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domingo, 10 de novembro de 2013

Eu sou o Pássaro-do-Sol

Mania de falar de livros. Café combina muito bem. Tanto com os livros, como com a mania de falar deles. Numa das tantas reclamações da ausência do mesmo, alguém, inusitadamente, se compadece da minha súplica e aumenta o coro "Alguém dê por favor um café para o Senhor". Algo realmente bobo. Num tom que parecia sem maiores pretensões. Parecia. Desconfio seriamente que naquele 20 de agosto ela já sabia mais sobre mim do que eu imaginava. Mas, pouco importa hoje ou algum dia. Lívia, não era o nome dela, mas, é assim que vou chamar. Poderia se chamar Ana, Bárbara ou Catarina. Uma mulher comum apenas. Talvez. Cheia de medos e vontades. Gostava de ler, tinha vergonha em dizer que consumia pornografia todos os dias e adorava os personagens da Disney. Não morava perto. Falei que não gostava de pessoas de longe, ou se gostava, não criava maiores expectativas. Ia acontecer algumas vezes, muita vontade, a distância iria doer e nos afogaríamos em horas gastas de longos diálogos em tecnologias que não aquecem o pé no inverno. Também gostava do inverno e odiava o calor do Rio, mesmo tendo nascido lá. Mas, pouco importa, sabia que ia terminar os estudos e morar num lugar frio. Talvez com neve. Quem sabe o Canadá. As roupas longas escondem bem os hematomas e ela tentava preservar eles, mesmo com a facilidade que tinha em não se marcar. Queria ser marcada. Mas, os homens sempre a tratavam como princesa, aquelas que gostava, mas, não queria ser igual. Sempre preferiu os vilões e o ser forçada. Aliás, era o que mais desejava sempre. Ser forçada a tocar outra mulher, a ser objeto para muitos homens, ser forçada a ser privada e privada. Mas, no mundo real é difícil falar  algo assim. Ainda mais pela educação que teve, extremamente conservadora e respeitosa.
Não demorou muito para os diálogos longos logo demonstrarem o interesse da moça. Avisei que não se iludisse, eu tinha outras e de muito mais perto. Não se importou e ainda se fez mais presente. Tão presente, que desembarcou no aeroporto. Fiz todo aquele terrorismo "irá se ajoelhar e beijar os meus pés no aeroporto, na frente de todos, como prova do que quer... não, apenas vir não demonstra nada". Acabei arranjando motivos e houve um atraso proposital. Mandei que pegasse um táxi e que fosse para o hotel. Que tomasse um banho, apagasse as luzes e me esperasse vendada. Não, ela não iria me ver. Um ótimo primeiro contato. Claro, detalhes técnicos. Porta fechada. "Deixe o seu recado após o sinal, bipi", caixa postal. Bato na porta. Escuto um arrastar do outro lado e logo a maçaneta não me impede mais. Tremendo, era de se esperar. Respiração alterada. Gostei do cabelo dela, faz volume entre os dedos. Puxo um pouco para o rosto ficar melhor exposto. O primeiro tapa, mesmo com a pouca luz que teima em entrar pela janela, deixa a bochecha vermelha. O próximo é no outro lado, simetria, com as costas da mão. Um pequeno gemido. Curto. Boto ela de joelhos pra cheirar a minha braguilha. Apenas. Não há palavras. Ela tenta erguer os braços para abrir a minha calça e jogo eles para trás. Apenas cheire. Entende o recado, mesmo em silêncio. Era uma noite agradável de outubro. Muito já havia sido combinado. A palavra, gestos caso não conseguisse falar e sempre sem perder o foco "você vai ser apenas testada". Tolice minha pensar assim. Ou pelo menos dizer algo assim em voz alta, sendo que sei que gostei dela, a doçura e o tanto que faz por mim. Antes mesmo de pisar na ilha já havia chamado ela de egoísta e que só estava vindo porque não havia encontrado alguém com coragem de dizer isto antes. Eu sei que doeu. Mas, se não dói, não é real. E sem dúvida o que ela procurava era abandonar