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domingo, 15 de março de 2009

Apenas água com gás


Mais um sábado como outro qualquer, onde sentado entorpeço os meus sentidos com sentimentos que não são meus, que busco nos discos e livros dos quais não participei, que consumo ferozmente para entupir a minha razão e as minhas vontades... Alguns procuram o álcool, outros tantos vícios baratos que deixam gostos e cheiros. Cada qual faz o que lhe apraz. Tirando alguns quilos de poeira que meus prazeres acumulam no decorrer dos dias, sou acometido por suaves crises de renite que me ocorrem na devida limpeza deles. A arte é meu ópio, que distorce a minha realidade e a recobre com uma leve bruma. Isto tudo acontece até o telefone tocar...
- Alô, quem fala?
- (Snif, snif, snif)... sou eu... (buá, buá, buá)...
- Eu, quem?
- Não reconhece mais a minha voz?
- Soluçando assim, fica até difícil de reconhecer se é gente ou não... Você me ligando? O que queres tu de mim?
- Preciso conversar... terminou... (buá, snif, snif, buá)
- E em que eu poderia ajudar nesta conversa? Tenho alguma culpa em cartório?
- Não, mas achei que você pudesse ajudar.
- Certo...
Sabia que a minha presença não seria boa. Uma vez, é amistoso. Duas vezes, suspeito. A terceira, não está sob a minha responsabilidade a conseqüência dos meus atos. Auto-Schadenfraude... eu sou o meu inimigo, por isto, devo rir da minha própria desgraça. É uma partida de sinuca que jogo com ambas as mãos. Direita contra esquerda, esquerda contra direita. Razão contra emoção. Ambos são perdedores, devido um terceiro oponente que não se põe a mesa, que corre violentamente pela tabela, sem que os demais percebam. Malditos Khronos, deus sem corpo, que sempre é desleal com aqueles que tem Morpheus por sobre os ombros.
Ela sempre foi feita de poucas palavras, mas o pouco de voz que lhe restava primava dor. Por isto talvez me procurou, um colo confortável e algum afago na sua cabeça destruída...
Mais um cigarro aceso, o olhar vazio buscando um sentido. Tristeza que eu respirava, como o nefasto cheiro podre que saia das minhas vísceras já a muito decompostas. Vontade de rolar no chão, com uma peruca barata, suspensórios frouxos e a minha cara mais lavada de palhaço pra arrancar dela o mais bobo sorriso. Sorriso de florzinha que dança.
Agora que todos já foram, posso me aproximar dela. Não que eu tivesse vergonha ou medo deles, apenas não queria que ficasse hostil com o meu toque. Sei que meu cheiro é capaz de deturpar qualquer vontade dela. Usei armas pra qual ela não tem defesa.
Não ocorrer o beijo seria um coito interrompido, que aliás não deixou de acontecer. Alguns beijos e já tínhamos certeza que era de sexo que precisávamos. Aquele selvagem e sem pudores que tanto repetíamos nas longas tardes de inverno.
- Tenho um presente pra ti... Acho que teu aniversário vai ser bem interessante pra nós dois ou talvez três...
- Entendo...
- Gosta da idéia?
- Só idéia ou vai acontecer?
- Se eu falei, é porque quero, oras!
- Bem, só acontecendo...
Ela me olha com desprezo e acende mais um cigarro. Vira e contempla a lagoa iluminada por luzes artificiais que pouco lhe imprimiam brilho.
Um caminho longo de poucas palavras e muita cobiça pelo corpo que tanto conhecia. Sem muitas delongas puxei seu corpo junto ao meu. Fiz ela sentir toda volúpia sufocada que minha bermuda rota conseguia agüentar. Minhas mãos ávidas cobriram o seu corpo como se fossem maior que todo o meu ser. Dois beijos na nuca e seu sexo pingava tesão...
- Acha que é assim? Vou ter que limpar muito bem tua boca com o meu sexo. Até o fundo da tua garganta.
- ...
Duas voltas era a medida exata que seus cabelos tinham na minha mão. Com um movimento brusco arrastei sua cabeça até meu membro rijo e o bati algumas vezes na sua tez até as bochechas enrubescerem. Ela mostrava os caninos como uma cadela, oferecendo resistência a coleira que tantas vezes usara para opressão/proteção.
Com um tapa na cara, ordenei que olhasse pra mim. Ela sugava voraz todo ele, até recostar sua testa no meu púbis. Sendo muito obediente, tendo colocado por completo na sua boca macia todo aquele membro entumecido, achei que merecia que minha língua no seu sexo já a muito embriagado.
