios, o que me rendeu mais dinheiro do que consegueria gastar se o quisesse. Admito que a fase "novo burguês emergente" ocorreu com algumas voltas ao mundo e seus gostos, mas nada que muitos já não tenham feito. Quando meu rosto começou a circular em revistas que nunca li, mas que sei que servem como mostruário de "homens que você deve conhecer no próximo mês", decidi que a clausura seria um bom argumento de fulga. Neste momento, morri para mundo e para mim.
Mortos usam ternos e sapatos. Eu me despi, despedi e despedacei todos os meus traços de membro de uma sociedade. Um ser desfigurado, amorfo e habitante de uma realidade paralela e transversal. Isto, sou eu...

Depois de muito lutar contra minha natureza, decido dedicar integralmente meu tempo ao meu único real interesse. Oferecer a libertação aos que procuram o prazer como forma de transgredir o eu. Não é catecismo, apenas pura revelação através dos sentidos.

Mas como alguém na sombra pode encontrar suas vítimas?

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Aquele corpo manchado de tinta


Ela estava lá, escondida, num misto de sorriso e curiosidade, como uma criança que espera a outra, numa brincadeira boba, que na sua contagem ultrapassa várias vezes o finito infinito de números que conhece... Nuvens claras, que de leve deixavam escorrer a sua face em nós. Esta era sua barreira contra nossos corpos nus, que expostos a Lua, da janela daquele quarto, não transpunham apenas aquela fenestra, mas sim todos os umbrais do prazer. Não era o falo ou a fossa, muito menos o simples roçar dos corpos a violentar o próprio atrito, aquilo corrompia os sentidos como um acorde dissonante que não prepara e nem finaliza, simplesmente ecoa, resvala e esbarra numa parede de gritos. Suas marcas, tanto as crivadas quanto as qu'eu propunha, ficavam expostas, latejando no frescor de uma noite clara de verão. Aquele corpo manchado de tinta era todo pura oferta, enquanto sua boca metálica sorvia tudo de mim.