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sábado, 12 de dezembro de 2009

Conto de partida


Amanhace, mas sempre entardeço. Simplesmente vejo cair o dia na pequena janela de um motel qualquer, sentada na privada. O grande prazer do gelado da privada. Talvez conheça todos os quartos, ou perto disto. O ofício de conhecer as pessoas nuas é o meu.
Quem diria qu'eu, que tanto acreditei no amor, me deixasse marcar desta forma pelos prazeres da carne. Moça de família, perdi a virgindade tarde com meu primeiro namorado. Foi uma história bonita de se ver, me pediu em namoro antes de qualquer coisa. Romântico... meu primeiro e único talvez amor. O mundo girou, e entre idas e vindas, quase 5 anos de histórias e gemidos, não amava mais ele. Tinha admiração, carinho, era um bom amigo, apesar de seus ataques de ciúme calado, mas no final, era só prazer. Ali comecei a me vender. O maldito foi meu primeiro cafetão/cliente, e me vendia barato. Cigarros, acredite, era isto que ele me oferecia por um boquete numa rua escura. Ele gostava de lugares altos. Até hoje não entendo o porquê. Tudo bem, merecia um bom desconto dos meus "serviços", afinal, ele apresentou o tal Eros (e talvez Tanatos) numa cama de solteiro, cercada de paredes cobertas de livros. Lembro do gosto salgado do pranto dele, numa última (quase) despedida muitos anos atrás, antes de cair na vida, ou antes dela cair de mim.
Fui embora, precisava sair de casa. Minha mãe castrava qualquer possibilidade d'eu sair de casa que não fosse casada. A maldita igreja, mas no fundo, tinha pena dela. Tranquei a faculdade, juntei uns trocados (alguns já aprendi a ganhar com o corpo... mas vender o corpo onde se tem conhecidos demais é complicado). Me joguei para o extremo sul. Fui para os Pampas.
Como minha vida ficou complicada. Não virei garota de esquina, mas mesmo assim, aguentava diversos problemas com clientes. Estava de mal comigo, não amava mais, não me amava mais. Com um ano de labuta, comecei a usar cocaína... A maravilha branca, que combinava muito bem com a minha pele. Quase cadavérica, gostava apenas do turno da noite. Como sexo com estranhos fica bom com cocaína.
Não servia para feia, mas logo comecei a mudar o meu visual. Me tornei agressiva, mulher forte, que sempre quis. Aprendi a ser gananciosa. Comecei a ser seletiva com os clientes. Havia esquecido quem eu era, que um dia sonhava em casar e até ter filhos. Arthur, com certeza seria o nome do meu primeiro filho.
Tinha aprendido novas dimensões de prazer. Agenda cheia, uma certa fidelidade de alguns clientes inclusive. Como é estranho o laço que alguns criam por um pouco de prazer. Para mim, apenas rotina.
Não estava rica, mas conseguia me manter e sobrava algum. Logo, consegui comprar um apartamento pequeno, o que facilitou um bocado o meu serviço. Arranjei a minha tão sonhada companheira, Ágata, uma gata toda preta e bem arisca, um bom contraste para minha doçura alva. Estava orgulhosa de mim. Da minha coragem em sair do berço, ir para um lugar estranho e conquistar o meu espaço, mesmo que este espaço fosse as minhas entranhas, o meu "eu" que era conquistado.
Em alguns momentos, durante os anos que pareciam uma noite contínua, pensei em mudar de vida. Voltar a estudar. Não havia perdido o hábito da leitura, uma das poucas coisas que um dia cheguei a ensinar  a alguém. Mas minha vida era estável, tinha o que queria. Viajava, me vestia bem, comia bem. Dei muita sorte apenas dando tão pouco (ou quem sabe muito).
Um belo dia, um eco do passado. Vejam como a vida é estranha e singular. Uma feira de livros, alguns autores, autógrafos e livros em promoção, o de sempre. Caminhando por entre a multidão, vejo um rosto, quase um fantasma, careca pelo antigo anúncio da cálvice. Está mais magro, até relativamente corado o moço, agora já quase senhor, está. Deve ter virado pescador, como sempre falava dentro das suas possíveis realizações. Está sentado, muitas pessoas ao redor dele. Ironia ou determinação, o infeliz virou de fato escritor.
Me reconheceu no ato. Tímida (ou fingindo trejeito), me aproximo entre tantas outras. Prontamente me estende um livro seu, e uma dedicatória praticamente sem palavras. Escreveu apenas seu celular. Pensei em deixar o livro numa das pilhas, para que talvez umas tantas que o rodeavam pegasse. Mas, fiquei com o livro por pura curiosidade.
O desgraçado melhorou muito a escrita. Dizer que um dia fui tema dos seus pequenos poemas... Resolvi ligar para convidar para um café, perguntar como ia a vida, 16 anos em absoluto silêncio, ele que era pura verborragia. Aquele puto me amava. Pena que me amou quando não o amava mais. Podíamos ter sido felizes. Se não felizes, ao menos a vida teria sido bem diferente. Talvez estivesse gorda, varizenta, e sem nenhum viço. Com toda certeza, não seria metade da mulher que sou. Também, se ele continuar cozinhando tão bem quanto antigamente, nunca iria ter o manequim 38. Na terceira tentativa de pedido de casamento, desistiu de mim. Não queria usar ele de muleta para minha saída de casa.
Ligo 2 dias depois da feira. Antes, terminei o livro para poder ter assunto. Não pretendo começar a conversa dizendo que me prostituo 4 dias na semana e que faço isto desde que me mudei. Talvez o coração dele, tolo como é, não aguente o choque. Não quero que nosso encontro vire notícia nos jornais, e muito menos virar a prostituta que pousa para Playboy depois de ter matado um escritor em ascensão.
Ele não está mais na cidade. Estava apenas de passagem na feira. Fico com saudades dele. Descido então ir visitar ele. Casado, 2 filhos, gato, cachorro e mora num sítio perto da região metropolitana. Aquele corno trocou a mulher, mas os desejos continuam os mesmos.
Parece incomodado com a minha visita. Decido ir mais cedo embora. Não falo praticamente nada da minha vida. Falamos apenas de coisas impessoais. Livros, filmes, música e culinária. Propus que a próxima vez que fosse a minha cidade, que ficasse hospedado na minha casa. Ficou lisonjeado com o convite, mas viu as segundas intenções do mesmo, e disse que um homem casado não fica na casa de outra mulher que não a dele. Bem o tipo de papinho dele que nunca acreditei. Quantas vezes fizemos pequenas orgias, sendo namorados ou não... Mas, deixa estar.
Alguns meses depois, meu telefone toca. Avisa que está na cidade. Limpo toda a minha agenda de clientes. Marco uma dose extra de salão. Vou estar poderosa e irresistível. Aquele puto me paga. Jurou numa noite de Lua Cheia, que seríamos eternos amantes. Palavra de rei não volta atrás...
Uma adolescente, era isto que parecia. Frio na barriga e todos os outros sintomas tolos da paixão juvenil. Ele parecia feliz, falava do filho que tinha pulado duas séries e que a mais nova já estava lendo com 4 anos. E por puro infortúnio, a pequena se chama Clara.
É a deixa: "Clara é o meu nome de guerra". Ele entende muito bem o que eu falo, ele usava a expressão "nome de guerra". Fica pasmo. Abre o paletó, retira do bolso interno algum comprimido sublingual. A testa suando horrores. Fiquei realmente assustada como ele reagiu. Então, do nada, olha para mim e pergunta:
- Nunca paguei uma prostituta, mas vou lhe ajudar no ofício. Por quanto lhe tenho a noite toda?
Jogo o preço lá em cima. Já que aguentou o primeiro susto, não vai empacotar agora se inflacionar um pouco os meus serviços. Ele puxa o celular, pede o número da minha conta. Ninguém mais anda com tanto dinheiro na carteira. Recebo o aviso imediatamente que foi debitado o valor na minha conta.
Percebo então o nervosismo dele. Será que aprendeu a ser fiel? Talvez ame a sua vida como está, ame a sua mulher. Os filhos, com toda certeza, ele ama mais do que tudo. Sempre teve vocação para isto. Sinto inveja da vida dele, não de uma vida com ele.
Chegamos no motel que indico. Faço questão de pedir uma das melhores suítes. Gracejo comunicando que é meu hóspede. Ele senta na beira da cama, puxa o cachimbo e acende um fumo cheiroso com um fundo de canela. Lembro de como ele tem cheiro de canela. Vou tirando os sapatos dele, fazendo uma massagem nos seus pés. Então, ele de forma ríspida comunica: "Apenas teremos o sono. Não quero mais sexo com você..."
Caí seca sentada no chão, olhando totalmente atônita para ele. Eu era naquele momento muito mais sexy e mulher do que qualquer rabisco que imaginou nos seus mais devassos devaneios. De certo modo, era fruto da imaginação pervertida dele. Como podia então se negar o prazer?
Lendo a minha indagação no olhar, fala num rápido lampejo: "Só é desejo aquilo que não se pode realizar. Quero apenas dormir, e nada mais...". Aquilo cortou fundo, como nunca ia imaginar. Mas, ele era o cliente, e escolhia a posição que queria no sexo.
Despida totalmente, tentei, ainda que em vão, oferecer o meu corpo. Ele, respeitoso, ficou de samba-canção, me ofereceu as costas e baixou totalmente as luzes. Como último suspiro, tentei bolinar sua bunda. Levei um tapa na mão.
Ele dormia. Eu corria seu corpo sentindo o seu cheiro. Aos poucos, consegui abraçar o seu peito e sentir seu cheiro de homem de meia idade. Aquilo balançou as minhas convicções de independência, de liberdade e solidão. No seu sono pesado, não reparou (ou não quis reparar), o quanto esfregava muito corpo no dele. Talvez tentando roubar aquele cheiro para mim, que tanto me trouxe esperança num passado quase esquecido. Perdi a noção do tempo e a noite virou dia.
Ele acorda, finjo o sono. Ele pede café para dois. Ainda lembra de como pedir o meu. Aviso que vou para o banho. Ele prepara mais uma sessão-cachimbo-cheiroso. Vejo a mesma janela que olhei tantas vezes depois do coito. Hoje, sem coito, me sinto oca por dentro. Oca de mim, oca de sentido e oca de existência. Vejo uma navalha. Não sei como, em tempos tão modernos, ainda se tenha este tipo de objeto num motel tão luxuoso. Olho a banheira, e pronto me vem cena. Navalha no pulso, banheira cheia e secador de cabelo ligado na banheira. Morte certa, e a energia do quarteirão indo embora. Mas é bom deixar um bilhete. Na falta de lápis ou caneta, vou escrever com sangue na parede.