a máscara, aquela que tanto pesava no rosto pra fingir ser "boa moça". Ela era uma vadia, nunca duvidou disso, mas, a vergonha não deixava de ser maior por conta de tal certeza. "Não tenha pena de mim" foi uma das últimas frases antes do silêncio de hoje. E ela tinha esperança que realmente tivesse. Aquela noite aconteceu, coisas simples e básicas, que servem pra leitura do outro. Corpos estranhos dão muito trabalho para a percepção. Estava cansado e logo fechei os olhos. Tive a sensação que continuou a me observar, como se tudo o que tinha desejado acabara de ganhar pelo e cheiro. Acordo com a mesma impressão. Tenho dúvida se ela pregou o olho. Não teve café, fomos direto para o almoço. Ela parecia muito feliz. O jeito que me olhava era um mau sinal. Estava apaixonada e tenho medo de pessoas que assim tão fácil se entregam. Tudo tomaria proporções muito grandes. Logo já planejávamos a próxima visita, o quando iria conhecer as outras moças e confessou querer morar no Sul, sempre quis. Mais um motivo. Logo uma longa despedida no aeroporto. Tive outro pressentimento, agora era o lugar.
Mais uma vez voltei ao aeroporto e agora na chegada. Seria um tempo maior. Faço pouco dela balançando os pés na sua chegada. Responde balançando uma colinha imaginária. Ela não sabia que "colinha" era o diminutivo de "cola", que era sinônimo de rabo. Dava sinais caninos. Gostava disso. Já que agora não era mais test drive, iria pegar pesado. Mas, logo amolece o meu coração trazendo um "Hitachi vermelho" como presente. Claro que tinha todo o interesse do mundo naquele brinquedo. Não deixava de ser egoísta, mesmo estando agora eu num pedestal. De joelhos novamente, agora já sem as calças, uso, abuso e aviso que vou mijar na cara dela. Pânico nos olhos, feche eles. Logo a boca se abre e percebe que não é tão difícil. Bem mais dócil. Dessa vez numa das noites iremos beber. Sal, limão e tequila. Sem brinquedos ou coisas complicadas. Sentir, rir, beber e conversar. Logo a garrafa não tem muito e ela demonstra a fraqueza pra bebida. Odeio gente bêbada. Logo vem o choro, as declarações de amor e o quanto a distância tem sido difícil. Banho gelado e boto pra dormir. O que era pra ser diversão virou puro incômodo. Poderia ter ido embora e deixado ela dormindo. Teria sido uma ótima lição, mas, realmente, tive pena. Durmo sozinho na cama ao lado. Mal pisco os olhos e reparo ela ajoelhada na beira da minha cama e se desculpando. Minha cabeça está quente e não é um bom momento pra conversar. Viro pro outro e ignoro. Pisco novamente e a boca dela corre o meu corpo. Chuto e sou estúpido, como não gosto de ser. Levanto e começa o sermão, não o da montanha. Se ela tinha vergonha das coisas, era um bom motivo pra sentir. Qualquer surra teria sido menos dolorida do que um "mocinha, você não é uma boa menina...". Camarões, só restava a fome. Mas, abençoados aqueles que tem a memória curta e o tesão longo. Mais uma vez o aeroporto. Está cada vez pior.
Um longo período, a saudade só aumenta. Ela viaja muito e logo está aqui novamente. Desta vez será curto, logo volta para o meu aniversário. Nem parece que o tempo passou tão rápido. Uma ligação, duas, três, é melhor atender. Volta correndo pra casa. Agora, a longa despedida no aeroporto. Era o momento que temia. Sei que não nos veremos mais tão cedo. Alguém descobriu o que saltava aos olhos. Promessas e mais promessas. Ela sumiu. Sem contato por qualquer meio.
O silêncio era muito alto e logo descubro que tem agora outra vida, onde finge para todos que deixei de existir. Mas, os livros, os contos, as horas de conversas e os gemidos marcaram o corpo. Descobri que virei uma pena no pulso, aquele que morre e ressuscita. As Coisas Frágeis do Gaiman. E mais uma vez o que me sobra é o silêncio.

