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domingo, 30 de novembro de 2008

Binários e quaternários


Estava eu sentado, um pouco entediado de observar as pessoas dançarem, principalmente as arritmias e síncopas em que seus corpos executavam de maneira tão peculiar, que talvez fosse impossível descrever seus movimentos mesmo com as equações mais avançadas de cinética. Como é difícil para algumas pessoas sentir a pulsação da música, talvez eles mal saibam distinguir o som do silêncio...
Fitei ela com olhos brandos, um contato simples. Mas ela, com aquela saia rodada, cortava o salão. Nunca tivemos chance ou criamos tal, porém sempre houve uma latência de ambos.
Se aproximou, descruzou minhas pernas e sentou no meu colo. Foi o estímulo correto para libertar aquilo que não queria ouvir e muito menos anunciar. Com um beijo quente e úmido na minha face, ela sussura palavras, que meus sedentos ouvidos trituram e cospem diretamente na minha libido.

- Sei que você me quer...

Aquele bicho, de múltiplas cabeças sai com toda fúria e preenche minha face. Sou transfigurado pela volúpia. Meus olhos agora consomem ela qual fogo num pasto seco. Ela enrubesce.

- Não me olhe com esta cara. Assim vou ter que te beijar...

- Qual o problema nisto?

- Problema algum, mas hoje tenho que respeitar alguém presente...

Desafio ainda mais seus sentidos abraçando a sua cintura e deslizando minha mão levemente no seu dorso. Ela fecha os olhos e o meu golpe está preparado. Puxo ela mais firme ao meu encontro, umedeço meus lábios com um rápido toque da minha língua, qual uma víbora que mostra as presas a seu jantar. Mas com pronto movimento, ela protela o meu prazer. Passa sua língua macia na minha orelha e rompe o silêncio da maneira que eu não pretendia.

- Hoje não, mas a espera será bem recompensada.

Meu sexo explodia, entumecido por todo o desejo daquele momento. Ainda a encaro fervorosamente, meu membro pulsa no contato com a sua bunda, quando ela me rouba um beijo de canto e foge sorrateiramente.
Ela continuava a dançar, a sua saia a rodar e aquelas marchinhas que ninguém esquece...

30/11/08

sábado, 15 de novembro de 2008

Cinzel dos tempos


De que a adianta a liberdade ou a promessa de que cada momento é único se não optamos o que fica. Aquilo que impregna e que se torna lembrança. As dores ou os amores que levamos e aqueles que são perdidos pelo cinzel do tempo. Nem o auto-engano rompe o que passa pelos sentidos e queima a alma como brasa em bilhetes amarelados que guardamos no fundo de uma gaveta em que pouco abrimos. Crescer não dói, o problema está em aprender a conviver com nossos erros e nossas escolhas.

15/11/08

domingo, 12 de outubro de 2008

Quereres poucos


- Ei poste, vamos dançar - e assim começou o diálogo.

Não dê ouvidos aquela loira na festa que você julga a mais fútil. Alguém tão bonito não pode ter um cérebro interessante.

Errado!!!

Mais uma vez, meu julgamento de longe estava totalmente equivocado, e a sua agressiva beleza não era mais um engodo que a natureza utiliza para a simples multiplicação dos infelizes.

Apesar da boca imunda, falando todo tipo de palavra baixa, de perto sua voz moderada tencionava não apenas os meus tímpanos, mas também minha medida sobre as coisas.

É estranho como eu gosto de estar errado e ver meu lugar-comum ser destruído por uma nova informação. Ter que pensar sobre todo o meu "pequeno-universo" como algo novo e desconhecido.

Conclusões e surpresas rodeadas da horda a nossa volta dançando Bee Gees.

E que sorriso...

Mas nada se comparou aquela dança, em que os corpos, praticamente em simbiose, não varriam o salão, e sim um canto escuro da minha solidão.

Não sei se por compaixão ou por interesse, mas na despedida, cada beijo foi ficando mais perto da boca, e talvez por eu não me mostrar ofensivo a ela, fui pego por sua boca beijando a minha.

Não acreditava que pudesse me querer, mas naquele pequeno momento, fui eu o seu querer.

12/10/08

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Será que existe o tempo?

Uma hora dessas tenho que limpar a poeira acumulada dos anos
Daqueles livros que não leio mais
E dos filmes que perderam a cor e o sentido
Mas tenho medo...

Volta e meia ainda grudam nos meus pés
Aqueles fios que tanto me incomodavam
Do teu cabelo furta-cor
Que com a minha mão, como escalpo tirava

Lembra daquelas cartas??? estas mesmo...
Que me escrevias quando longe ficavas
Tudo ficou num lugar que não lembro
Ou que não quero lembrar

O duro é não esquecer o teu cheiro
E não me refiro ao perfume que te dei
Sim o cheiro da pele molhada de suor
Transpirando prazer e gemidos

Não sei o que aconteceu entre nós
Só sei que me perdi em algum lugar
Talvez aquelas árvores tenham roubado a minha vontade
Onde parece perpétuo o inverno

O abajur, este eu não ligo mais
O fantasma da tua sombra vermelha
Sempre queima a minha retina
E não preciso de mais motivos pra umedecer a minha face

Triste brasa que queima o meu peito
Não é a tua ausência que machuca meu corpo
Pois muitas vezes apenas tinha você de corpo presente
Mas a tua cabeça e os teus sentidos
Longe passavam do meu tino

O que me corrói é não saber o que restou mim
Sem que você tenha tocado e mudado
É difícil não abrir a torneira
E lembrar de fechar prontamente

Talvez o rolo de papel
Ainda seja aquele último que usasse
Faz tanto tempo, tantas coisas aconteceram
Mas as marcas nos azulejos
Estas, nunca se apagaram

Mudei sim, o meu colchão velho
Aquele, com todos os aromas de amor
Que de todos os fluidos foi embebido
A minha parede gelada ainda esta no mesmo lugar

Tropeço em imagens, conjuro feitiços
Quebro ditados e grito ao vento
Mas nada te trará de volta pra mim
Porque de mim, não resta mais nada

Sou pedaços de um mundo partido
Perdido numa galáxia qualquer
Que tão longe e fria
Não enxerga mais o brilho das estrelas

...

P.s.: Eu sei, hoje seria 3 anos daquele domingo...

12/06/08

Sugestão: Ler escutando "Quarto de Dormir" do Arnaldo Antunes