Dô,

Por favor, cuide da minha gata. O nome dela é Ágata.
Sempre te amei.

No meu último adeus, assino:

Clara

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Baudeleriando



Uma vez, perguntou-se, em minha presença, em que consistia o maior prazer do amor. Alguém naturalmente respondeu: "em receber". E um outro: "em dar-se". Um outro ainda: "prazer de orgulho". E mais outro: "volúpia de humildade". Houve, por fim, um descarado utopista que afirmou que o maior prazer do amor era o de formar cidadãos para a pátria.
Quanto a mim, digo: a volúpia única e suprema do amor está na certeza de fazer o mal. E o homem e a mulher sabem, desde o nascimento, que no mal se encontra toda a volúpia.

Charles Baudelaire, em "Meu coração desnudado"

Ser'anjo ou Ser'afim




Tipificar o dorso
como(um)bebo adoçar o café
(Ex)Cuspido d(e)o amargo 
Rouco/Rocco a de(em)florar

Grisalhas ameixas a(Há) (im)(EM)pulsar
Cús(pide) de a(ce)(sse)nto
Será (que) canto (a)tônico
A lemniscata nasce do beijo negro

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Loucura ou sonho




"Tudo é loucura ou sonho no começo. Nada do que o homem fez no mundo teve início de outra maneira, mas já tantos sonhos se realizaram que não temos o direito de duvidar de nenhum."

Monteiro Lobato

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Tangerine Juice

Amy Winehouse berrou perto das 5:21h "No, no, no...". Breve interlúdio entre o som claro e o silêncio opaco que habita o quarto. Domingo de sol, corpos por acordar. O caminho que volta de todos os lugares é o norte que fica dentro de mim. Não consigo esconder o fundo da minha expressão (bundas de âmago), meus sentimentos são expostos como velhos prisioneiros de guerra, que cansados da batalha se tornam gordos e obtusos. O que importa é roubar sorrisos...

Não é nada simples ver o frio nos olhos, gestos curtos e beijos tortos numa familiar desconhecida.

O ambiente em madeira é a melhor opção para o eco das pausas no diálogo.

- Por favor, tem suco de tangerina?
...
- Uma tortinha de banana também. E você, o que quer?
- Espresso e pão de queijo.
- Os clássicos não morrem.
- ...

%Sobe o balão de pensamento no meu diálogo (então que queres tu de mim/ se até o pranto que chorei/ se foi por ti, não sei)

Movimentos lentos até a mesa. Cruzo as pernas para facilitar o movimento do tronco na sua direção.

- Tem gelo para o suco?
...

E neste exato momento, com a luz apropriada, reparo que a felicidade se faz com pequenos gestos irrisórios. Não lembro de onde, mas uma tricotomia me cai da mente:

"Ou a ignorância, ou a tristeza ou a inteligência" (todos exclusivos ou's)

...

Paro o carro na sombra. Sentamos numa calçada que está cansada de me ver passar. Meu bigode revolto, canto sujo de sorvete de chocolate. Da brasa do teu cigarro ofegante leio o passado/futuro que esquece o agora.   