Peguei ela nos meus braços e a coloquei por sobre a cama na devida posição que minha boca penetrasse suas entranhas. Onde meu fálico nariz sentia todo o cheiro de seus prazeres. Olhos lânguidos, lábio inferior torcido pela própria mordida e movimentos convulsivos no seu alvo abdômen denunciavam seu prazer transfigurador. Ela já não abraçava mais um mortal, era Eros que roubava seus sentidos e transformava em gemidos cada vez mais sincopados.
- Domino o teu corpo, como se fosse um pedaço do meu. Minha vontade é soberana nos teus quereres.
- Te enganas se pensas isto...
Frase que expulsou toda minha gana. Tentei disfarçar, mas meu termômetro de volúpia não mente tão bem toda hora. Mas vendo que seu dito devastara minha libido, tratou de mexer com meu ego.
- Já de pinto mole. Você já foi melhor...
Ela não devia ter me provocado. Peguei suas mãos com muita determinação e lhe olhei nos olhos...
- Você vai querer não ter dito isto daqui a alguns minutos...
Como uma puta, rompi todos os meus pudores e usei um golpe baixo que deixaria ela implorando por uma penetração forte e profunda. Minha língua correu a sua perna e quando chegou no pé ela já se contorcia e reivindicava a penetração imediata. O torpor era puro afrodisíaco.
Sem muita cerimônia dei a primeira estocada firme e sem lubrificação. Cortante e profunda. Num ritmo já muito acelerado, não demorou muito a transpirar tudo o que podia.
- Que pau desgraçado tu tens...
- Mas você sabe muito bem fazer ele sorrir e até chorar...
- Cala a boca e me faz gozar bem rápido! Depois quero coma bem direitinho o meu cu. Me arromba do jeito que tu sabes...
- Sei é? Mas eu era virgem até pouco. Você mangou de mim. Fui obrigado a defender minha masculinidade.
- Sei... Eu também sou o Bozo.
O ritmo crescia. Os corpos inundados de suor e fluidos se chocavam cada vez mais forte.
- Fica de quatro... Quero tua bunda agora!
- Mas põe devagar...
- Ela tá meia hora piscando pra mim, acha que vai ter devagar?
- Olha o que você vai... Já foi?
- Já tá dentro... Fica bem quietinha. Vou arrancar prazer daqui como você nunca viu...
Cada vez mais forte e mais forte, seus berros aumentavam com o compasso que se impunha.
- Mais forte! Mais...
E ela uivava de prazer na sodomia. Seu gozo veio forte e a frase arrebatadora da noite.
- Não é toda puta que dá o cu assim... Acho que deveria cobrar...
- Eu como bom cafetão, quero parte dos lucros. E não vou aceitar o pagamento em sexo... Não gosto de misturar este tipo de coisa. Onde se ganha o pão, não se come a carne...
- Puff... nem te preocupa, virei vegetariana...
- Então quer dizer que não vai tomar o meu jorro quente?
- Pois é... não sei, não tinha pensado sobre esta questão.
- Abra a boca, que eu vou pensar sobre estas questões enquanto gozo.
Ela abriu a boca e estendeu a língua esperando a seiva da minha libido. Com jatos quentes, cobri ela muito rápido de um líquido viscoso, que ela prontamente classificou como...
- Doce...
- Talvez chocolate... Como tem um fundo de origem vegetal você não precisa se preocupar se deixa de ser vegetariana ou não...
- Que vegetal o quê... Tu é um safado, isto sim...
- Nunca disse o contrário.
- Mas bem que gosto.
- Nada, apenas trocamos favores. Eu te devo muita coisa.
Ela acendeu mais um cigarro quando ele ainda tinha espasmos do orgasmo.
A situação do pós-sexo sempre requer muita intimidade. Coisa que não faltava, porém carinhoso ou apenas amistoso? Que sentimentos ele podia demonstrar? O avesso do avesso a muito deixou de ser o próprio, mas, o fazer com aquelas coisas que tranquei numa caixa e não queria deixar sair? Fui invadido por um turbilhão de perguntas, mas uma certeza eu tinha. Ela espanta a minha solidão... Maldito cheiro que fica na mão e custa a sair. Não é fácil achar os cabelos dela grudados nos mais variados lugares do meu corpo. O difícil mesmo é esconder o meu sorriso de satisfação...
Odeio estar sem controle!!!

5 comentários:

Lets de Assis disse...

Adoraria que fosse apenas uma fábula muito bem escrita! Porém, Vive la fête!

Xabarás disse...

Sujo e desnecessário. Não sei por que ainda vou atrás de ti.

Fernanda Schimanski disse...

Tu escreves de uma forma que até a pessoa mais pura e casta sente curiosidade em provar. Coisa de expert.

Marcelo Augusto disse...

gostei da forma como fala do teu vício e o conto é todo empolgante. Very good!

Katy disse...

O cheiro... sempre traz a tona as lembranças...
Conto lindo e muito bem escrito. Parabéns!