House of the rising Sun

Texto originalmente publicado na revista digital Kink 101 - Edição 3 - Ano 1

domingo, 11 de agosto de 2013

Breviário Obsceno XVII - 4 am

Já era madrugada alta. Um quinta ou sexta-feira quente de fevereiro de 2009. Havia cumprido meus ritos de prostituto musical naquela noite. Sobraram as fomes do mundo. O sexo e a comida.
Nosso acordo era simples. Ligava, ela atendia e eu ordenava o que queria. Sem frescuras e sem laços maiores. Nunca dividia o sono. Estava lendo mais uma vez A insustentável leveza do ser. O telefone mal tocou duas vezes.
- Sim. O que quer?
- Daqui uns 10 minutos apareço aí. Deixe a porta aberta, aquela toalha que gosto no banheiro e faça um molho de gorgonzola para uma massa simples. E não fique se enrolando. Estou com fome.
Estaciono o carro na rua oposta e com poucos passos chego no condomínio. O porteiro já entendia os meus hábitos noturnos e nem flagrava mais onde estava indo, Apenas um aceno e o longo corredor até o pequeno apartamento. Porta entreaberta e vejo aquele corpo manchado de tinta debruçado sobre o fogão. Não falo nada e vou direto para o chuveiro. Ela sabia que não deveria falar nada, apenas aguardar.
Ainda com algumas gotas que teimavam em grudar na pele, sento nu a mesa. Há um prato generoso de penne e uma cerveja que logo se aproxima e abre. Pego o braço esquerdo dela e indico que fique com os meus pés enquanto como. Havia muito sal e nenhuma pimenta. Dou algumas garfadas e logo perco a fome. Levo o prato até o meu colo e despejo o que sobra por sobre um misto de cadeira, minhas pernas e outras partes. Percebo que logo entende que não gostei do que comia e resta a ela limpar isto. O tampo de vidro da mesa era generoso em não esconder as expressões dela.
- Coma.
Rapidamente abandona os meus pés, que agora se encontram mais molhados do que no banho, e se debruça pelos restos. Bebo vagarosamente. Vez por outra, ergo sua cabeça e vejo o quanto suja está. E ela sorri. Depois de algum tempo, não há mais restos e peço outra cerveja. Levanto, vou até a cama, sento com as costas encostadas na parede fria. A janela está aberta e os vestígios da Lua Cheia invadem o quarto. Abro bem as pernas e ela, mais uma vez, parece entender o que não falo. Arrasto sua cabeça para o meio delas. Estou cansado, olho para a noite, dou mais alguns goles e o gozo vem.
- Quero outra toalha.
Mais um banho, visto as roupas, deixo o resto da cerveja na pia do banheiro. Ela estava aberta na cama, na mesma posição que eu estava antes. Talvez tentasse entender o que via pela janela. Desconfio que não viu. Enquanto passo pela porta, ela tenta dar boa noite. Deixo a porta como está. O corredor é longo. Aceno para o porteiro. A noite é quase dia e aquele dia queria ficar só. Ponho a mão no bolso e minhas chaves ficam no apartamento dela. Olho para o telefone e decido caminhar.

Noite quase dia.



 

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Binder

O relato que segue abaixo foi um castigo. Não o ato praticado no mesmo, mas sim o ato de relatar. Talvez nem tudo descrito seja fidedigno ao ocorrido, afinal nem sempre a vida tem tantas cores quanto a arte. E antes que perguntem, o castigo foi exatamente por não ter presenciado o ocorrido.  