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Trança vermelha




felação
(latim *fellatio, -onis, ação de chupar, de fello, -are, chupar)
s. f.
Prática sexual que consiste em estimular o pênis com a boca ou com a língua.

Gosto de pessoas de atitude, sempre gostei. E muito mais de mulheres fortes, dominantes e com opinião. Mania de brigar, bater de frente e argumentar. Minha natureza, sempre. Apesar de ter experimentado a voz do silêncio e da passividade, e ver que isto me traz paz, quero a guerra e o desafio. Chega de bonança, quero o cheiro da tempestade.

Conhecer pessoas novas é a melhor maneira de saber o cheiro da chuva. Principalmente quando se viaja alguns quilômetros pela BR-101. Algumas palavras trocadas, outro tanto de flertes. Pronto, desejo de curiosidade. O que ela tem? Não, ela não daria bola para mim com uma pessoa com dentes tão bonitos ao lado dela. O anúncio inicial era outro. Ela visivelmente está com medo, e eu estupefato com a beleza dela. Meus olhos gritam o desejo (vide fotos em anexo) que tenho de possuir seu corpo, beber o seu cheiro e romper o espaço vazio entre nossos corpos.

Planejar as situações não funciona bem. Sou melhor com improviso. No fundo, por bem, deu errado o planejado e certo o que não se esperava. Por mais que o google-maps seja fantástico, o meu carro ainda não tem GPS. Perdido, encontrado, te achei no final. E você não sabia o caminho do motel, perdida!

Confesso que estava bem nervoso. Um corpo novo sempre me deixa assustado, por mais que seja despudorado. É o código natural, o sentir o outro. Demora um certo tempo. Mas a trança vermelha me deixou de pernas bambas. Teu cheiro já havia sentido naquele abraço quente do primeiro encontro. Ganhou metade de mim quando fez carinho na minha cabeça, bem na parte de pouco cabelo. Jogou baixo.

Estranhei bastante que apesar da minha "fome", os teus "shiiii" me calavam. É importante saber se entregar. Não esperava tanto carinho numa noite de prazer. Você gozou, eu também (e eu não contribui para isto), apesar da "ite" e todo o resto.

Não foram palavras quentes e cheias de volúpia, mas é a maneira como consigo expressar o que senti naquela noite. Não sei se teremos momentos como aquele, mas a vontade é de muitos outros. Pode ter sido a primeira de muitas noites de prazer, ou um simples devaneio de loucos com tesão. Porém, pode preparar as panelas que em breve deve sair o macarrão.

domingo, 4 de outubro de 2009

Triste prelúdio da Balada de uma morte anunciada


O excesso tolo da língua é a palavra-com-significado. O grito, mesmo calado, extrapola qualquer palavra. É o apenas "não-dizer" para ser escutado. O fingipoeta cospe o verbo como catarro, comer catarro para para entupir meus sentimentos-que-doem. Quem precisa de dor para doer o vazio? As pausas sempre parecem maiores do que os gemidos. In-rito de passagem qualquer coisa parece muito. É a fome de atenção, onde todos pegam na alça do seu berço, dois escuros, um amarelo e um pornô. Guilhotina em cada fio de pensamento-desejo. A velha bengala se apoia no velho-mais-gasto. Engasga, e tropeça numa dimensão de log(3)/log(2). Balões, preferia, quase-sempre, estourar. Compasso de res-piração. Vírgula, na, virilha. Não pretendo me entender, quero apenas pós-sentir-pré.

domingo, 30 de agosto de 2009

Cabelos furta-cor



Um vulto, é apenas isto que denuncia o pequeno facho de luz que foge do canto da sala . Cheiro de alguma essência doce, talvez um perfume. Não sei como, mas me encontro amarrado, amordaçado e sem a mínima noção de TEMPO. Acabo de acordar, e apenas aquele vulto a me observar. Devia estar com medo, estou praticamente nu, estirado numa cama que pouco parece servir ao sono, diversos objetos estranhos que parecem causar dor.
O vulto agora percorre a sala na minha direção. Parece a silhueta de uma mulher. Bunda empinada e seios abundantes por baixo da capa que esconde praticamente todo seu corpo. Uma capa negra que caminha, com algum coisa que tem salto, que tilinta no chão que parece brilhar mesmo com tão pouca luz.
Agora consigo perceber uma máscara. Um gato do tipo "vaquinha", misto de branco e preto. Algo inusitado para quem veste uma capa como aquela. Ela exibe sua mão, muito branca. Nela, um enorme acendedor. Percebo o chão cheio de velas, que ela começa acender vagarosamente. Tento acompanhar com o olhar, mas meus movimentos não ultrapassam o simples caminhar dos olhos. Começo a ficar preocupado, seu sorriso é misto de maldade e travessura.
Totalmente indefeso, começo a tentar emitir balidos curtos com aquela maldita ballgag. Quando ela rompe o silêncio: "Calado, tolo!". Vi toda sua fúria comprimida em dois olhos negros, cravados de crueldade. Vi e admiti que qualquer resistência seria inútil.
Porém, tarde, o primeiro golpe é dado. Cera quente no mamilo despreparado. A risada sádica e o meu grito abafado. E o pior de tudo, ela era menor e mais fraca do que eu. Com um braço lhe botava de quatro e lhe ensinava o que era bom. Mas, estava castrado simbolicamente. De nada adiantava a minha virilidade ou mãos grandes, era dela a vez e a vontade. Me perguntei, enquanto o mamilo parava de latejar, como ela conseguira me amarrar daquela maneira. Aqueles olhos e aquela boca não me eram estranhos. Será alguma ex-namorada rompendo a vingança por todas as mulheres que sentiram o peso do meu corpo? Não consegui concluir nada, pois agora, ela roubava minha atenção. Uma mão suave, com unhas negras e longas tocavam o meu membro. Traidor, ele rompe um sorriso ereto na boca dela. Bastardo, reconheceu aquela boca, e eu, não faço a mínima idéia de quem seja.
- Vou falar de uma maneira clara e objetiva. Vou soltar as tuas pernas, você não vai resistir. Quero que fique de quatro. Acredite, eu posso ser muito malvada. Não queira sentir a minha fúria.
Frases claras e objetivas, fato! Mas quem disse que não iria ser sorrateiro. Soltou as cordas que prendiam as minhas pernas abertas a mais de noventa graus na cama. Não fui precipitado, mas quando sua guarda baixa, tentei aplicar uma chave de pernas envolta em seu dorso. Pura estupidez. Na mesma hora, aquela mão pequena, segurou o meu escroto e torceu... Dor aguda e lancinante. A fúria foi libertada. Imobilizado com apenas uma mão, como uma ovelha, simplesmente obedeço.
Ela xinga, me chuta e faz duras ameaças. Agora sim, devo ficar com medo. Não existe herói para alguém amarrado e amordaçado numa cama.
Ela tira a capa. Preferia que não a tivesse feito. Sua LIBIDO parece preencher todo o ambiente agora. Exibe um membro postiço, vermelho e translúcido, que tem contraste direto com sua lingerie negra na sua pele alvíssima. Me coloca de quatro. Abre minhas pernas. Um beijo grego que rompe o meu âmago. Tudo muito úmido.
Ela projeta o corpo na direção do meu. O pseudo-membro é a lança que quer matar o dragão. Sem escudos, apenas a entrega. LASCíVIA crua em algo tão artificial. Com o rosto colado no lençol áspero, meus gemidos entre a dor e a humilhação eram calados por uma lamúria, quase um mantra, que a boca dela não parava de agonizar.
Após aquele longo e contínuo movimento pendular, punge o seu próximo agouro.
- Agora, vou fazer você gozar como nunca fez antes.
Com alguns dedos dentro de mim e outros a massagear meu escroto, não demorou que meu traidor rompesse a chorar o seu pranto. Recolheu toda a sua seiva numa pequena taça. Não, ela não vai fazer o que estou pensando...
- Agora, vou tirar tua mordaça. Quero que abra a boca, beba tudo e agradeça.
...
- Obrigado.