Um dia rotineiro, como tantos outros na minha curta existência. E eu, ávida para quebrar ele, o dia, em estilhaços.
Sei que a aula vai ser tremendamente sonolenta. Decore o conceito e pronto, tudo ao som do ritmo suave e profundo  do canto gregoriano que um tal professor velho costuma chamar de aula. Preciso de algo novo, sem água gelada com gás para acordar, alguma coisa que me prenda a aula, literalmente.
Atrasada como sempre, levanto da mesa sem terminar o almoço, visto as primeiras roupas que vejo e confiro os prendedores  de madeira na mochila. Indo em direção a porta minha atenção é desviada pelo tilintar de metais. Mais de perto descubro prendedores metálicos de pressão, e o som deles sendo empurrados uns contra os outros se transforma num sussurro de ideias. Pego dois aleatórios, e saio.
Sento no chacoalhar do ônibus, como sempre na janela da última fila, e observo os dois. Repousando na palma brilham pra mim, um de tamanho médio e amarelo, o outro pequeno e rosa, brinco com eles. Pego o maior, aperto as duas alavancas salientes abrindo como uma pequena boca de lábios paralelos. Na junta da primeira falange, meu indicador é cobaia, a tensão aberta se transforma numa leve pressão que fecha pele, carne e osso. Depois de poucos segundos a pressão aumenta, o dedo todo pulsa até ficar vermelho na ponta e branco debaixo da unha. Incômodo. Lembrei da época que enrolava meu dedo com atilho de dinheiro e o observava ficar roxo e dormente, mostrava pra todos com um sorriso infantil no rosto... Não é o que acontecerá hoje.
Desço no terminal e vou automaticamente para meu destino, meus pés são fiéis ao caminho, habilidosos em desviar de pessoas e panfletos estendidos. Minha mente busca lugares estratégicos do corpo enquanto ando. Subo as escadas, banheiro, porta trancada, vaso fechado, mochila aberta. Levanto a blusa e deixo-a pender pelo pescoço nas minhas costas. O suor escorre, lavo as mãos e me refresco entre os seios, nuca, rosto e pulsos. Empurro a pequena janela que dá para uma parede, que beleza de ventilação! Abaixo o sutiã e finalmente, posicionada em frente ao espelho,  pego meu acessório de pressão. Já aberto, aproximo da ponta eriçada de minha mama direita e solto devagar, o metal gelado agarra meu mamilo que fica esbranquiçado. Enrugo a testa e fecho os olhos com leveza. Apoio minhas mãos na pia e direciono minha atenção para essa pequena área. Não consigo segurar e solto um breve gemido, algo como um "hummm". Olá dor, da última vez que apareceu por aqui mãos quentes masculinas te trouxeram. Sinto saudade do dono delas e me pergunto o que ele achará disso tudo... Levanto a cabeça e meu reflexo espelhado fala que não é uma boa ideia arriscar uma parte tão sensível no teste de resistência que planejo. Concordo. Pressiono novamente as alavancas e o prendedor se abre, a minha boca também, o soltar provoca um efeito mais intenso e abrupto. A cor original, volta devagar.
Mais uma tentativa, força, e desta vez tento prender o beneticto no corpo do seio, de preferência onde o sutiã não toque depois. Solto, ele não pega pele o suficiente e escorrega, me beliscando. "Tec!", o som seco, e seco novamente meu suor, maldito banheiro abafado! Pego do chão minha presilha teimosa, firmo um lado de sua boquinha contra o peito e, com a outra mão, empurro mais tecido para dentro das paredinhas tensionadas. Solto abruptamente dessa vez, uma dor leve, crescente, chata, ideal para meus objetivos. Olho o pequeno item de papelaria, agora estático, brilhando de novo para mim. Abaixo as pequenas alavancas da presilha, uma se apóia na auréola do mamilo, desestabilizando o prendedor que deita, puxando minha pele para um lado. Agora vem um "Hummmmmmmm" bem mais intenso. Não contava com esse jogo de equilíbrio de forças.

Duas batidas impacientes na porta.  