P.s.: Adoro fazer suspense, pequena Nina

sábado, 29 de agosto de 2009

As bonecas são felizes enquanto a multidão passa...



...

Todo dia eu mato uma pessoa
Porém, a cada dia novo ela ressurge
Como se de nada tivesse valido
Aquela morte produzida

Abdicar-se é morrer em si mesmo
Mas quando estas mortes não serão mais em vão?
Começo a desconfiar que talvez sentimentos
Sejam apenas fraquezas humanas

Sou muito fraco, pois ainda choro
Talvez eu devesse arrancar meus olhos
Para que lágrimas não saíssem mais deles
Talvez cego enxergasse melhor o mundo

Fico no escuro, pois sou um ser nefasto...

18/04/1984

domingo, 16 de agosto de 2009

Rosa branca


Engraçado como descubro que estou tão distante das pessoas. Posso estar cercado por uma multidão a dançar, diversão simples e barata, prazeres pequenos. Música, bebida, comida e muita dança. Uma festa, como tantas outras que haviam em qualquer lugar. Nada tinha apelo aos meus sentidos. Precisava de um cigarro para me acalmar. Aquela alegria gratuita me deixava realmente irritado, e principalmente, por não partilhar dela. Era simples, seguir algumas quadras. A noite estava agradável, o barulho do mar acompanhava os meus passos. Poderia simplesmente caminhar, indefinidamente, bastava o cheiro fresco da noite junto ao das ondas a quebrar. Mas logo cheguei ao meu destino. Um maço e um isqueiro, por favor. Abri a embalagem com todo esmero permitido para aquele momento. Retiro o primeiro cigarro, apenas sinto o cheiro dele. Alguns segundos próximo a narina para imaginar o gosto. O fogo e logo em seguida, a brasa. Assim caminho na direção contrária, admirando as cores sujas noturnas. Sou um animal peçonhento, em que a baixa luz, alimenta o meu espírito. Começo a caça solitária...

Logo lembro que tenho uma dívida, muito grande pra ser esquecida. Em algum dezembro distante sentei na beira do mar. Conversei, chorei e lhe pedi que trouxesse um amor pra mim. Que meu coração gelado estava cansado de não bater, de não sentir paixão. Alguém me escutou, fui feliz, mas do mar, me escondi. Fiquei com medo que o feitiço pudesse ser quebrado, que vendo minha felicidade, tiraria ela, ou já que tinha me dado o que pedi, também pediria alguma coisa de mim. Muitas e muitas vezes, tive medo do mar. Pensava em ir, mas faltava coragem. Sempre arranjava motivo qualquer para longe ficar. O que eu, tão pequeno, diante da grandeza do mar, poderia oferecer?

No caminho, apesar de não ser primavera, uma rosa branca pendia de um jardim triste e mal cuidado. Pedi licença a quem estivesse ali e roubei a flor. Uma linda rosa branca aberta. Perdi algumas gotas de sangue nos espinhos, mas a dor é pequena e nem encomoda. Guardei o cigarro, entrei numa rua que dava na praia. Tirei tênis e meias. Pisei firme na areia e disse odoiá!, minha mãe. Cheguei leve junto as águas, pedi desculpas pela demora, que apesar de guerreiro, tinha medo de perder minha alegria. As águas novamente lavaram meus pés, mas desta vez, como carinho de mãe. Ali me senti protegido e revigorado. Beijei a rosa e deitei ela numa onda mansa que chegou em mim. Molhei as mãos e lavei meu rosto na mesma. Sentei na beira da praia e admirei a sua grandeza. Pedi licença, calcei novamente meias e tênis e voltei para a festa junto do povo de aruanda.

O mar agora quebrava diferente nos meus ouvidos. Era um canto de paz, que a muito não conseguia escutar. Tinha um peso nas costas, porque queria ser feliz, mas não buscava a felicidade. Aprendi que devo cuidar do que peço e do que quero. Nem sempre o querer é o realmente precisar. Meu peso, minha culpa...

Quanto voltei pra festa, acendi mais um cigarro e alguém do povo disse que eu estava mais magro e "fromoso". Será?

...

Sábado, 15 de agosto de 2009. Ambos os dias, dias de Iemanjá.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Prudência


Numa paisagem em diversos tons de cinza, num caminho que não conheço, rostos construídos em série. Mesmo assim, não era um alienígena qualquer, exibia um sorriso confiante e roupas que denunciavam o meu motivo "exótico". Num território em que tinha poucas referências, cada observação era por demais valiosa. Pelos menos, era a mesma língua. Será que também liam Borges, Kafka e Saramago? Não importa. Se os índios americanos sobreviveram algumas centenas de anos ao contato hostil dos europeus, eu consigo terminar o final de semana inteiro. A missão é fácil. Alguns ingredientes pra fazer um strogonoff, entrar no carro e voltar ao apartamento. Nada pode dar errado. Simples.

Tomates, alho, cebolinha verde e alguns condimentos variados. O tempero tem que ser suave. Tudo devidamente escolhido. Produtos no carrinho e em direção ao caixa.

Fila é produto intermunicipal. Mas nem tudo é padrão. Caixa sem balança. Voltando a verduraria. Tomates e alho em mãos. Primeiro o tomate...

Nisto, ela percorre os olhos além dos tomates. Mira meus olhos e recua. Usa o que está disposto e diz:

- Engraçado este teu colar. Parecem... pequenos brigadeiros.
Já ouvi este comentário e nem são tão parecidos assim. Mas fiquei rubro com a lembrança e retruquei:

- Não faz muito e ouvi isto bem longe daqui. Nem acho que pareçam tanto assim. Mas, se duas pessoas tão distantes falam a mesma coisa, deve haver algo parecido mesmo.