Com as mandíbulas contraídas, abaixo a blusa com cuidado, aperto a descarga para fins aparentes e, ignorando o calor, coloco o casaco que cobre o prendedor protuberante debaixo da blusa. Abro a porta e duas caras feias me encaram, aperto os lábios envergonhada e escapo para a sala. Chego a tempo de observar a cara de desânimo dos meus colegas, o professor age como se ninguém tivesse interrompido. Sento no fundo (todas as cadeiras próximas da porta estão ocupadas) e percebo que estou molhada entre as pernas, tenho certeza que não só de suor, queria ter trazido uma calcinha reserva... 
A dor no seio está constante, não mais tímida. Tiro meu livro da mochila. Talvez uns trinta minutos depois uma surpresa, a dor se torna intermitente, lembrando-me sua presença de tempos em tempos. Meus dedos dos pés se contraem dentro do All Star quando as pontadas chegam ao seu máximo. Interessante.
Metade da aula, e resolvo fazer exercícios por conta própria. Meu desafio é controlar meu impulso de tirar aquela coisa do peito, as questões parecem ser resolvidas sozinhas. Faltando quinze minutos para ao fim da aula, na última questão matemática, meus números saem tremidos, minha mão parece perder a força. Mas que coisa! O objetivo do meu teste é a resistência, será que não aguento um prendedor? Testo a mão esquerda que está normal, mas escrever com ela produziu o mesmo efeito que minha destra enfraquecida.
Finalmente a aula acaba, todos se levantam e penso se deveria me preocupar. Minha bunda vibra. Pego o celular, mensagem,  "Mãe te espera pra fazer compras, vem logo pra casa". Claro que tudo o que eu queria no momento era perambular pelo supermercado. Volto de ônibus pensando nos efeitos do meu auto-teste. Estou fraca. Não quero ser fraca para a dor, não é divertido assim. Olho pra dentro da blusa e a região espremida não está vermelha como de esperado. Meu sangue parece ter fugido. As pontadas permanecem e, de teimosa, decido ficar com elas me fazendo companhia até o final da tarde. Será a salvação para meu programa tedioso. 
No caminho pra casa compro um chocolate, um presente para mim mesma. A sensação do derreter na boca é estimulante, o Opereta parece estar mais gostoso, afasto a ideia que me pareceu tendenciosa demais. 
Caminhando, meus pés independentes da consciência, uma buzina de carro quebra meu semblante sereno, minha mãe abaixa o vidro, acena pra mim. Escondo o resto da barra no bolso do casaco, não sou solidária com todos quando se trata de chocolate.
Digamos que não é meu programa favorito, sempre acabo discutindo, reclamando do tempo excessivo gasto dentro de uma loja, mas hoje estou disposta a abrir uma exceção. "Está calada...". Realmente, hoje não estou para falar, a essas alturas estimo três horas usando o prendedor. Apesar dos picos de dor estarem mais intensos, estou calma, num ato inédito engancho meu braço no da minha mãe apoiado no carrinho de compras. Digamos que é um ato suspeito, em resposta a interrogação no rosto dela, minto que estou cansada da aula. Passos lentos, o tempo flui como na densa aula de matemática, minha mão direita sempre no bolso do casaco, droga, o chocolate está amolecendo... Guardo devagar as compras, ignoro mais caras feias vindas da fila do caixa, o empacotador nunca aparece quando precisamos dele! Estou lenta. Mas já são quatro horas e meia de pressão constante, quero ir pra casa. Quero uma calcinha limpa. 
"Vou pro banho", "Mas e o café?", "depois, estou sem fome agora". Pela segunda vez hoje, banheiro, porta trancada, jogo minha roupas no assento do vaso. Calcinha molhada, pro chão. Seco, ou tento, todos os fluídos que vertiam entre minhas pernas, lavo as mãos, sento nas minhas roupas e termino meu chocolate mole. Talvez delongando um pouco, curtindo a mistura das sensações, meu reflexo como testemunha. Sem tirar os olhos do espelho minha mão sobe até o prendedor amarelo, a alavanquinha é levantada, consigo ver a marca tortuosa na auréola do mamilo. Mais um pouco do jogo de forças e a boquinha fechada se endireita na vertical, provocando minha pele sensível.
Não aproximo as pontas do prendedor o suficiente, ele parece estar grudado em mim. Preciso da força das duas mãos, com as bases das palmas. Aperto devagar tentando aproximar. Fecho os olhos, o prendedor abre e os lábios paralelos e cruéis se soltam do meu peito. Dor aguda e máxima, a sensação diminui aos poucos. Mãos apoiadas na pia, olhos abertos, pupilas dilatadas. Meu peito está em relevo, um montinho de carne prensada entre as duas marcas que ficaram. Levo as mãos na região e afasto as linhas paralelas alisando a pele sensível. Acaricio meu seio dolorido com as duas mãos. Ligo o chuveiro e o vapor d'água sobe condensando no vidro do box. A água fervendo cai na minha nuca, costas, quadril. O calor percorre meus músculos e me sinto descontrair, minha cabeça pende para frente. 
Relaxada, o alívio toma conta, a vontade de me tocar também... Um sorriso meu ao sentir a presença de uma pessoa querida, afinal, fui proibida de me masturbar.