Uma pequena risada, e ela mostra o anel na mão esquerda, uma aliança. Voluptuosa, morena alta, seios fartos e maior do que eu. Adoro este tipo de mulher decidida. De nada me incomodava aquele pequeno detalhe, sabia que papo do colar era apenas uma brecha. Fui agressivo e incisivo. Não teria nada a perder.

- Sei que o comentário sobre o colar foi apenas pra ter como abrir assunto. Não me importo que você seja casada. Que horas você sai do trabalho?

- Quem acha que sou? Como ousa fazer uma proposta dessas?

- Sou ninguém. Uma aventura, que você quer experimentar e achou que conseguiria esconder com este olhar me devorando...

Deixei ela rubra. Empate. A fila da verdureira aumentava e dei o ultimato.

- Que horas?

- Daqui uma hora estou no estacionamento dos fundos do supermercado. Esteja lá, mas já aviso, vamos num motel, nada de fazer sexo no carro ou em outro lugar.

Não esperava isto num supermercado, ainda mais num sábado, no começo da tarde e numa cidade estranha. Paguei para ver.

Antes da uma hora, já estava aguardando ela no dito estacionamento. Ela veio caminhando, rebolando muito, exibindo as formas. Lábios vermelhos denunciavam a intenção.

Abriu a porta e avançou com gana na minha boca. Mordia e rosnava como uma gata no cio. Ofegante disse:

- Três quadras a esquerda, Motel Mirage.

Nisto, já abria minha calça e sugava fundo. Não teve o menor pudor e chupava como se não estivessemos no trânsito de uma cidade média de final de tarde. Muitas pessoas fazendo compras e nós entrando no motel.

- Tenho quanto tempo contigo hoje?

- Meu marido só volta depois das 3 da manhã. Pode me usar até não querer mais.

- Gostei da idéia "usar".

Mal estacionei na garagem da suite, já estendi seu corpo por sobre o motor do carro. Queria a bunda dela quente. E não tive receio nenhum em dizer:

- Quero de quatro comer teu cu.

- Teu desejo é uma ordem...

Com todo o desejo que meu membro suportava, uma simples salivada dela serviu como lubrificante suficiente para uma penetração suave, porém firme. As pernas dela tremiam. Coxas fartas, de descendência italiana. Falava com as mãos. Gemia com as mãos. Cabelos escuros e grossos, pele cor de leite.

- Gosto de xingamentos. De piranha pra cima e nada de palavras como "papaizinho"...

- Eu já gosto de malvadezas. Adoraria dar uns tapas nestas carnes brancas. Mas minha mão pequena sempre deixa marcas profundas.

- Adoro profundas. Bate e com vontade. Meu marido é um palerma que gosta de sexo com luz apagada, isto quando fazemos. Descarrega tua gana em mim, como falei, me usa.

Tirei a cinta da calça já a muito longe. Ótimo instrumento de deixar marcas. Profundas, quase cortantes.

Seus gemidos criptavam meus ouvidos, transpondo aquele sentido. Via seu prazer, cheirava sua cor rosácea.

- Não aguento mais, goza, mas quero na minha boca pra sentir todo o teu gosto.

- Gosto da tua ousadia.

- Não quero ficar com vontade fazer nada. Já que me ganhou, a ti me dou inteira.
Mais do que um jato, um jorro da minha seiva percorreu seu rosto. Boca, olhos, tudo salpicado de visco.

- Faz alguns anos que não tenho um sexo de qualidade. Acabei casando por comodidade e conforto. Esqueci dos meus prazeres. Ele é um bom companheiro e vai ser um ótimo pai. Pena que não sabe me comer direito. Não penses que sou uma puta, que dou pro primeiro estranho que sorri pra mim. Gostei das tuas mãos. Lembrei de alguém muito importante pra mim e que deixei numa escolha errada. Usava colares diferentes como o teu. Por isto te fiz o comentário. Mas você ganhou o que queria ter dado a ele novamente.

- Não te sinta culpada ou suja. Somos isto, um bocado de escolhas, muitas conscientemente contrárias as nossas vontades, mas comodas. Sempre o conforto e comodidade. Isto é o dinheiro, a família, a profissão segura, uma sociedade castrada e repreendida sexualmente. Triste, mas a realidade.

- Como posso te ver novamente? Gostei da tua sinceridade e muito mais do que isto, do teu sexo. A gente pode ir longe com isto...

- Moro a algumas horas daqui. Sozinho. Te ofereço pouso e adestramento durante uma semana, se assim quiseres.

- Adestramento?

- Se queres saber o que é isto, me procure. Aqui está o meu cartão com meu telefone e endereço. Não vou dizer o meu nome verdadeiro, mas no cartão está Zepol. Assim me chame.

Calada, sem entender muita coisa, pousou em meus braços um sono merecido de mulher realizada.

A ela chamo de Métis

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Culpa do cheiro de baunilha

Cão na guia, não é o Husky que um dia tive, mas é babão e bobão como tal. Dia lindo de sol, inverno cheiroso. A Lagoa dá a sua graça, cada vez mais próxima, mas este canto dela, não conheço. Um cantinho que nunca acharia se não estivesse passeando com o cachorro que não é meu. Agora entendo o porquê de tantos pelos. Cão solto, guia na mão, e mais uma vez ela fala de amores que não o meu. É duro ser o fiel de tantos sentimentos que não os meus. Isto é ser amigo, saber ler no outro sem palavras, porque estas gaiolas são, não dizem o que queremos e muito menos o que devemos ouvir. A comunicação é isto, algo qu'é inútil. Os cães é que são felizes correndo, sem ter medos ou travas, sem ter problemas com a lama ou a água fria, simplesmente correm. Mesmo sem saber pra onde, correm.


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Até atos que abomino, podem ser divertidos na presença dela. Uma blusa bem cinturada lhe cai bem. Sempre com fome, sempre.

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Roubar teu calor é boa desculpa pra poder te tocar.

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Final de noite, mais uma vez, devo criar coragem e falar o que coração grita, mas a covardia nega. É apenas coisa da tua cabeça, não existe nada além da intenção.

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Falo ou calo? Sempre dúvidas, sempre. Elas corrompem todas as certezas, se é que elas existem. Falo, mas isto não deve ser dito com versos e sim atos. Minha fala é muda. Minhas palavras são o silêncio, que nunca são escutadas. Palavra não tem cheiro, não tem apelo, não deixa saudade. Perdi, mas não sou emo, isto não.

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O amor maior é aquele que não existiu, aquele que ficou pungente, mesmo sem gosto, com algum cheiro.

Vou roubar uma frase que gosto muito do Mutarelli pra tentar expor minhas idéias...

"De todas as coisas que tive, as que mais me valeram, das que mais sinto falta, são as coisas que não se pode tocar. São as coisas que não estão ao alcance de nossas mãos. São as coisas que não fazem parte do mundo da matéria. [...]"

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Ela me fez sorrir

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Qualquer uma? Sacanagem!