Algo inocente, não?

sábado, 2 de junho de 2012

Próximo encontro (1 de 2)

Este relato foi originalmente publicado em iFetiche


Era o final de semana do dia dos namorados, data que pra mim é rica de memórias. Não que fosse difícil recordar da infância, mas, com tanta vivacidade, pouco provável. Perder a inocência foi um passo que veio sem música, apenas o cheiro do suor do atrito dos corpos.
Mais uma vez iria ver ela. Estava cheio de expectativas. Mesmo assim, estava pronto para que ela partisse a corda e não quisesse mais coisa alguma comigo. Seria nosso segundo final de semana exclusivos, alheios ao resto do mundo. Era assim que ela gostava de dizer que dedicava sua atenção a mim, aquele momento apenas. Custava acreditar que pudesse separar tão bem as coisas, mas, começa acreditar que era possível.
Busco ela e estamos a caminho da uma pousada aqui mesmo na Ilha. Não conhecia o lugar. Antes mesmo que chegássemos ao lugar pediu a seguinte coisa:
- Estou cansada da semana e suja do dia. Não tive tempo de me preparar antes da viagem. Poderia tomar um banho antes de qualquer coisa?
Não afirmo e nem nego, apenas olho e deixo que interprete como quiser meu semblante. O lugar é bem isolado. Gosto disso. Com ou sem gritos, é bom ter privacidade.
Com a curta intimidade que tínhamos, já morria de tesão por aquela carne pálida. A vontade contida no meu corpo era maior e mais forte do que meu cérebro. O movimento contínuo de rasgar ela nas mais diferentes formas era a sombra da minha insanidade. Entramos na pousada, no quarto, e eu nela. Joguei tão logo seu corpo na parede fria do quarto, que mal teve tempo de reagir. Provável que não o quisesse. Da parede para o canto da cama. Calça nos joelhos, o caminhar dos pinguins e já deixava sua marca ali mesmo, molhando tão logo a colcha por sobre a cama. Meu suor completava o movimento dos fluidos. Não gozei, e nem o queria naquele momento. Ela capota e reclama que não cumpri o trato.
- Ora, que trato?
- De que eu pudesse tomar banho antes.
- Não falei que podia.
- Mas, você me olhou.
- Eu te olho o tempo todo. Agora, pode ir para o banho. Tenho algo especial pra gente.
- O que?
- Banho.
- Não vai me falar?
- Banho.
- Chato.
- Banho, e olha o respeito. Depois apanha, e não sabe o porquê,
- Como se eu não gostasse.
- Garanto que faço não gostar e deixe de enrolar. Banho, mas, antes, vem e me beija.
Ela beija de um jeito sem apego e vai para o banho. Sei que é da natureza dela, mas, é exatamente aí que mora o segredo. Esconder aquilo que consideramos mais valioso. Mesmo que ela não tenha dito explicitamente, sei que pensa assim. O dito pelo não dito. As coisas que guardamos atrás de nós mesmos.
Enquanto se banha, preparo a cena. A minha ideia é pregar uma peça nela. Sento, papel, caneca e cigarro. Sento na poltrona ao lado da cama. Bem colocado este móvel aqui. Vai servir perfeitamente para o que pretendo. O cigarro na mesinha ao lado. Labuta. Como é chato escrever a punho. Tomara que num futuro não muito distante a caneta obedeça direto pensamento. Quem sabe minha letra melhora. Devia ter feito antes. Enfim. Duas cartas, o mesmo texto. Vai ser divertido. Ela aparecer enrolada na toalha e pergunta:
- Preto ou vermelho?
- Não terá importância alguma a cor para o que pretendo.
- Está muito azedo hoje.
- E você, um bocado insolente. Falta pouco para levantar a voz pra mim. Coloque algo prático, é o que posso dizer.
- Escolhe vai. Preto ou vermelho?
- Quero surpresa.
Entra novamente no banheiro para o "ritual mulherzinha". É naturalmente bonita e não entende. É aquela teoria do pijama. Quer saber se uma mulher é realmente bela, manda colocar um pijama. Se ainda assim se sentir atraído por ela, bem, pode casar.
Termino ambas as cartas. A caixa e as cartas no meu colo. Mais um cigarro e a angustia do esperar.
- Não irá desfilar numa passarela. Sabe que não gosto de esperar. Tem 5 minutos para terminar.
(Para quem ficou curioso em saber o conteúdo da carta, clique AQUI)
Está impecável após o banho. Quase que a volúpia cega meu tato e repito os movimentos introdutivos do corpo. Mas, ainda consigo controlar e dou o exemplo frio. Digo que escolha a carta e que leia a mesma. Seria um teste de interpretação das ordens.
Aqui há um momento de ruptura no texto. Posteriormente, ou não, a colcha de retalhos será vista.