Eu cá estou, debruçado na rotina de mais uma quarta-feira, em que o dia demora a passar... É a situação pré-coito do final de semana. Quase religião, quarta, sinuca e o papo jogado fora sobre as últimas leituras. Porém, um dicionário histórico-político (ou melhor, cinco livros pesados e com mais de dez mil páginas) muda drasticamente meus planos para fuga da monotonia.

- Você trabalha aqui?
- Sim. Em que posso ajudar?
- Bem, vi que vocês tem um dicionário de política antiquíssimo, mas é um bocado... Nossa! que interessante este seu colar. Parece feito de brigadeiros. Posso tocar?
- Claro. Os "brigadeiros" dão em árvores lá da Índia.
- Puxa, bonito mesmo... Tem uma textura interessante. Como eu ia lhe falando, um bocado volumosos estes dicionários. Teria como entregar na minha casa? Moro perto, na direção do Pantanal, mas não dou conta de carregar todos eles sozinha.
- Estamos sem entregar no momento, mas caso queira, eu posso te ajudar a levar no final do meu expediente. Vou pr'aquelas bandas logo que sair. É a minha religião...
- Engraçado alguém com um visual assim, professar sua fé no meio da semana. Nem lá no interior as pessoas vão a missa no meio da semana.
- Não é bem rezar o que vou fazer. Vou encontrar uns amigos num bar, algumas partidas de sinuca e um pouco de bobagem pra tirar a tensão acumulada.
- Mas assim eu vou atrapalhar a tua diversão. Não quero incomodar.
- Assim eu posso sair um pouco mais cedo do meu pequeno martírio.
- Até parece que trabalhar com livros é chato assim. Imagina se estar rodeado deste mundareu de mundos...
- São mundos distantes demais de mim. Sem dúvida, tenho uma grande paixão por livros, tanto que trabalho fora da minha área de formação.
- Formado em...?
- Matemática.
- Exótico.
- Gosto desta palavra.
- Eu também.

A troca de olhares marcou a intenção de cada um perante o outro. Ela, era o ser exótico que não tinha tido coragem de assumir seus desejos. Vinda do interior, apenas um namorado que demorou 3 anos para lhe dar um sexo oral a muito contragosto, havia cansado da vida pudica. Ele, homem vivido, que com cinco palavras ou uma dança sabia se alguém queria dar para ele (ou não).

- Faço assim então, pago agora os livros. Tenho que fazer algumas voltas daqui a pouco. Passo no final do dia aqui, e se não for abusar, você me ajuda com eles. Que horas você sai?
- Daqui uma hora, mais ou menos.
- Certo. Venho daqui uns quarenta minutos...
- Me deixa telefone e fique com um cartão meu.
- Está bem.

Ela voou para casa e arrumou como deu a depilação. Sabia que aquele moço da livraria iria salvar seu dia não só trazendo os livros, mas lhe dando prazer. Estava eufórica. Não tinha acreditado na sua coragem, não que pedir para alguém ajudar com alguns livros o fosse, mas conseguiu ler no corpo dele a palavra tesão. Pensou e decidiu que ela não precisaria ajudar ele. Seria até melhor que ele cansado chegasse, assim poderia lhe oferecer algo para beber. Ótima idéia dona Mayla, pensou. O telefone toca, é ele. Será que ele escutou meu pensamento. Ele vai me devorar inteira...

- Alô, eu poderia falar com a Dona Mayla?
- É ela.
- Aqui é o moço da entrega. Já estou saindo daqui, mas preciso do seu endereço.
- Você leu meu pensamento. Acabei vindo direto pra casa. É na segunda rua depois da padaria, casa verde, número 62.
- Ok, daqui a 10 minutos estou aí.
- Te aguardo.

Tomou seu banho mais rápido da vida, mas pretensiosa continuou de toalha e uma calcinha minúscula que mal cobria seu sexo.

Dim-dom, a campainha tocou. Acendeu um incenso e abriu a porta. Aquele homem suado mal tinha atravessado a porta e ela já o puxava pelo colar de brigadeiros. Toalha caída, a porta batia e ela cheirava o seu suor. Ele adorou pegar no cabelo molhado e curto da moça recatada que agora se mostra despudorada.

- Não importa eu dizer o meu nome?
- Não me venha com romantismos... Nem cheguei perto dos livros de auto-ajuda pra você tentar me oferecer isto.
- Então faço qualquer uma sacanagem contigo?
- Me chama de puta pra cima, me chupa, me bate e me xinga... Posso não ter muita experiência, mas tenho tesão e hoje eu quero você em mim.

O "querer ele" dela bastou para criar todos os quereres dele.

Da noite que passou restam poucas marcas no corpo e uma fatura do cartão de crédito.

Pra ele a fé de quarta agora cheira incenso, pra ela uma bom amante que entende de livros.


P.s. Texto para Letícia com as palavras presentes no título

segunda-feira, 6 de julho de 2009

01



Mais uma vez o contato da louça gelada acordava meu corpo inteiro após a masturbação rotineira de uma manhã de inverno. Devia escrever uma máxima sobre a altura e temperatura dos objetos do banheiro, mas me falta literalidade pra tanto. De certo modo, é neste pequeno momento, la petite mort, que minha natureza se revela. Independente da longa sombra dos anos, acumulo uma lista de "pequenos crimes", entenda crimes como as paixões sadianas que destroem os costumes. Minha história é simples: sou um homem sem rastros. Tudo que tenho, são meus prazeres. Tive sorte em momentos pouco propícios, o que me rendeu mais dinheiro do que consegueria gastar se o quisesse. Admito que a fase "novo burguês emergente" ocorreu com algumas voltas ao mundo e seus gostos, mas nada que muitos já não tenham feito. Quando meu rosto começou a circular em revistas que nunca li, mas que sei que servem como mostruário de "homens que você deve conhecer no próximo mês", decidi que a clausura seria um bom argumento de fulga. Neste momento, morri para mundo e para mim.
Mortos usam ternos e sapatos. Eu me despi, despedi e despedacei todos os meus traços de membro de uma sociedade. Um ser desfigurado, amorfo e habitante de uma realidade paralela e transversal. Isto, sou eu...

Depois de muito lutar contra minha natureza, decido dedicar integralmente meu tempo ao meu único real interesse. Oferecer a libertação aos que procuram o prazer como forma de transgredir o eu. Não é catecismo, apenas pura revelação através dos sentidos.

Mas como alguém na sombra pode encontrar suas vítimas?

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Aquele corpo manchado de tinta


Ela estava lá, escondida, num misto de sorriso e curiosidade, como uma criança que espera a outra, numa brincadeira boba, que na sua contagem ultrapassa várias vezes o finito infinito de números que conhece... Nuvens claras, que de leve deixavam escorrer a sua face em nós. Esta era sua barreira contra nossos corpos nus, que expostos a Lua, da janela daquele quarto, não transpunham apenas aquela fenestra, mas sim todos os umbrais do prazer. Não era o falo ou a fossa, muito menos o simples roçar dos corpos a violentar o próprio atrito, aquilo corrompia os sentidos como um acorde dissonante que não prepara e nem finaliza, simplesmente ecoa, resvala e esbarra numa parede de gritos. Suas marcas, tanto as crivadas quanto as qu'eu propunha, ficavam expostas, latejando no frescor de uma noite clara de verão. Aquele corpo manchado de tinta era todo pura oferta, enquanto sua boca metálica sorvia tudo de mim.

domingo, 15 de março de 2009

Apenas água com gás


Mais um sábado como outro qualquer, onde sentado entorpeço os meus sentidos com sentimentos que não são meus, que busco nos discos e livros dos quais não participei, que consumo ferozmente para entupir a minha razão e as minhas vontades... Alguns procuram o álcool, outros tantos vícios baratos que deixam gostos e cheiros. Cada qual faz o que lhe apraz. Tirando alguns quilos de poeira que meus prazeres acumulam no decorrer dos dias, sou acometido por suaves crises de renite que me ocorrem na devida limpeza deles. A arte é meu ópio, que distorce a minha realidade e a recobre com uma leve bruma. Isto tudo acontece até o telefone tocar...
- Alô, quem fala?
- (Snif, snif, snif)... sou eu... (buá, buá, buá)...
- Eu, quem?
- Não reconhece mais a minha voz?
- Soluçando assim, fica até difícil de reconhecer se é gente ou não... Você me ligando? O que queres tu de mim?
- Preciso conversar... terminou... (buá, snif, snif, buá)
- E em que eu poderia ajudar nesta conversa? Tenho alguma culpa em cartório?
- Não, mas achei que você pudesse ajudar.
- Certo...
Sabia que a minha presença não seria boa. Uma vez, é amistoso. Duas vezes, suspeito. A terceira, não está sob a minha responsabilidade a conseqüência dos meus atos. Auto-Schadenfraude... eu sou o meu inimigo, por isto, devo rir da minha própria desgraça. É uma partida de sinuca que jogo com ambas as mãos. Direita contra esquerda, esquerda contra direita. Razão contra emoção. Ambos são perdedores, devido um terceiro oponente que não se põe a mesa, que corre violentamente pela tabela, sem que os demais percebam. Malditos Khronos, deus sem corpo, que sempre é desleal com aqueles que tem Morpheus por sobre os ombros.
Ela sempre foi feita de poucas palavras, mas o pouco de voz que lhe restava primava dor. Por isto talvez me procurou, um colo confortável e algum afago na sua cabeça destruída...
Mais um cigarro aceso, o olhar vazio buscando um sentido. Tristeza que eu respirava, como o nefasto cheiro podre que saia das minhas vísceras já a muito decompostas. Vontade de rolar no chão, com uma peruca barata, suspensórios frouxos e a minha cara mais lavada de palhaço pra arrancar dela o mais bobo sorriso. Sorriso de florzinha que dança.
Agora que todos já foram, posso me aproximar dela. Não que eu tivesse vergonha ou medo deles, apenas não queria que ficasse hostil com o meu toque. Sei que meu cheiro é capaz de deturpar qualquer vontade dela. Usei armas pra qual ela não tem defesa.
Não ocorrer o beijo seria um coito interrompido, que aliás não deixou de acontecer. Alguns beijos e já tínhamos certeza que era de sexo que precisávamos. Aquele selvagem e sem pudores que tanto repetíamos nas longas tardes de inverno.
- Tenho um presente pra ti... Acho que teu aniversário vai ser bem interessante pra nós dois ou talvez três...
- Entendo...
- Gosta da idéia?
- Só idéia ou vai acontecer?
- Se eu falei, é porque quero, oras!
- Bem, só acontecendo...
Ela me olha com desprezo e acende mais um cigarro. Vira e contempla a lagoa iluminada por luzes artificiais que pouco lhe imprimiam brilho.
Um caminho longo de poucas palavras e muita cobiça pelo corpo que tanto conhecia. Sem muitas delongas puxei seu corpo junto ao meu. Fiz ela sentir toda volúpia sufocada que minha bermuda rota conseguia agüentar. Minhas mãos ávidas cobriram o seu corpo como se fossem maior que todo o meu ser. Dois beijos na nuca e seu sexo pingava tesão...
- Acha que é assim? Vou ter que limpar muito bem tua boca com o meu sexo. Até o fundo da tua garganta.
- ...
Duas voltas era a medida exata que seus cabelos tinham na minha mão. Com um movimento brusco arrastei sua cabeça até meu membro rijo e o bati algumas vezes na sua tez até as bochechas enrubescerem. Ela mostrava os caninos como uma cadela, oferecendo resistência a coleira que tantas vezes usara para opressão/proteção.
Com um tapa na cara, ordenei que olhasse pra mim. Ela sugava voraz todo ele, até recostar sua testa no meu púbis. Sendo muito obediente, tendo colocado por completo na sua boca macia todo aquele membro entumecido, achei que merecia que minha língua no seu sexo já a muito embriagado.
Peguei ela nos meus braços e a coloquei por sobre a cama na devida posição que minha boca penetrasse suas entranhas. Onde meu fálico nariz sentia todo o cheiro de seus prazeres. Olhos lânguidos, lábio inferior torcido pela própria mordida e movimentos convulsivos no seu alvo abdômen denunciavam seu prazer transfigurador. Ela já não abraçava mais um mortal, era Eros que roubava seus sentidos e transformava em gemidos cada vez mais sincopados.
- Domino o teu corpo, como se fosse um pedaço do meu. Minha vontade é soberana nos teus quereres.
- Te enganas se pensas isto...
Frase que expulsou toda minha gana. Tentei disfarçar, mas meu termômetro de volúpia não mente tão bem toda hora. Mas vendo que seu dito devastara minha libido, tratou de mexer com meu ego.
- Já de pinto mole. Você já foi melhor...
Ela não devia ter me provocado. Peguei suas mãos com muita determinação e lhe olhei nos olhos...
- Você vai querer não ter dito isto daqui a alguns minutos...
Como uma puta, rompi todos os meus pudores e usei um golpe baixo que deixaria ela implorando por uma penetração forte e profunda. Minha língua correu a sua perna e quando chegou no pé ela já se contorcia e reivindicava a penetração imediata. O torpor era puro afrodisíaco.
Sem muita cerimônia dei a primeira estocada firme e sem lubrificação. Cortante e profunda. Num ritmo já muito acelerado, não demorou muito a transpirar tudo o que podia.
- Que pau desgraçado tu tens...
- Mas você sabe muito bem fazer ele sorrir e até chorar...
- Cala a boca e me faz gozar bem rápido! Depois quero coma bem direitinho o meu cu. Me arromba do jeito que tu sabes...
- Sei é? Mas eu era virgem até pouco. Você mangou de mim. Fui obrigado a defender minha masculinidade.
- Sei... Eu também sou o Bozo.
O ritmo crescia. Os corpos inundados de suor e fluidos se chocavam cada vez mais forte.
- Fica de quatro... Quero tua bunda agora!
- Mas põe devagar...
- Ela tá meia hora piscando pra mim, acha que vai ter devagar?
- Olha o que você vai... Já foi?
- Já tá dentro... Fica bem quietinha. Vou arrancar prazer daqui como você nunca viu...
Cada vez mais forte e mais forte, seus berros aumentavam com o compasso que se impunha.
- Mais forte! Mais...
E ela uivava de prazer na sodomia. Seu gozo veio forte e a frase arrebatadora da noite.
- Não é toda puta que dá o cu assim... Acho que deveria cobrar...
- Eu como bom cafetão, quero parte dos lucros. E não vou aceitar o pagamento em sexo... Não gosto de misturar este tipo de coisa. Onde se ganha o pão, não se come a carne...
- Puff... nem te preocupa, virei vegetariana...
- Então quer dizer que não vai tomar o meu jorro quente?
- Pois é... não sei, não tinha pensado sobre esta questão.
- Abra a boca, que eu vou pensar sobre estas questões enquanto gozo.
Ela abriu a boca e estendeu a língua esperando a seiva da minha libido. Com jatos quentes, cobri ela muito rápido de um líquido viscoso, que ela prontamente classificou como...
- Doce...
- Talvez chocolate... Como tem um fundo de origem vegetal você não precisa se preocupar se deixa de ser vegetariana ou não...
- Que vegetal o quê... Tu é um safado, isto sim...
- Nunca disse o contrário.
- Mas bem que gosto.
- Nada, apenas trocamos favores. Eu te devo muita coisa.
Ela acendeu mais um cigarro quando ele ainda tinha espasmos do orgasmo.
A situação do pós-sexo sempre requer muita intimidade. Coisa que não faltava, porém carinhoso ou apenas amistoso? Que sentimentos ele podia demonstrar? O avesso do avesso a muito deixou de ser o próprio, mas, o fazer com aquelas coisas que tranquei numa caixa e não queria deixar sair? Fui invadido por um turbilhão de perguntas, mas uma certeza eu tinha. Ela espanta a minha solidão... Maldito cheiro que fica na mão e custa a sair. Não é fácil achar os cabelos dela grudados nos mais variados lugares do meu corpo. O difícil mesmo é esconder o meu sorriso de satisfação...
Odeio estar sem controle!!!