Ministério da Saúde não sabe o que é poesia
   

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Diálogo sobre a dor

Texto originalmente publicado em iFetiche


A estrada era escura e a noite fria. O inverno ainda não havia chegado. Talvez não chegasse tão cedo. Fazia um bocado de tempo que não conversava com ela. Não as conversa de internet. Os dois, no carro, voltando de uma noite maravilhosa. Nada excepcional. Um jantar, sobremesa, escutar uma peça de um romântico alemã, um italiano que falava com as mãos, algumas, lágrimas. A volta para casa. Ela não podia ver o mar. Passava da hora dos remédios. E com eles, o tombo é certo. Sei que esteve perdida entre devaneios e dores, mas, parecia melhor, realmente melhor.
Já havia comentado que sua escrita havia melhorado. Se perder dentro dela foi o melhor combustível para sua arte. O mote: a dor. "No inverno uso sapatos de salto alto porque não sinto dor.", foi a frase que me fez ter o insight. Será que ela sabe o que é a dor? Cada vez mais a vejo rodeando a dor. Mas, não aquela fundamental,  mas, aquela que gera o prazer. A dor como ópio, como bálsamo para os sentidos, para a vida sem sentido ou cor. Será que são ecos de mim? Ou é o egocentrismo tentando justificar o mundo que me rodeia? Realmente, não sei. Sei o quanto fico preocupado. Devo ter alguma espécie maldita de Toque de Midas, em que tudo que toco fica podre. Tento puxar o assunto. Perguntar pra ela o como ela tem convertido a dor. Ela nunca falou isso explicitamente para mim, mas, sei que o faz.
- Uso sapato scarpin em casa.
- Apenas isso?
- Também torço o dedo.
- Como?
- É, torço numa posição para doer muito. Aí, as outras dores ficam menores. Até somem.
- Hum. E não tem outras coisas?
- Mordidas. Mas, deixa umas marcas muito feias.
- Sabe o que é isso, né?
- Eu que sempre odiei a dor.
- No teu caso, ela está sendo um remédio para outras dores.
Neste momento, ponderei muito sobre o que falar e em como falar. Mas, fui só silêncio.
- Assista o filme SM-Rechter.
- É bom?
- Assista.

Cilício