terça-feira, 3 de março de 2009

Raios e canudos


- Consegue vir aqui agora?
- Mas com esta chuva, só se tivesse um ótimo barco pra cortar todo o engarrafamento... Vou ver o que posso fazer.

...

- To aqui na portaria, vem me dar um "oi".

Neste momento a chuva caia como tufos, trovões e um vento contínuo sem direção. A pândega da natureza estava formada. Neste momento os olhos se encontram, e ele rouba aquele beijo, meio maroto, quase de canto de boca. Ela simplesmente o joga na chuva, e não retribui aquele beijo magro e sem viço, mas lhe impõe o desejo a tanto calado.

- Tenho que ir, meu irmão te arranca as bolas e faz um chaveiro se te ver aqui.
- Vou mesmo precisar delas.

...

- Por que te querer é tão voraz?
- Não sei. Talvez a distância, quem sabe é porque te quero também... E vamos apenas conversar? Se é pra te querer, não te quero em pedaços, vou querer tudinho.
- Quanto tempo temos pro "tudinho"?
- Olha, ele tá na cama deitado, espero que não me ligue tão cedo. Disse que fui dar uma boa caminhada. Acho que posso voltar bem suada.
- Adoro poder deixar alguém bem suada.
- Então, deixa de papo, seja mais objetivo e anda logo com este carro.
- Ok, my captain.

...

- Teu corpo sempre me encanta, assim meu violão se cala pra te ver passar...
- Deixa de ser bobo, cante alguma coisa pra mim enquanto tomo um bom banho.
- Vou errar até "parabéns pra você" se tentar cantar. Vou apenas tocar, você que está no chuveiro, que cante!
- Assim eu fico sem jeito...
- Anda com este banho, não aguento mais, te quero e agora.
- Mas vou estar um tanto molhada.
- Pois é pra isto que estou aqui (neste momento ele tenta armar a maior cara de cafajeste que conhece).
- Cachorro! Bem cretino este teu jeito... Mas gosto dele. Vem, me pega. Vou te dar trabalho.
- Não penses você que tenho medo de mulher. Tá pra nascer ainda que me deixe arriado. Vou te mostrar...

Entre mordidas, gemidos, suor e muito cabelo, as horas passaram voando. Triste ele olhava ela de cima, mas não deixava que isto saisse de seus olhos. Triste não era o melhor adjetivo pra classificar o seu olhar, beirava a plenitude e o torpor, mas se perguntava "e agora? Tão pleno o agora que talvez não se repita. Estranho ela me completar com toda esta distância... Como o corpo dela me acalma, me sacia. Chego a me tornar fácil. Cada vez que toco ela, a paixão vem como um sentido extra pros cinco que tenho..."

- Que cara é esta de cachorro que caiu da mudança? Vem e me afaga. Eu bem que mereço aquela massagem nos pés...
- Quem sabe fazer massagens aqui é você. Eu apenas aperto e vejo a tua cara de bom ou ruim.
- Você esta falante demais, seu grilo.
- É a alegria se sentir o teu cheiro misturado ao meu.
- Você sempre com estas palavrinhas tolas que me deixam boba.
- Gosto de te ver sem jeito, parece menininha que ganha flor de jardim de primeiro namorado.
- Era bem disto que preciso, um pouco de romance com um bocado de sacanagem.
- Sabe onde e com quem conseguir. Sou bobamente apaixonado por você, não é nenhuma novidade pra ti.
Ela afaga o pouco cabelo que lhe resta, quase careca, apesar da curta idade.
- Vou sentir o teu cheiro em mim a semana toda.
- Pois trate de não deixar ele em muitas outras pessoas...
- Ciúmes?
- Não, mas se te satisfiz, não precisa tão cedo dar um cansaço em outro alguém.
- Ciúmes. Mas aceito o teu argumento... Preparada pro segundo tempo?
- Assim você me mata, seu safado.
- E não vale morrer de amor?
- Não, quando se quer mais amanhã.
- Você me deixa em breve, e não serei mais eu a te dar prazer. Não tenho ciúmes ou outro apego. Gostaria apenas de te ter mais perto. Você me faz bem, muito mais do que consegue ver.
- Nico bobo.

Aquele abraço quente e cheio de ternura. Ela não viu a lágrima solitária que rolou na face do triste mancebo, mas de todos os fluidos presentes nos corpos, aquele foi o mais salgado sentido na noite.

...

- Um Shake com ovomaltine e dos grandes.
- O legal é chupar bem rápido, que dói a cabeça...
- Eu é que o diga!

03/03/09